sábado, 26 de abril de 2014

Cevide (Melgaço), 1813 - De um crime bárbaro a uma sentença exemplar


Foi considerado na época como um dos crimes mais audazes que possam cometer-se. Um homem de nome Barros fora à romaria de S. Bento, a 11 de Julho de 1813, e dentro da igreja, na ocasião em que se estava celebrando o sacrifício divino, deu, sem causa conhecida, um bofetão no espanhol Basílio Esteves. Frei Luiz Rodriguez repreendeu-o com razão. Mas o Barros enfureceu-se por isso a tal ponto, que, associado logo aos co-réus Francisco Durães e Caetano Velloso atacaram, todos armados, o clérigo. Então este, em sua justa e necessária defesa, foi obrigado a lançar mão de um pau que trazia Luiz António Simão, e da desordem que se seguiu, ficaram levemente feridos os réus Barros e Durães.
Desde esse momento, o Barros e os outros ofendidos preparam a vingança, e correu d'ella o rumor, por forma que Frei Luiz e até o comandante d’Al’arma o participaram por dois ofícios ao juiz de fora de Melgaço, pintando-lhe o risco que corria a vida do clérigo, e pedindo-lhe providências, que ele parece não ter dado, com o que de certo evitaria o crime.
Na noite de 9 para 10 de Outubro de 1813, passam o rio na barca de Cevide, o Barros e seus cúmplices. Chegam ao lugar do Crecente, e, entrados numa taberna, espreitam a ocasião de levar a cabo a maldade. A um sinal dado dirigiram-se, entre as oito e nove horas da manhã, à igreja. Avista-os a vítima, correm ao altar, onde então celebrava cerimónia religiosa, e muito povo assistia. Toma nas mãos uma hóstia ainda não consagrada, e roga-lhes por Deus que o não matem!
Mas a fereza dos algozes não se aplaca, mesmo ao pressuposto de grave ofensa à Divindade. Descarregam logo ali os primeiros golpes sobre o desgraçado, arrastam-no do altar até à porta travessa, e acabam com ele, regressando depois a Portugal pelos mesmos passos. Parece terem sido activíssimas as diligências por parte das autoridades dos dois países para o castigo dos malvados, que não foram logo presos. Dois dos criminosos somente foram capturados a 8 de Novembro de 1813, em Lisboa, onde os entregaram à prisão uns gallegos de Crecente que os conheciam.
Depois de vários recursos, os criminosos foram julgados pelo Tribunal de Relação do Porto. Os juízes referem que este crime bárbaro não devia ficar impune. Choca-os o facto de os réus terem saído armados, invadindo o reino vizinho e aliado para consumar nele este crime atroz de vingança.
A sentença manda executar a pena no Campo da Alameda, fora da porta do Olival, no Porto. Que sejam cortadas as mãos e cabeça a todos os réus, depois de enforcados. Depois disso, manda a sentença que sejam levados os seus corpos pelo executor de alta justiça ao lugar de Cevide (Cristóval – Melgaço), no sitio em que embarcaram os mesmos réus. Aí, os seus corpos serão pregadas em postes altos, onde serão conservadas até que o tempo consuma os seus cadáveres, para que seja nestes reinos, e rios de Espanha, patente aos povos a justa pena do atroz delito que os mesmos réus perpetraram em ofensa e escândalo publico.
José Romão Esteves, espanhol, residente em Portugal, barqueiro que os passou, foi absolvido por se não provar que tivesse conhecimento de que os réus iam perpetrar um crime.

Informações extraídas de:
- SECCO, António Luiz de Souza Henriques, (1880) - Memórias do tempo passado e presente para lição dos vindouros. Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra.

domingo, 20 de abril de 2014

O Padre Aníbal e a construção da Estação de Correios em Castro Laboreiro (1957)


A Estação dos Correios de Castro Laboreiro em 1957

Alcantarada na serra, povoada de gente boa e simples para a qual a vida é dura, porque o alcantilado da terra exige grande esforço no trabalho, Castro Laboreiro vive da agricultura e do pastoreiro do gado. O comércio é reduzido e as indústrias incipientes. E para que a terra progrida há que dar-he novos meios de desenvolvimento.
Decerto por isso foi o Correio-Mor, procurado em Moledo do Minho pelo Reverendo Padre Aníbal Rodrigues, abade de Castro Laboreiro. Explicou-lhe o Correio-Mor que, a Administração-Geral, desejosa de servir a valorização económica e social das localidades menos desenvolvidas, se disporia a instalar em Castro Laboreiro uma estação de correio, simples e moderna, se algum homem bom da terra tomasse a iniciativa de construir para isso edifício próprio, segundo planos dos serviços técnicos dos CTT.
De regresso a Castro Laboreiro, o reverendo Abade Aníbal Rodrigues, arranjou logo construtor. Entre vários pretendentes foi preferido o Exmo. Senhor José Joaquim Esteves, dadas as melhores facilidades de construção no seu terreno. Fica o novo edifício na Estrada Nacional nº 202, próximo do ramal que conduz ao Largo da Igreja Matriz. O prédio tem dois pisos, localizando-se no 1º andar, a residência do Chefe da Estação, e no rés-do-chão a estação, que dispõe de sala do público, sala de serviços, arquivo e dependências para a central telefónica automática e baterias.
A estrada de 30 Km’s que liga a Melgaço, construída há anos, a instalação do serviço telefónico feita em 1953, e agora a criação da estação de correio, e a automatização telefónica, constituem melhoramentos de grande projeção no futuro desta antiquíssima vila que remonta pelo menos ao período romano.
A Administração- Geral do CTT honra-se por seu turno ter dado duas contribuições, decisivas nesse sentido, e uma delas mercê das possibilidades oferecidas a todas as pequenas localidades pelas condições magníficas do Plano da Pequenas Estações de Província.

O caso de Castro Laboreiro, resolvido com a inauguração festiva de hoje, é exemplo típico do que pode a força do espírito de servir e colaborar. Mas neste caso ainda, ou não se tratasse de uma das mais antigas e pitorescas terras de Portugal, é dever de justiça associar a realização  o nome do virtuoso abade da freguesia, que, à boa maneira antiga, se interessa tanto pelos bens espirituais como pelos melhoramentos materiais dos seus paroquianos.

