quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

"Nas alturas da Peneda" - Cântico à Nossa Senhora da Peneda (1946)

Trata-se uma brochura  editada em 1946 onde consta a letra e a música de um cântico religioso à Nossa Senhora da Peneda (no vizinho concelho de Arcos de Valdevez). O cântico intitula-se "Nas alturas da Peneda" e é da autoria do Padre Joaquim Alves (letra) e do Padre Alberto Braz (música).


 







segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

S Gregório Melgaço: Terra de Fronteira

Momentos, sobretudo ao longo da primeira metade do século XX, captados em S. Gregório (Melgaço). 
A terra, as gentes... retratadas em fotografias e video.







sábado, 22 de fevereiro de 2014

Professor Matias de Sousa Lobato, o "Rei das Montanhas" (1859 - 1920)

(PARTE II)
O Professor Matias e as guerrilhas políticas no início da 1ª República

Prof. Matias de Sousa Lobato (de chapéu) em Castro Laboreiro (1911)

Apesar de ser uma pessoa muito popular em Melgaço mas sobretudo em Castro Laboreiro, o professor Matias de Sousa Lobato granjeou algumas inimizades. 
Na verdade, no Diário de Governo de 2 de Maio de 1912, podemos ler que o Professor Matias foi suspenso de funções devido a incompetência no exercício da docência, de acordo com o artigo evocado para a suspensão. 


(extrato do Diário de Governo de 2 de Maio de 1912)

Contudo, no Diário do Governo de 17 de Maio de 1912, é publicado o levantamento da suspensão é levantada, sendo o professor ressarcido de todos os vencimentos retirados. 
Não consegui apurar os factos concretos que levaram a esta suspensão. Sabemos que em Castro Laboreiro o professor Matias era tido com alguém muito competente no seu ofício sendo por isso surpreendente essa acusação.

(extrato do Diário do Governo de 17 de Maio de 1912)