Extraído de:
- 81ª Realização do Plano de Instalação e Reinstalação de Pequenas Estações de Província, com a inauguração da estação do Correio de Castro Laboreiro. Administração-Geral dos CTT, Ministério das Comunicações, Abril de 1957.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Memórias da emigração "a salto" contadas na primeira pessoa (Parte II)


Era invisível a actividade feminina, não paga, no meio rural. Isso servia o ideal de família acarinhado pelo Estado Novo — notou Carolina Leite na tese Eva, depois do paraíso/ Modos de habitar e identidade no percurso migratório, defendida na Universidade do Minho em 1998 —, mas tinha um reverso. A ideia de mulher submissa e devota tornava-as, pelo menos à partida, insuspeitas…. 
De todo o país saía gente, cada vez mais gente. Já não iam tanto atrás do sonho transatlântico, como nos anos 1950. Sonhavam com o Luxemburgo, com a Alemanha, com a França — sobretudo com a França. Era perto, tinha fronteira permeável, volta e meia vinha de lá alguém a contar histórias, como o primo de José.
Desde os anos 1940 que os esforços de reconstrução da Europa exigiam abundante mão-de-obra. Numa primeira fase, muito contribuiu o Leste para suprir a escassez de braços para tanto desenvolvimento técnico e industrial. Com a construção do muro de Berlim, em 1961, o Sul podia assumir maior papel. 
As autoridades francesas facilitavam a entrada e a regularização de indocumentados portugueses. Depois das vagas italiana e espanhola, julgavam estar perante os últimos imigrantes europeus, explica Marta Nunes Silva, a fazer doutoramento na Universidade Nova de Lisboa sobre Emigração clandestina e Mundo Rural entre 1957 e 1974. Os portugueses pareciam-lhes mais assimiláveis do que os magrebinos, sobretudo argelinos, que iam chegando. 
Era “dúbia” a postura do Estado Novo. Apesar de em 1963 ter assinado com França um acordo de migração de trabalhadores, Portugal dificultava os processos de autorização de saída. Não por acaso, diz a historiadora. Travava uma guerra no ultramar, mas importava-lhe manter boas relações com França, que até lhe vendia material bélico. E dava-lhe jeito trocar mão-de-obra excedentária por capital estrangeiro.
Se o regime quisesse mesmo suster o fluxo, teria vigiado mais as fronteiras e tratado de perseguir melhor os infractores. A polícia política — escreveu Victor Pereira, no livro A Ditadura de Salazar e a Emigração, que está a chegar às livrarias — mais queria “perseguir os militantes comunistas para proteger o país da ‘subversão’ ou ‘combater a rebelião em África’ para defender o Império do que vigiar a fronteira e a saída de milhares de camponeses”.
O Estado Novo não se esforçava para frear a saída dos homens, mas obrigava-os a um esforço tão grande que pouquíssimas mulheres se atreviam a partir. “A masculinização da emigração e a separação temporária do núcleo familiar asseguravam o envio de divisas dos trabalhadores para Portugal e a manutenção de uma estratégia migratória orientada para o regresso”, escreveu o historiador.
Entre 1960 e 1974, um milhão e meio de portugueses, um sexto da população residente, saiu de Portugal. O movimento de saídas chegou a ultrapassar os cem mil anuais — em 1969, 1970 e 1971. A França registou a entrada de 293.758. Regularizou a presença de outros 325.974. 
Esvaziavam-se povoações no Minho, em Trás-os-Montes, na Beira Alta, nas ilhas. “As redes ganharam ainda mais espaço nas aldeias, alargaram-se ainda mais da fronteira para o interior”, narra Marta Nunes Silva no livro Os Trilhos da Emigração — Redes clandestinas de Penedono a França, lançado em 2011. Nem só os homens aproveitavam a geografia de Melgaço para ganhar algum, como já se viu. Perto do marco de fronteira n.º 1, lá onde o rio Trancoso encontra o rio Minho e Portugal começa, labutava a Raquelinda Pereira, pequena, franzina, de sobrancelhas arqueadas, um nariz que é uma graça.
Sempre andou na lida, sempre foi “governadeira”. Nem agora, aos 81 anos, quase confinada à casa, tira a bata. Instalou-se ali, no lugar de Cevide, para melhor fazer o seu contrabando. Aos sete anos, já ia com os irmãos à vila buscar uma barra de sabão para passar aos galegos. Trazia-a às costas, “toda contente”, numa “mochilinha” que lhe fizera a “mãezinha”. Com isso, já “ganhava um pouquinho”. 
“Viciei-me nisso”, diz a mulher, já curvada, desdentada, no seu português cantado. Parece-lhe que passou “de tudo quanto havia” de cá para lá, de lá para cá, conforme as necessidades de um lado ou de outro. E, um dia, era já uma “adultona”, pôs-se a passar gente. 
Não era uma originalidade. Na raia luso-espanhola, muitas redes de emigração clandestina eram extensões de redes de contrabando. Quem passava azeite, café, amêndoa, não podia passar gente? Eram os mesmos caminhos, os mesmos códigos, a mesma necessidade de escapar às autoridades, como observa o sociólogo Albertino Gonçalves, investigador da Universidade do Minho com várias publicações sobre esta matéria. Dali até saíra volfrâmio com destino à Alemanha nazi.   
Raquelinda não era de medo, era de antecipar manhas alheias. Comprou uma pistola de pequeno porte e elevada potência. Uma 6.35 mm. “Gostava muito dela.” Não a largava. “Havia que ter respeito. Aqueles homens todos sem a gente conhecer… Alguns eram maus.” “A gente não lhes podia confessar medo.” 