Contudo, levanta-se a suspeita de que este episódio seja apenas mais um em que se vê envolvido o Professor Matias num clima de guerrilha política que se fazia sentir nos primeiros anos do regime republicano.
A mostrar isso, o "Correio de Melgaço" de 31 de Maio de 1914, diz-nos que “Os juízes da vara e balandrau de Castro Laboreiro, devido a desavenças políticas e desinteligências pessoais, intentaram proceder contra o digno professor da escola daquela freguesia, o comendador Matias de Sousa Lobato. A reclamação contra este homem de bem e filantropo social foi levada até às instâncias superiores (pois se ele não era de panelinha) e segundo nos consta, as mesmas vão averiguar da culpabilidade do citado professor”.
Mais tarde, no "Correio de Melgaço" de 9 de Junho de 1914 esclarece-se tudo: a Câmara Municipal de Melgaço nomeara dois delegados escolares para Castro Laboreiro os quais (sendo contrários politicamente ao Prof. Matias, então no Partido Democrático como vogal da Junta da paróquia daquela freguesia serrana), acusam o professor de incompetência, de não cumprir os seus deveres de mestre-escola. Queriam ver-se livres dele. Os correligionários de Matias de Sousa Lobato, através do Correio de Melgaço, atiram-se à Câmara e aos delegados escolares como autênticas feras. Por um lado, estava um homem com um curso, com 30 anos de bom desempenho ao serviço da instrução, do outro, segundo os do Correio de Melgaço, estavam dois analfabetos: Manuel Joaquim Monteiro e outro (talvez Francisco José Rodrigues, ajudante do registo civil em Castro Laboreiro). O jornalista apela ao bom sendo, à unidade, e não à vingança. Escreveu: “é necessário arrancar Portugal da miséria e do analfabetismo que a monarquia nos legou”. Em causa aqui também estava a pensão de aposentação do professor. O Dr. Afonso Costa, o primeiro chefe de governo republicano, descentralizara o ensino primário, atribuindo às Câmara Municipais essa responsabilidade. Ora, se um mestre de crianças fosse expulso do ensino por incompetência ou desleixo, teria que arranjar outro trabalho. Felizmente para o Prof. Matias, vieram em sua defesa Manuel António Fernandes, vice-presidente da Junta de paróquia Civil e vogal da Comissão Paroquial Republicana em Castro Laboreiro, e o Padre José António Alves, também de Castro, tendo ambos publicado protestos contra os delegados. O primeiro tinha um filho na escola e o padre fora aluno do prof. Matias e gaba a sua competência. O tempo apaziguou os ânimos e tudo continuou como dantes.
No Correio de Melgaço de 13 de Agosto de 1916, o correspondente em Castro Laboreiro escreveu: Com superior estima recebemos a notícia da próxima aposentação do nosso professor Matias de Sousa Lobato. Quando o julgávamos em águas, eis que nos apresenta com a sua nota de inatividade, como professor. Folgamos, pois, se ele folga também com o veredito da Junta Médica, e cumprimentamos o nosso Comendador – como doravante o trataremos, orgulhoso por tal se haver feito aqui”.
No meio deste clima, sabemos que em 15 de Março de 1917, o prof. Matias arrematou ao Estado por 110$00, um prédio sito em Castro Laboreiro. Devia ser a casa onde morava, na qual funcionava a escola.
Todavia, em 1919 publicou-se no Jornal de Melgaço, acerca dele, um texto repleto de ironia: ”Este ilustre cavalheiro e nobre cavaleiro veio passar as férias nesta vila. É costume, quando um funcionário está em férias, dar ordens às criadas para dizerem – a quem o procura – que está a descansar ou que não está em casa, evitando assim toda a sorte de maçadas. Mas não é assim que procede o “Leão das Montanhas” durante a sua estada nesta vila. Quase diariamente o víamos rodeado de castrejos, hoje seus conterrâneos, acompanhando-os ora para a repartição de Finanças, ora para a Administração do Concelho, ora para a Câmara, ora enfim para onde as necessidades dos seus conterrâneos chamam a presença do comendador. Vimo-lo um dia encaminhar-se para um carro onde estavam uns castrejos que depois soubemos serem parentes de José Bento Alves, António Joaquim Rodrigues, José Bento Rodrigues, José Domingues, Luís Rodrigues (o Barroso) e Adelino Fernandes que, dirigindo-se para as Astúrias, aonde iam aplicar a sua atividade, em Vigo são presos pela polícia secreta. Pernoitam uma vez em Redondela, outra em Tui e daí seguem para Valença, afim de seguirem sob prisão para o Porto. Por igual crime – o de emigração clandestina – foi preso, e remetido para juízo, um indivíduo que nesta comarca respondeu em Julho e foi condenado nas custas e selos do processo. Pois igual crime cometeram esses trabalhadores de Castro Laboreiro e o “Leão das Montanhas” vai a Valença, conseguindo fazer-se acompanhar dos seus conterrâneos que em número de seis voltam para o convívio de suas famílias, sem qualquer outra despesa que não fosse a da viagem e sustento próprio!”
Enfim, retalhos documentados da vida do prof. Matias de Sousa Lobato a quem as gentes de Castro Laboreiro da época muito ficaram a dever. Tudo isto numa época de intenso caciquismo político mesmo nos meio locais...


Castro Laboreiro em 1914


Informações extraídas de:
- Correio de Melgaço" de 31 de Maio de 1914;
- Correio de Melgaço" de 9 de Junho de 1914;
- Correio de Melgaço de 13 de Agosto de 1916,
- Diário de Governo de 2 de Maio de 1912;
Diário do Governo de 17 de Maio de 1912;
ROCHA, Joaquim, A. (2010) - Dicionário Enciclopédico de Melgaço. Edição de autor.

PS - Um especial OBRIGADO à Sra. Teresa Lobato pela partilha de informações e pela procura das suas raízes...

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Professor Matias de Sousa Lobato, o "Rei das Montanhas" (1859 - 1920)

(PARTE I)

Professor Matias de Sousa Lobato, em Castro Laboreiro em 1911

O professor Matias de Sousa Lobato, conhecido como o "Rei das montanhas" nasceu a 29 de Junho de 1859 na Casa do Rego em S. Martinho de Alvaredo (Melgaço). Era filho de Maria Benedita Martins e de Vitorino José Sousa Lobato.
Em 1904, encontra-se com José Leite de Vasconcelos na vila de Castro Laboreiro. No seu livro “De terra em terra”, o sábio refere-se ao professor Matias nestes termos: “Apesar da sua rusticidade, Castro Laboreiro procura acompanhar o progresso: possui algumas lojas de negócio, uma fonte de cantaria, e um Commendador, que é ao mesmo tempo o Professor primário da freguesia, o Sr. Mathias Lobato, pessoa amável, a quem os forasteiros ficam sempre devendo obséquios”.
Na revista Illustração Portugueza, nº 284, de 31 de Julho de 1911, numa reportagem do jornalista Bruno Buchenbacher é referido o seguinte: “Devido à amável recomendação do administrador do concelho de Melgaço, fui recebido com fidalga hospitalidade pelo Sr. Comendador e Cavaleiro fidalgo Mathias de Sousa Lobato, professor oficial de instrucção primária. Este cavaleiro, que sacrificou 28 anos da sua vida ao bem estar d’este povo, merece bem, pelo seu aspecto venerando, o cognome de rei das montanhas, que lhe foi conferido pelo falecido Hintze Ribeiro. Os serviços relevantes prestados ultimamente ao novo regíme, levaram o Sr. Dr. Alfredo de Magalhães a transformar a antiga designação autocrática, na mais popular denominação de “Leão das Montanhas”. Mas, mesmo assim, sempre rei…”
Em Junho de 1916, já se encontrava muito doente. Foi submetido a uma Junta Médica que o julgou temporariamente incapaz para o serviço, pelo que teve que passar à inatividade “conforme os seus desejos”. No entanto, em 1917, o seu nome constava de uma lista patrocinada pelo Dr. Vitoriano, como substituto do Procurador efetivo à Junta Geral do Distrito. A lista adversária era encabeçada por João Pires Teixeira e Justiniano António Esteves, ambos da vila de Melgaço.
Faleceu em Melgaço, em casa da sua irmã. Por sua morte, no Jornal de Melgaço de 29 de Agosto de 1920, podemos ler: “ Este nosso amigo, conduzido há pouco para o cemitério, nasceu em 1859 em Alvaredo, no Rego. Aos 22 anos de idade, obteve na capital do Minho o seu diploma de professor primário, conseguindo obter a sua nomeação temporária em 25 de Julho de 1882 para Tadim, Braga, e em 12 Maio de 1887 foi nomeado professor vitalício da escola de Castro Laboreiro, onde conseguiu captar as simpatias daquele povo, de tal forma que ele sozinho dispunha da maioria da votação daquela freguesia! E essa maioria, procedendo assim, cumpria tão somente o seu dever, pois a cada passo víamos o Matias na secção da Guarda Fiscal, na Administração do Concelho ou na Repartição de Finanças, a tratar dos interesses do seu povo, como o finado lhe chamava, e o cumprimento desse dever foi a causa do extinto alcançar grande influência política. A atestar esta importância, lá está o sino e o cemitério com que o finado dotou aquela freguesia, adquiridos de importantes donativos que para tal fim dos políticos soube conseguir. Um governador civil que uma vez esteve em Castro, e teve a ocasião de apreciar a popularidade do extinto, ao fim de jantar apelidou-o de “Rei das Montanhas”. E a atestar-nos a razão dessa popularidade lá estão os Diário do Governo, que nos dizem “Em 22 de Novembro de 1901, foi conferida ao cidadão Matias de Sousa Lobato, a mercê da Medalha de Prata para distinção e prémio, concedido ao mérito, filantropia e generosidade, pelos serviços que prestou em Castro Laboreiro, quando ali grassou a epidemia em 1897”.
Em 10 de Outubro de 1902, foi conferida ao cidadão Matias de Sousa Lobato a mercê de Cavaleiro da Ordem de Cristo, despachado no Diário do Governo 232, de 14 do mesmo mês e ano. Pelo Governo da República, foi agraciado com a medalha de cobre da Cruz Vermelha pelos seus serviços prestados em Castro Laboreiro, quando ali grassou a epidemia de tifo em 1913."
Daqui se vê que o extinto, não tendo sido nenhuma sumidade no magistério, podia ter sido uma notabilidade na medicina, se tivesses seguido a carreira para que a sua vocação o chamava. No estado de solteiro, tendo sempre dado provas de possuir um belo coração e, tendo completado em 29 de Junho, 61 anos de idade, faleceu no dia 16 do corrente (16/8/1920) o comendador Matias de Sousa Lobato. À sua extremosa irmã, Ana, e irmão, José, inteligente farmacêutico desta vila, enviamos os sentidos pêsames”.