Iam os moços à frente, por ali abaixo. O que ela queria era que “fossem direitinhos, como as ovelhas quando se botam num rebanhinho”. Tinham de ir por carreiros, tantas vezes estreitos, por vezes íngremes. “Tinham de passar por onde calhava.” Lembra-se de os ouvir resmungar: “Isto é que é o caminho?” Empunhava a pistola, se necessário fosse. Dizia-lhes: “Vamos! É por aqui. Vamos!” 
Parece fácil agora que, ali, no lugar de Cevide, a fronteira é uma ponte e a casa da Guarda Fiscal é uma casa de férias. Quando o rio Trancoso ia minguado, dava para saltar de penedo em penedo. Quando engrossava, era o diabo. Impunha-se andar pela margem acima. O que lhe valia é que não faltava para onde. Melgaço tem 39 quilómetros de fronteira fluvial, 22 quilómetros de fronteira seca. 
Um padre de Braga enviava-lhe homens. Por vezes até lhos trazia. A notícia propagava-se de boca em boca: “Ai a Raquelinda põe na França.” E lá lhe apareciam mais homens, jovens, pouco escolarizados, sobretudo nortenhos. “Havia camionetas e comboio de Monção para baixo.”
Andava a “adoçar o bico aos polícias”, para que eles não a tivessem no seu ponto de mira, e mesmo assim arriscava-se a ser fechada numa cela, sem ver sol nem lua. Uma vez, um dos homens “perdeu-se do rebanho” ou arrependeu-se de o seguir e quis voltar para casa, já nem sabe. Em vez de se sumir no campo de milho, entregou-se à Guarda Fiscal. “Paguei-as todas eu!” Sentou-se com as duas ajudantes no banco dos réus. “Tivemos uma querela com os juízes. Tivemos toda a noite no tribunal. Nós chorávamos. Nós fazíamos tudo para que nos dessem a mínima pena.”
Cumpriu 23 meses de prisão e pagou 18 contos de multa. Esteve primeiro na cadeia de Monção. “Havia lá cada rato! Grandes, com rabo comprido! Ai! Quem estava lá tinha-lhes medo.” Pediu transferência para Melgaço. Sempre ficava melhor. Os “paizinhos” iam visitá-la com o “filhinho” dela, ainda pequeno.
Não dava para enriquecer. “Era uma vida triste e alegre, de ganhar dinheiro mas também de o perder. Era um jogo”, resume. “Pagavam conforme podiam, coitados. Alguns eram pobres, não podiam pagar. Alguns iam pedir emprestado e depois pagavam juros. E, pronto, fiquei sem muito dinheiro porque não mo deram. Foram-se embora! O que quiseram foi apanhar-se na França. Depois, adeus.”
A reacção das autoridades ao auxílio à emigração clandestina era mais severa do que ao contrabando. Dizia-se que fazer contrabando “era crime, mas não era pecado”. Na imprensa, sujeita à censura prévia, os passadores eram tomados por mafiosos. O regime usava-os como bodes expiatórios do êxodo. Tentava, escreve Victor Pereira, “preservar, a qualquer preço, a imagem de Épinal do povo bom e inocente”.
A Raquelinda não picavam os remorsos, como as pulgas. “A gente ia por aí acima de cara a Castro [Laboreiro], a gente via essas casas de palha por cima. Plantava fogo às vezes naquelas casas. Era uma desgraça. Ardia gente e tudo! Depois começaram a ir para França. Toda a gentinha a mandar um dinheirinho para cá. E toda a gente a governar-se bem. Começaram a fazer casas. Agora quem vai de cara a Castro [Laboreiro] vê cada casa… cada casa importante. Tudo à conta do emigrante, dos aventureiros que fomos nós, que nos arriscámos a ir para a prisão!” 
Quando saiu da prisão, falou com o espanhol a quem antes entregava os homens para que os guiasse até outro, que os haveria de ajudar a saltar a fronteira franco-espanhola. Pediu-lhe: “Põe-me na França lá donde uns parentes meus.” E ele levou-a — e às duas ajudantes — de carro. Sorte a dela que já decorria 1965. Até então, poucas mulheres se tinham atrevido a ir “a salto”. Ir “a salto” implicava passar muito tempo com desconhecidos, em idade viril, em casebres e camiões. O povo falava muito. Mulheres houve que perderam “a honra” pelo caminho. 
Naquele ano, os espanhóis acordaram com os franceses a facilitar a entrada e estadia dos portugueses em Espanha e a sua passagem para França. Em Espanha, bastava-lhes apresentar um documento de identificação para receberem um salvo-conduto que lhes permitia permanecer no país 30 dias. Com isso, podiam ir até à fronteira franco-espanhola: os agentes franceses atribuir-lhes-iam um certificado de controlo, que teriam de apresentar para regularizar a sua situação.
A masculinização da emigração e a separação temporária do núcleo familiar asseguravam o envio de divisas dos trabalhadores para Portugal e a manutenção de uma estratégia migratória orientada para o regresso”
Queixavam-se os espanhóis de gastos com detidos portugueses que Portugal pouco punia. E estavam cansados os franceses do estado deplorável em que lhe chegavam os portugueses. A uns e a outros parecia ajuizado diminuir a necessidade de passadores em Espanha e dispensá-los na fronteira com a França. Na gare de Hendaia (Irún) instalou-se um centro de acolhimento de migrantes.
Portugal reagiu. Em 1966, intensificou a pena de auxílio à emigração clandestina. O que antes ia até dois anos de prisão passou a ir de dois a oito. Vida mais arriscada para engajadores, transportadores e passadores. Viagens mais cómodas para clandestinos, que passaram a usar mais o comboio, a camioneta ou o carro. Um incentivo ao reagrupamento familiar e à emigração de mulheres solteiras, como Raquelinda. 
A presença das mulheres intensificou-se. Essa tendência foi em crescendo até 1968, ano em que saíram mais mulheres com documentos em ordem do que homens.
Naquela época, era vulgar motoristas prestarem serviços a engajadores e passadores. Nas suas investigações, a PIDE e a guarda esforçavam-se por perceber até que ponto eles estavam envolvidos nas redes de auxílio à emigração clandestina, até porque o veículo reverteria para o Estado. Alguns tornavam-se autónomos. Seixo, que tantos homens conduzira até Raquelinda, foi um deles. 
Vivia na freguesia de São Gregório, como Raquelinda. Mal se casou com a sobrinha, Lurdes Durães, meteu-a no negócio. Era uma rapariga de face rosada, olhos castanhos, ternos, magra como um pau de virar tripas. “Quarenta quilos era o meu peso”, diz ela. Óptimo para o disfarce. “Usava uma cinta para levar os passaportes falsos.” Quem os fazia era o padrinho dela, exímio na arte de copiar. Punha o nome e os carimbos de saída de Portugal e de entrada em Espanha. 
Eu olhei, dei com os olhos do senhor novo [carabineiro]. Ele viu tanta aflição, tanta aflição na minha cara que deitou a mão ao ombro do outro e disse: ‘Vamos embora, deixa-os ir’.”
Lurdes ia com o marido buscar gente “a Monção, a Paredes de Coura, a Braga, ao Porto, aonde fosse”, e entregava-a a um passador, perto de casa. O homem esperava-os à hora combinada nas casas de banho, atrás da escola. Não havendo guarda, desaparecia em menos de um ámen. Havendo, fazia tempo por ali. O casal apanhava-o no outro lado da fronteira e transportava-os até Ourense, de onde seguiam, de camioneta ou comboio, até à fronteira franco-espanhola.
O taxista chegava a ir a Espanha duas vezes no mesmo dia. Estava convencido de que levantaria mais suspeitas se viajasse sozinho. “Onde ides?”, perguntava o guarda. “Vamos ali buscar pão.” Quando tiveram o filho, ia o bebé ao colo da mãe. “Onde ides?” “Ai, vamos com ele ali ao médico.” 
Quando iam a Monção buscar gente, serviam-se do palácio de Brejoeira, faustosa construção com 18 hectares de vinha, oito de bosque, três de jardim. Seixo estacionava no fim do muro. Ao vê-los ali, havia quem parasse a perguntar: “Precisa de alguma coisa?” Para se livrarem disso, encenaram um enjoo. “Eu saía, ia para aquele terreno devoluto como se me encontrara mal.”
Era cada susto. Um dia, passaram uma rapariga de Paredes de Coura, forte, alta, tão alta que quase não cabia no carro. Vestia um casaco de “uma malha muito fininha, forrado com esponja”, de um azul tão forte que fazia doer os olhos de Lurdes, e trazia uma mala recheada, “como se fosse para férias”. Abriram-lha, tiraram de dentro o que podiam levar. Arrumaram tudo dentro de uns sacos.
— É Inverno, a mulher vai ter frio, veste o casaco dela — terá dito Seixo à mulher.
— Está bem.
Naquele dia, quando o marido foi mostrar os passaportes, o polícia de serviço puxou conversa com ele. À porta, a fumar um cigarro, estava o chefe. Atirada a beata, aproxima-se dela: “Levas um casaco muito bonito!” Ela tremeu como varas verdes. 
Tantas vezes andava ela com o coração aos pulos. Nenhuma como quando levou duas raparigas dos Arcos de Valdevez. Ali em Frieira, para lá da casa de Raquelinda, costumavam estar dois carabineiros. Apareceram “um senhor de bastante idade e um rapaz novo”. Lurdes gosta de olhar para as pessoas nos olhos, mas aqueles não. Ficava virada para a frente, “direitinha”, como uma criança amedrontada. O marido abriu a gaveta do tablier, tirou os passaportes de ambos e entregou-os. 
— E elas? — perguntou o mais velho, de olho nas raparigas que iam no banco de trás. 
— Elas são nossas vizinhas, iam ao médico a pé a Ourense e nós tivemos pena delas e demos-lhes boleia” — respondeu ele.
O mais velho ordenou-lhes que saíssem do carro e que os acompanhassem ao posto. Lurdes até pensou que o seu coração ia rebentar. “Eu olhei, dei com os olhos do senhor novo. Ele viu tanta aflição, tanta aflição na minha cara que deitou a mão ao ombro do outro e disse: ‘Vamos embora, deixa-os ir’.”
Seixo sabia o que era a prisão. Antes de se casar, fora preso pela PIDE e levado para o Porto, onde amargara 45 dias. Um cliente fora detido na fronteira franco-espanhola e denunciara-o. A notícia viera por ali abaixo. Passara o regato com duas crianças da família. Negaram tudo. Negar era a sua única defesa. 
Quando a luz eléctrica chegou à aldeia, em 1969, talvez 1970, Lurdes e o marido mudaram de vida. Abriram um café, mesmo ao pé da PIDE. Compraram um segundo táxi. O motorista contratado para o conduzir ainda transportou alguns clandestinos, mas poucos. O contexto era outro. 
Salazar caíra da cadeira de lona, no Forte de Santo António, no Estoril. O país vivia a Primavera Marcelista. Logo em 1969, a emigração clandestina deixou de ser crime — passou a contra-ordenação punível com multa, a não ser que se estivesse a escapar ao serviço militar. Qualquer interveniente na emigração clandestina sujeitava-se então a 18 meses de prisão — mais se ganhasse dinheiro com isso.
No café de Lurdes, o chefe da PIDE sentava-se sempre na mesma mesa, de costas para o balcão. Se entrasse um desconhecido, ela adivinhava ao que vinha. Punha-se a olhar para ele. Esticava o dedo médio e o indicador e levava-os ao ombro. Nem todos decifrariam tal gesto, mas, se para ali ficassem, quietos, com ar de quem nem sabia o que fazer, o PIDE levantava-se e saía. Se tivessem dinheiro, Lurdes chamava-lhes o passador. Se não, ensinava-lhes o caminho. 
Não acredita Lurdes que enganava a polícia. “As pessoas não eram parvas, fechavam os olhos porque queriam.” O historiador Victor Pereira também está convencido de que a corrupção não explica tudo o que se passava na fronteira. Muitos agentes conviviam desde pequenos com aquela realidade, alguns tinham “entre os seus mais próximos, passadores, contrabandistas ou emigrantes clandestinos”, alguns até já tinham feito parte do negócio antes de entrar na polícia.