Nesta foto, o Prof. Matias aparece de chapéu imediatamente à frente de um Guarda que se encontra junto à cruz do cruzeiro...
(Castro Laboreiro, 1911)

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Informações extraídas de:
- "Como eu visitei Castro Laboreiro e Soajo", reportagem de Bruno Buchenbacher in: Illustração Portugueza, nº 284, de 31 de Julho de 1911;
- VASCONCELOS, José Leite de (1916) - Excursão a Castro Laboreiro. in: Revista Lusitânia, Lisboa;
- "Jornal de Melgaço", edição de 29 de Agosto de 1920;
- ROCHA, Joaquim, A. (2010) - Dicionário Enciclopédico de Melgaço. Edição de autor.

PS - Um especial OBRIGADO à Sra. Teresa Lobato pela partilha de informações e pela procura das suas raízes...

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Melgaço em "A ilustre Casa de Ramires" de Eça de Queiroz


"Gonçalo vergou os ombros, confessou que se ocupara de toda essa heráldica história por um motivo bem rasteiro - por miséria!...
- Por miséria?
- Sim, prima Maria, por penúria de moeda, de cobres.
- Conte! conte! Olhe, a Anica está ansiosa...
- Quer saber, Sra. D. Ana?... Pois foi em Coimbra, no meu segundo ano de Coimbra. Os companheiros e eu chegamos a não juntar entre todos um vintém. Nem para cigarros! Nem para o sagrado decilitro de carrascão e as três azeitonas do dever... Um deles então, rapaz muito engraçado, de Melgaço, surdiu com a ideia estupenda de que eu escrevesse aos meus parentes de França, a esses Cleves, a esses Tancarvilles, senhores decerto imensamente ricos, e solicitasse, com desembaraço, um emprestimozinho de trezentos francos.
D. Ana não conteve um riso, sinceramente divertido:
- Ai! tem muita graça!
- Mas não teve resultado, minha senhora. Já não existem Cleves, nem Tancarvilles! Todas essas grandes famílias feudais findaram, se fundiram noutras casas, até na Casa de França. E o meu Padre Soeiro, apesar de todo o seu saber genealógico, nunca conseguiu descobrir quem as representava com bastante afinidade para me emprestar, a mim parente pobre de Portugal, esses trezentos francos.
Aquela penúria de Gonçalo, de tamanho Fidalgo, quase enternecera D. Ana:
- Ora estarem assim sem vintém! Quem soubesse... Mas tem graça! Essas histórias de Coimbra têm sempre muita graça. O D. João da Pedrosa, em Lisboa, também contava muitas...
D. Maria Mendonça, porém, através dessa facécia de estudantes, descortinara outra prova inesperada da grandeza dos Ramires. E imediatamente a estendeu diante de D. Ana com habilidade:
- Ora vejam!... Todas essas grandes casas de França, tão ricas, tão poderosas, acabaram, desapareceram. E cá no nosso Portugalzinho ainda dura a Casa de Ramires!
Gonçalo acudiu:
- Acaba agora, prima!... Não olhe para mim assim espantada. Acaba agora... Pois se eu não caso!"

Extrato do livro "A ilustre Casa de Ramires" (edição de 1900) de Eça de Queiróz. 


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Melgaço na escrita de Camilo Castelo Branco II