Portugal era um país pobre, conservador, rural, de certo modo feudal. Os “senhores das terras” defendiam com unhas e dentes a política oficial de enclausuramento. Em Melgaço, chegaram a fazer manifestações a exigir que a PIDE combatesse melhor a emigração clandestina. 

Para ver a parte I da reportagem, clique em http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/2014/04/memorias-da-emigracao-salto-contadas-na.html

Texto extraído de:
- Reportagem "Passadoras de Homens e outras aventureiras" de Ana Cristina Pereira, Adriano Miranda e Mariana Correia Pinto, do jornal "Público" da edição de 13 de Abril de 2014.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Memórias da emigração "a salto" contadas na primeira pessoa (Parte I)



Já lá vão mais de 50 anos e a irmã mais velha de José Gonçalves ainda fica levada do diabo quando lhe falam nisso. “Foi embora sem dizer nada aos pais! A minha mãezinha berrava muito! Ai, o que me havia de fazer o desgraçado!” Estaria preso? Estaria morto? Só pedia “que a bênção de Deus o cobrisse”.
Em Castro Laboreiro, na serra da Peneda, qualquer família que se prezasse tinha casa de Verão e casa de Inverno. Os pais já tinham ido para a casa nas brandas, nome dado aos lugares que pontuam o planalto. José ficara com uma irmã e uma sobrinha nas inverneiras, os lugares que polvilham o vale, de clima menos inclemente. A menina carecia de leite e lá estavam as cabras e as ovelhas.
A casa resiste. Paredes de cantaria a fazer dois pisos. Por cima, gente; por baixo, gado e alfaias agrícolas. Andava por ali quando deu de cara com dona Prazeres. Capucha de burel enfiada na cabeça, tamancos toscos seguros aos pés por correias, vinha perguntar-lhe se sempre queria ir para França, como lhe confidenciara. 
Homens robustos, tantos deles de mãos ásperas, passavam há muito por Melgaço. Mais a partir de 1961, com a eclosão da guerra em Angola que se haveria de estender a todas as colónias. Obter um passaporte de emigrante era difícil. A maior parte avançava com passaporte de turista, passaporte falso ou “passaporte de coelho”, isto é, sem documentos, “a salto”. 
José tinha 16 anos “mal feitos”. Não queria ir para a guerra. Não era homem de guerras. Nem queria fazer vida de enxada na mão. Tinha braços rijos e alma escorreita. Sabia bem o que faziam os iguais a ele. Ali, em Castro Laboreiro, cobriam-se de preto as mulheres de todos os que abalavam. 
Deteve-se na ponte de Varziela, estrutura medieval, de granito, com um arco em forma de cavalete, a pensar se haveria de falar com os pais, como combinara com dona Prazeres. O velho ia dar-lhe com um não. Por vontade dele, esperaria pela carta de chamada de um primo, mas José não queria ir para ao pé desse, conhecido por “morto de fome”, queria o outro, o que havia pouco ali estivera de férias. 
Decidiu partir sem uma palavra. Passou pela mercearia da vila. Pediu um par de calças, uns quantos lenços, uns cigarritos para pôr na conta do velho. À hora combinada, estava junto de dona Prazeres. “Vais sempre a andar 200 metros à minha frente por causa da Guarda Fiscal”, ordenou-lhe ela. Nem só ela se arriscava. Dois meses depois do ataque da União das Populações de Angola, que desencadeou a guerra colonial, emigrar sem permissão tornara-se crime punível com dois anos de prisão. Na casa isolada na montanha a que ela o conduziu, cinco homens aguardavam passador espanhol. 
Que estirada comprida aquela! Um mês lhe tomou. Fevereiro de 1962, um frio danado. Caminhavam tanto que até se aqueciam. Dá-lhe que dá-lhe. Só souberam o que era carro para lá de Ourense. Nem sabe dizer o nome dos lugares pelos quais passaram. Atravessaram baldios, campos de cultivo, vinhas com arames aguçados. Ficou com as calças num trapo. E habituado estava ele a andar com o gado na serra. Saltava como um cabrito. Podiam ficar dias, escondidos, à espera do momento certo para voltar a andar. Furavam a noite. Luziam-lhes os olhos. Dormiam em palheiros ou em currais. Deitavam-se uns colados aos outros. Mal se esticavam irrompiam em roncos.
O grupo ia engrossando. Antes de chegar aos Pirenéus, José alcançou o alfaiate que saíra da sua terra 15 dias antes. “Ia estafadinho. Era um fracote.” Inquietou-se com aquele pobre de Cristo. “Eu ouvira dizer que muitos passadores atiravam aos corgos, ao rio, a um buraco qualquer quem não chegava a reagir de andar. Ia sempre atrás dele. Vinha o passador, chicoteava-me para passar para a frente. Nunca o deixei. Levava umas chicotadas, ia para a frente, mas voltava para trás.” 
Entrando em França, arrumaram-se 73 ou 75 homens num camião. No semi-reboque, bidões faziam de retrete. Naquele aperto fétido, fungavam alguns machos, tantos já maridos, por vezes pais. “Coragem”, eis a palavra que ainda agora lhe ocorre. Era para tirar o ventre de misérias que caminhavam em direcção ao desconhecido, sem saber francês, de mãos a abanar, com uma morada no bolso. 
Para prevenir maltrato e abandono, muitos tinham deixado parte do dinheiro da viagem em casa de pessoa de confiança. Ela entregaria as notas ao engajador depois de receber uma carta ou parte de uma fotografia rasgada. José nem isso. O pai, que dona Prazeres tão bem conhecia, que lhe pagasse.
Mandou notícias mal se juntou ao primo. Contou aos pais que levara muito tempo no caminho, comendo apenas “migalhas de pão com chocolate”. Passara fome. “Vira-me aflito para fazer do corpo.” Perante tal relato, em vez de 8500 escudos ajustados com dona Prazeres, o pai entregou-lhe 8 mil. “Não faças isso, esse é o ganhinho dela”, pediu-lhe a mãe. Tinha razão, era a sua parte. O dinheiro teria de se dividir por todos os que guiaram o moço até Versalhes. Sem o marido saber, a mãe pagou os 500 escudos à angariadora, mulher sem homem, com filhos.

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Texto extraído de:
- Reportagem "Passadoras de Homens e outras aventureiras" de Ana Cristina Pereira, Adriano Miranda e Mariana Correia Pinto, do jornal "Público" da edição de 13 de Abril de 2014.

domingo, 13 de abril de 2014

Castro Laboreiro, anos 30: as migrações e o contrabando descritos no livro "Maria dos Tojos"

Castro Laboreiro, noutros tempos
(Foto de António Jorge Barros)

No seu romance “Maria dos Tojos”, publicado em 1938, o jornalista melgacense Miguel Ângelo de Barros Ferreira centra a intriga de um violento drama amoroso em plena serra, numa aldeia em Castro Laboreiro, onde o povo vivia, nos anos trinta, entre as lides nos campos de semeadura, o pastoreio comunal e a dolorosa emigração sazonal. Nómadas do trabalho assalariado, os que partiam, se menos ambiciosos para se atreverem a demandar as Astúrias, Catalunha ou França, iam só até Trás-os Montes ou Beira Alta, “em peregrinação a pé, por exiguidade de recursos (...), varando serras sem noção de fronteiras”, que os limites da sua freguesia morriam na Ponte Velha ou, pouco além, na “Ameijoeira, no Ribeiro de Baixo, que dividia a fronteira portuguesa da espanhola”. Partiam as levas no Outono, “mal os primeiros frios anunciavam a aproximação do Inverno” e, “quando voltava a Primavera, regressavam alegres, aos lares humildes, com um pecúlio amassado de privações e submissão à ganância dos mestres de obras que, à custa do suor alheio, ganhavam o descanso das suas velhices”. Alguns mais moços resignavam-se a ficar, mas sempre inconformados com este “viver na serra, entre mulheres que arroteavam as terras, na ausência dos maridos e dos irmãos, e homens decrépitos, que viviam das recordações da sua mocidade trabalhosa”.
As Astúrias, no início dos anos trinta, eram terras que atraiam os raianos do sítio com dois duros pagos por dia, quando na serra em que viviam mal dava para comer. A passagem do gado para a Galiza, modo de vida para alguns, não constituía, bem vistas as coisas, “uma desobediência mas uma imposição da miséria” – que o lucro de dois tostões, com “risco de apanhar um tiro” mal lhes dava “para sustentar os filhos no dia seguinte”. O longo capítulo “O contrabando”, do romance “Maria dos Tojos”, é expressivo e de abundante pormenorização acerca do tráfico de bovinos, nesse tempo de antes da guerra civil, aproveitando os campos contíguos das faldas da serra com as pastagens galegas. Os ventos pareciam varridos de mudança e não transparecia o motivo: “os géneros alimentícios eram generosamente pagos em Espanha, como se a fome houvesse alastrado por aquelas províncias fartas da Galiza, que antes lhes forneciam com barateza os raros mimos dos seus cardápios de dias de festa”. Como erva em chão húmido, assim alastrava a aranha contrabandista. Barros Ferreira descreve assim o panorama da época: Aumentava o custo de vida em Portugal, mas o lucro do contrabando tudo compensava. Depois, cada junta de bois rende mais do que nas feiras. O antigo valor aquisitivo da sonoras moedas de coroa, muitas das quais ainda ostentavam ainda a égide de D. Luiz , rei de Portugal e dos Algarves, decaiu para menos de um tostão, e os serranos já não sabiam fazer contas, tomando como base das suas transações a “moeda”. Homens e mulheres, à porfia fizeram subir a escala e a audácia do contrabando: “Do arroz e açúcar, para consumo doméstico, cresceu, tomou impulso, estendeu-se ao  tecidos caros, ao calçado e ao azeite, para os comerciantes da “ribeira”, onde iam comprar milho das colónias, a preços reduzidos e entregue por meio de requisições, e que pagavam por bom preço, no outro lado, numa fábrica de destilação de álcool de cereais”. O contrabando organiza-se em empresa “que atraía capitais, pois o lucro compensava largamente os prejuízos e os riscos”.
A dificuldade maior, quanto ao gado, era “conduzir os bois até ao outro lado do ribeiro”, pois se os carabineiros se mostravam complacentes, os guardas-fiscais mostravam-se rigorosos. O tráfico vertia-se em dinheiro e do lucros saíam comissões para os conhecedores da terra que adquiriam os animais aos camponeses da zona e angariavam compradores na fronteira galega depois de passá-los a vau.

Contudo, tanto do lado da Galiza, “defronte, na outra margem do ribeiro”, como de Portugal, “a mesma cadeia de montes se abraçava”, não ficando a raia mais que “uma convenção” e a noção de Pátria convertida em fronteira. No lado de lá, havia um posto de carabineiros, para repressão do contrabando; na margem portuguesa, um quartel de guardas-fiscais. Contudo, neste meio pequeno, todos se conheciam e cumprimentavam. Havia uma espécie de confraternização entre os carabineiros de tricórnio de oleado, os guardas-fiscais e os contrabandistas, num tácito reconhecimento de que deviam o pão à existência comum. Evitavam astutamente encontrar-se, para que não houvesse quebra da disciplina nem abuso da tolerância”. Tácito realismo, suficiente para o contrabando ser aceite como um mal necessário.


Capa do livro "Maria dos Tojos" (1938)

Informações extraídas de:
- MARQUES, João Francisco, (2004) - O Contrabando no Romance Contemporâneo Português - Contextos Espacio-Sociais e Histórico - Económicos. Estudos em homenagem a Luis António de Oliveira Ramos, FLUP, Porto. 


Nota: Este livro serviu de argumento para a realização do filme "Serra Brava" do realizador Armando Miranda de 1948.



quarta-feira, 9 de abril de 2014

Viagem a S. Gregório (Melgaço) em 1894


S. Gregório, no início do século XX

Tendo sido encarregado pela Direcção do Jardim Botânico da nossa universidade de fazer uma exploração botânica ao norte do paiz, escolhi como ponto de partida a aldeia de S. Gregório, no concelho de Melgaço.
Parti para ali no dia 18 de Junho do corrente anno (1894). Acompanhou-me por alguns dias o nosso amigo, o Sr. Augusto Nobre, redactor d'esta revista, que desejava explorar a fauna do rio Minho e seus afluentes.
S. Gregório é uma pequena povoação que fica situada na fronteira e dista de Melgaço oito kilometros. Outrora esta povoação teve um commercio importante, mas depois decahiu muito; actualmente porém tende outra vez a animar-se. A estrada que a liga com Melgaço tem já 7 kilometros concluídos, falta-lhe o oitavo e último, que anda em construcção.
S. Gregório não é sede de freguezia, a igreja matriz está n'uma pequena povoação a cerca de um kilometro de distancia. Este facto, de povoações importantes não serem sedes de freguezia, dá-se em vários pontos do paiz, como por exemplo na Mealhada e no Cargal do Sal que são cabeças de concelho e têm a matriz em aldeias próximas. A parte alta de S. Gregório está a cerca de 250 metros acima do nível do mar e o rio Minho fica-lhe ao norte à distancia aproximada de 1,500 metros.
Do nascente, banha a parte bnixa d'esta povoação o pequeno rio ou ribeira de Trancoso, affluente do Minho, que limita Portugal da Galiza e tem a sua origem próxima a Alcobaça, Há uma pequena ponte internacional sobre a ribeira de Trancoso, que liga S. Gregório com uma pequena aldeia hespanhola e onde existe um posto de fiscalização aduaneira.