Camilo e o efeito dos Bifes de Presunto de Melgaço


"Assistira, um dia, Gertrudes ao meu jantar e viu que eu me confrangia enjoado pelo espectáculo repulsivo de meia franga recozida e um caldo branco em que boiavam uns olhos amarellos da enxúndia do oveiro da ave. Ela cheirou de longe o caldo fumegante, e disse com engulho:
—Captiva ! Isto nem com fome de cão se podia tragar! Que o medico me não deixava comer outra  coisa,—balbuciei tão extenuado e ofegante que me parecia despegar-se o último colchete da existência n' um esvahir de desmaio.
—Sinto-me morrer... — murmurei flebilmente.
—E morre decerto! — confirmou ella com sinistra solemnidade—morre, se não mudar de comida. Quer que eu o ponha rijo? Diga á dona da hospedaria que a sua enfermeira e cozinheira sou eu.
Não esperou resposta e sahiu. Pouco depois, voltou muito afreimada, tirou a mantilha de sarja, mudou de calçado para não fazer bulha com os tacões das botinhas, cingiu um lenço na fronte recolhendo os bandós, atou um avental de riscadinho na cintura e foi para a cozinha. Quando entrou com uma caçoula coberta, o perfume vaporado do rebordo da tampa abriu subitamente no meu olfacto uma fonte de vida, uma sensação entre espiritual e nazal, um quasi extasis, como a evidência da imortalidade do eu. Arranjou a mesa de leito com o taIher, afofou-me as travesseirinhas nas costas angulosas, escadeadas como um pedaço de velho cancéllo desengonçado, a cair das dobradiças despregadas,:—e passou para uma travessa o acepipe fumegante. Eram duas
mãos de boi guizadas, loiras, de uma untuosidade oleosa que punha carícias feroses nos dentes, e aguçava na abobeda palatina as cobiças dantescas do faminto Ugolino e de um professor portuguez de instruçao primária.
Devorei uma das mãos, sopeteando no molho pedaços de pão que engolia inteiros, sofregamente, numa intallação.
—Poderei comer a outra mão, senhora Gertrudinhas? - perguntei esperando em anciosa incerteza a resposta duvidosa.
—Se tem vontade, coma. Que sente lá por dentro?
—Fome, senhora Gertrudes, fome!
—Então coma; a natureza que lho pede, é por que não lhe faz mal.
E não fez. Fumei um charuto que até aquele momento me nauzeara. Pedi café e cana de Paraty. Estive quasi a pedir as calças para me levantar.
—Nada de boticadas ! intimou ella; e pegando em dois frascos de pílulas de ferro de Blaud e de Vallet, e de meia garrafa de vinho quinado despejou tudo na primeira vasilha concava que se offereceu á sua indignação.
— Fora com a porcaria! — bradava gesticulando, com a cólera cientifica e a justiça indefectível de um medico homeopata.
No dia seguinte deu-me de jantar troixas de recheio, bifes de presunto de Melgaço e meio melão. O medico assistente, o João Ferreira, grande clinico, veio á tarde, e pôs-se a farejar.
— Que lhe cheirava a melão! Se eu praticara a loucura de comer melão?!
A Gertrudes acudiu á minha perplexidade:— que fora ella quem o comera; que eu, coitadinho, estava a caldos e asas de franga, uma desgraça!
O doutor tomou-me o pulso, e fez um gesto de satisfação tranquilizadora:
— Que eu estava melhor quanto ao pulso, um pouco rápido, mas regular; auscultou-me a região precordial; já mal percebeu o ruído de fole; porém, continuava a fariscar o melão, desconfiado, chegando o seu descompassado nariz absorvente ao meu pérfido hálito, quando me auscultava as artérias carótidas.
A noite, visitou-me outro medico, interessado na minha cura duvidosa, como amigo. Era Camará Sinval, lente da Escola Medico-Cirurgica, um que pregava, não por hypocrisia, mas por paixão desvairada da Arte dos Vieira e Bourdaloue, sermões ultramontanos empavezados de sapiências académicas com grandes empolas de latim pagão.
Nunca me receitava. Para as insomnias mandava-me ler philosophos e poetas épicos. Disse-me que, na sua clínica, empregava primeiro as epopeias desde a Ilíada até á Henriqueida; e, em ultimo recurso, os systemas philosophicos desde Platão ate Victor Cousin.
 Que tivera — contava — um doente de insomnia rebelde que resistira singularmente ao 1º e parte do 2º Canto dos Luzíadas; mas, perdidas as esperanças de anesthesia, lhe lera duas paginas de Kant, e o enfermo ficara sopitado n'um lethargo de Epimenides. Aconselhou-me a Homeopathia, medicina inoffensiva e de vantagem para fantasistas supersticiosos.

Entretanto, achou-me espantosamente melhor. Não acreditava. Queria saber o que eu tinha tomado. Referi-lhe a verdade — as mãos de boi, os bifes de presunto de Melgaço, as troixas, o melão, a Providencia, sobretudo a Providência na pessoa de Gertrudes."