A estação do caminho de ferro da Galliza, marginal ao Minho e chamada Frieira, está approximadamente a 1,800 metros de distancia de S. Gregório, porém, o caminho que conduz alli é mau e tem de se atravessar o Minho em barco.
Dos lados sul e poente de S. Gregório está a serra que tem por ponto culminante o castello de Castro Laboreiro o qual fica a cerca de 1,250 metros de altitude. Para se ir a esta povoação passa-se pela aldeia denominada Alcobaça, situada na fronteira e que fica perto de 2 horas e meia de caminho de S. Gregório.
A poente de Alcobaça há um monte que tem a mesma altitude de Castro Laboreiro. D'esta parte da serra já me occupei n'uma noticia que dei sobre a serra do Soajo no Jornal de Horticultura Pratica, do Porto, no numero de Novembro de 1890.
O solo em volta de S. Gregório ó todo de origem granítica. Esta povoação é abundante em água e de boa qualidade. S. Gregório é saudável e o seu clima é temperado na estação invernosa e quente durante a calmosa. Para exemplo diremos que, no dia 26 de Junho ás 2 horas da tarde estando a atmosphera bastante carregada de electricidade, dentro de casa marcava o thermometro 30° C. O quarto onde fiz esta observação thermometrica tinha duas janellas voltadas para o norte e estavam com as vidraças abertas. Na mesma occasião fiz a leitura do meu aneróide o qual marcava 738 mm.
A cultura principal de S. Gregório e povoações limítrofes é a vinha, milho, batata, algum centeio e os prados. A videira é toda cultivada em parreiras ou ramadas, mas estabelecidas a pouca distancia do solo, isto é, em média a cerca de 1 metro e meio d'altura.
O vinho é magnifico e achamo-lo muito mais agradável ao paladar do que o affamado de Monsão. Árvores fructíferas observamos a cerejeira, em grande quantidade, pereiras, macieiras, ameixoeiras, pessegueiros, laranjeiras, etc. N'outro tempo cultivava-se ali a oliveira, mas como a producão era muito incerta os lavradores foram-nas arrancando, de sorte que hoje esta árvore é ali rara. Talvez valesse a pena introduzir as variedades hespanholas de maturação precoce e próprias dos climas septentrionaes do paiz.


S. Gregório, em 1911

Enquanto árvores florestaes encontram-se : o carvalho, castanheiro, pinheiro, vidoeiro, amieiro e alguns salgueiros.
Próximo a uma azenha que fica junto à ribeira de Trancoso e não muito distante de S. Gregório, vimos um lindo exemplar de vidoeiro com o tronco muito direito. Teria uns 20 metros de altura por 60 centímetros de diâmetro na base. As essências florestaes abundam principalmente na parte inferior da serra, próximo aos ribeiros e corgas. A parte elevada tem pouco ou nenhum arvoredo e só matto rasteiro, e este mesmo não apparece em todas as localidades.
A flora em volta, de S. Gregório e bastante rica em espécies, mas não apresenta grandes novidades. É, porém, possível que na Primavera se encontrem nos montes espécies interessantes.
Na época em que ali estivemos, as plantas dos montes já estavam seccas ou tinham já florescido. Só na parte baixa da serra e nos altos, nos pontos onde havia água, é que se encontravam plantas em flor. Ainda assim fizemos uma colheita muito sofrível. Enquanto à fauna, pouco pudemos observar, pois o nosso fim era fazer uma exploração botânica e pouco tempo nos restava para outros estudos.
Ainda assim pudemos averiguar o seguinte : habitam ali alguns mamíferos como a lebre, coelho, raposa, texugo, lontra e, nos pontos mais distantes, o lobo, javali e corso.
De entre as aves que vi citarei: perdiz, codorniz, cuco, poupa, corvo, pega, gaio, pardal, tentilhão, pintassilgo, alvéola, papa-figo, melro, pisco, chapim, andorinha das chaminés, andorinhão, etc.
No rio Minho encontra-se a truta, boga, escalo, e a enguia, camarões e mexilhões. Na época própria pescam-se salmões, truta marina, sáveis e lampreias. Em Melgaço vimos a vender no mercado barbos que diziam ser pescados n'este rio. Na ribeira de Trancoso só se encontram a truta e a enguia.
O Sr. Augusto Nobre n'um passeio que fez à serra, capturou, ao atravessar um caminho, uma víbora que, quando ma mostrou, vi logo que me achava em presença de uma espécie que não era uma espécie comum.
Depois de eu regressar a Coimbra este nosso amigo escreveu-nos dizendo que já a tinha determinado e era a Vipera berus L., e que a descreveria no presente número d'esta revista. Que saibamos, esta víbora até hoje só tinha sido encontrada por Steindachner nas vizinhanças do Porto.
Algumas pessoas, tanto em S. Gregório como em Melgaço, afiançaram-nos que na serra, e principalmente entre Alcobaça e Castro Laboreiro, habita uma lacertidea a que lá dão o nome de Escorpião e da qual diziam ser um pequeno lagarto quasi com o aspecto de uma lagartixa, pouco mais ou menos de um palmo de comprimento. Este animal, segundo me disseram, tem a particularidade de apresentar duas membranas, dos lados do corpo, que pôde desenrolar ou estender para saltar como que voando ao mesmo tempo. Acrescentavam que este réptil aparece com mais frequência no tempo das ceifas dos fenos, saltando ou voando diante das gadanhas e escondendo-se durante o inverno nas medas das palhas e fenos. Diziam ainda que os caçadores temem este animal, porque mordendo na cabeça dos cães, produz-se uma grande inchaço, resultando muitas vezes a morte.
Talvez aqui haja confusão e seja antes a mordedura de uma espécie de víbora (Vipera berus L.), que cause isto, e não a d'aquelle animal, pois também ouvi dar o nome de escorpião a esta víbora. Não temos elementos bastantes para conjecturar com segurança que espécie de animalejo possa este ser, ainda não arquivado, que saibamos, em nenhum dos museus públicos do país.

Extraído de : MOLLER, Adolfo Frederico (1894) - Excursão à serra de S. Gregório. in: Annaes de Sciensias Naturaes, Volume Primeiro, publicado por Augusto Nobre.

sábado, 5 de abril de 2014

A freguesia de Paços e a sua Igreja Paroquial: algumas referências históricas

A Igreja Paroquial de Paços (Melgaço) e área envolvente
(Foto de J. Braga)

O topónimo (Paço, contracção de Palácio) deriva, de acordo com alguns estudiosos, do facto de aqui ter havido não um mas diversos palácios, ou casas solarengas, para alojamento de grandes senhores e suas gentes.
Trata-se de uma povoação inquestionavelmente remota, e teve decerto a sua origem na contínua pas­sagem de povos entre as duas margens do rio Minho. Deverá ter sido “a sede de uma antiquíssima vila romana que enquadraria todo o Melgaço medieval.”
Acrescenta o Padre Manuel Bernardo Pintor: “Movimento à localidade deve ter-lhe dado uma passagem que havia no rio Minho, por onde, em recuados tempos, passavam os peregrinos que demandavam o santuário jubilar de Santiago de Compostela, bem como pessoas que, das redondezas, se dirigiam para além Minho por motivo de seus negócios.
“Era o Porto de Bergote. Tal devia ser a sua importância e o movimento da passagem que a localidade se chamava Bergote de cá e de lá, em ambas as margens do rio, como atesta um documento do mosteiro de Fiães do ano de 1223 pelo qual Toda Monis com os seus seis filhos e filhas de apelido Fernandes e mais os filhos de Marinho Fernandes, que, pelo apelido, se deve presumir ser irmão do marido, venderam uma herdade a Fernando Sanches. Aqui se declara:
— A mesma herdade está situada na vila que chamam Bergote. Vendemos-te quanto aí temos em uma parte do Minho e na outra.
“Caso estranho o facto de no fim do do­cumento se mencionarem não as autoridades de Portugal mas, sim, as de Leão, entre o Senhor de Crecente, isto é, o governador, que era capelão régio, Pedro Fernandes.”
As Inquirições de D. Afonso III, em 1258, falam de Bergote, pertencente ao concelho de Melgaço. As de D. Dinis, em 1290, referem Bregontim, no julgado de Melgaço, antepondo-lhe, decerto por confusão, o qualificativo de freguesia. Nas Inquirições de 1307, já Bergote aparece sonegada aos direitos reais, desde há mais de seis anos.
No século XII há escrituras de propriedades em Paços, embora não indiquem o nome da terra. A primeira referência documental referindo expressamente Paços, com o nome de “vila”, aparece em 1210.
Em 1641, no decorrer das lutas da Guerra da Restauração, a freguesia de Paços foi invadida por oitocentos soldados da Galiza que já tinham provocado desacatos em Cristoval.
Ainda no que diz respeito à história da freguesia, no Inventário Colectivo dos registros Paroquiais Vol. 2 Norte Arquivos Nacionais /Torre do Tombo, pode ler-se textualmente:
«As primeiras referências conhecidas a Santa Maria de Paços remontam a 1171, e ao cartulário de Fiães, que contém vários documentos referentes a lugares desta freguesia.
No catálogo das igrejas situadas ao norte do rio Lima, que o rei D. Dinis mandou organizar, em 1320, para a determinação da taxa a pagar, a igreja de Santa Maria de Paços foi taxada em 25 libras. Pertencia, na época, à terra de Valadares.
Em 1444, a comarca eclesiástica de Valença, ao norte do rio Lima, foi desmembrada do bispado de Tui, passando o território a pertencer ao bispado de Ceuta. Em 1512, o arcebispo de Braga, D. Diogo de Sousa, deu ao bispo de Ceuta a comarca eclesiástica de Olivença recebendo em troca a de Valença do Minho. Em 1513, o papa Leão X aprovou a permuta.
No registo da avaliação dos benefícios da comarca de Valença do Minho, a que se procedeu, entre 1545 e 1549, no arcebispado de D. Manuel de Sousa, a igreja de Santa Maria de Paços, enquadrada na terra da vila de Melgaço, foi avaliada em 40 mil réis.
Na cópia de 1580 do Censual de D. Frei Baltasar Limpo, Santa Maria de Paços aparece como anexa ao mosteiro de Paderne, sendo da apresentação de padroeiros.
Em termos administrativos, a freguesia de Paços pertenceu, em 1839, à comarca de Monção e, em 1878, à comarca e julgado de Melgaço.
A Igreja paroquial de Paços é uma Igreja de construção quinhentista, mas reformada no século XVII, após ter sido incendiada pelas tropas espanholas e alteada no século XX, conforme denotam os vários frisos que rematariam as fachadas e agora surgem ao longo do terço superior das mesmas. A torre sineira foi também alteada no século XX. Na capela lateral exterior de Santa Ana, conserva estrutura em arco sobre mísulas que deveria corresponder ao vão da primitiva capela e que agora enquadra a porta de ligação à igreja.
É do ano de 1626 que data o primeiro registo de óbitos documentado. É de 1627 que data o primeiro registo de casamentos documentado. Em Julho de 1641, o governador da Galiza, o Marquês de Valparaizo, enviou um exército de oitocentos homens para retaliar o ataque português de D. João de Sousa, incendiando as igrejas de Cristoval e Paços, casas e searas das freguesia. Do ano de 1646 data a obrigação à fábrica do Santíssimo Sacramento, a favor dos moradores da freguesia, por quererem colocar o Santíssimo na sua igreja, devido à grande necessidade.
 O primeiro registo de baptismos documentado nesta igreja de Paços é de 1654. Sabemos também que no sismo de 1755, a 1 Novembro, a igreja não sofreu ruína alguma fruto do terramoto.
Em Maio de 1758, segundo o vigário Manuel José Pinheiro nas Memórias Paroquiais, a freguesia pertencia ao Arcebispado de Braga, comarca de Valença, termo de Melgaço, sendo da Casa de Bragança. O freguesia tinha 200 vizinhos e 647 pessoas. A igreja, com orago de Santa Maria de Passos, ficava isolada, sem vizinho algum e quase no meio do lugar. Possuía tinha três altares: o altar-mor onde estava colocada a imagem de Nossa Senhora da Luz e o Apóstolo São Barnabé, o colateral do Evangelho dedicado a Nossa Senhora da Conceição e o colateral da Epístola a São Sebastião. A paróquia tinha também uma irmandade das Almas.
O pároco era vigário, apresentado pelo mosteiro do Salvador de Paderne, tendo de ordenado anual 20$000, excepto o pé de altar. O produto dos dízimos era 400$000 para o dito mosteiro. Encostada à capela-mor e da parte de fora da mesma, existia uma capela de Santa Ana, a milagrosa. Nas Memórias Paroquiais referia-se que, segundo tradição antiga, se dizia que a imagem de Santa Ana tinha vindo pelo rio Minho abaixo juntamente com um sino chamado de Santa Ana, e não só na freguesia, mas em toda a parte que se ouvisse tocar o sino, não havia "pedraça", nem raio. Dizia-se que o motivo da capela estar de fora se devia ao facto de que, depois da imagem ter aparecido nos limites da freguesia e ter sido colocada dentro da igreja, ela no dia seguinte aparecia sempre da parte de fora. Assim, foi entendido que a imagem queria estar onde pudesse ver o rio, motivo que levou a construir-se a capela exterior à igreja.
Nessa época, à capela concorria muito povo no dia da sua festa, do Reino de Portugal e da Galiza.

Informações extraídas de:
- ALMEIDA, Carlos A. Brochado (2002), O sistema defensivo da vila de Melgaço. Dos castelos da reconquista ao sistema abaluartado, Melgaço;
- CAPELA, José Viriato (2005), As freguesias do distrito de Viana do Castelo nas Memórias Paroquiais de 1758, Braga, Casa Museu de Monção / Universidade do Minho.
- www.monumentos.pt

- http://www.jf-pacos.com.