Extrato do livro "O Vinho do Porto - Processo de uma bestialidade ingleza" (edição de 1884) de Camilo Castelo Branco.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Melgaço na escrita de Camilo Castelo Branco I




As personagens melgacenses no livro "Estrellas Funestas"

"Uma noite, caíndo a ponto falar-se na pertinacia boçal do conde de Monção, disse o alcaide o seguinte:

--Traz-me esse nome á memoria um successo, que se deu, depois da vossa ida para Portugal. Fui eu avisado de que dois homens suspeitos tinham chegado a Segovia, e saíam de madrugada a fazer excursões pelos arrabaldes. Mandei-os espionar, e soube que elles estanceavam por estes sitios, indagando dos aldeãos qual terra vós terieis ido habitar. Com esta informação fiz prender os homens. Pedi-lhes os passaportes, e vi que os viandantes eram portuguezes, naturaes de Melgaço, e contractadores de carneiros. Não sei por que instincto, retive-os até me darem abono. Não conheciam ninguem em Segovia; mas deram-se pressa em escrever para Portugal. No entanto, perguntei-lhes o que tinham elles vindo fazer nos arredores d'esta quinta. Responderam que andavam em cata de gado para comprarem. Redobraram as minhas suspeitas. Inquiri que tinham elles com uma familia, que se alojava n'esta quinta.

Tartamudearam e confirmaram a certeza de seus máos intentos. Quinze dias depois, recebi ordem do governo madrilense para dar soltura aos presos. Não tinha outro remedio: soltei-os. Escrevi para Madrid, pedindo que se averiguasse na repartição competente quem afiançara aquelles dois presos. Tive em resposta que o ministro recebera directamente uma carta de seu parente, o conde de Monção. De propósito vos occultei este episodio em minhas cartas, cuidando em não vos aggravar as desgraçadas apprehensões. Agora vos digo que isto me fez apprehender muito a mim."

Extrato do livro: Estrellas Funestas (1862) de Camilo Castelo Branco.



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Hotel "Quinta do Pezo" (Melgaço) em postal de 1913

Postal enviado do Peso para Lugo por um senhor de nome Luiz em 28 de Agosto de 1913. Na frente do postal, vemos uma fotografia do Hotel Quinta do Pezo, fundado em 1902. Mais tarde seria comprado por um galego de Vigo que lhe daria o seu nome e daí a mudança para Hotel Figueiroa. Ficaria conhecido como Grande Hotel do Peso e seria frequentado por elites da sociedade portuguesa.
O seu primeiro nome "Hotel Quinta do Peso" deriva do facto de se localizar na Quinta do Peso, antiga propriedade dos Viscondes do Peso.



sábado, 1 de fevereiro de 2014

O cerco a Melgaço (1387) na Crónica d' El Rey D. João I (Parte III)


Capitulo CXXXVI
Como el rei cobrou a villa de Melgaço por preitezia(1)

"Enquanto se estas obras faziam, não cessavam os da villa em lançar trons ao arraial, e do arraial à villa pedras d'engenho. Vendo os do logar aqueles artificies feitos, e receando-se de receber d'elles damno, mandaram dizer a João Fernandes Pacheco que lhe fosse falar, e el rei o mandou lá, e chegou á barbacã, e Alvaro Paes ao muro, e fallaram por espaço e não se accordaram. Nesse dia escaramuçaram duas mulheres bravas, uma da villa, e outra do arraial. Andaram ambas aos cabellos, e venceu a do arraial, e des-ahi cada dia
tiravam os trons e engenho uns aos outros, e o engenho fazia muito mal na villa, e os trons não impéciam em nada.
E em esto chegou a rainha de Monsão, tres léguas de Melgaço, e vinham com ella o Doutor João das Regras, e João Affonso de Santarem e outros cavalleiros. E depois se veiu a rainha ao mosteiro de Feães, uma légua de Melgaço.
E isso mesmo chegou ao arraial o conde D. Gorçalo e João Rodrigues Pereira, e escaramuçaram os do conde com os da villa, e foram feridos d' ambas as partes, e nenhum morto.
E veiu recado a el-rei que a villa de Salvaterra, que lhe dera D. Pedro, que a deram um tabellião e dois homens d'armas a Paio Sorodea. El-rei mandou logo lá o Priol com muita gente, mas não aproveitou nada. E querendo el-rei mover seus artifícios pera combater o logar, fez saber á rainha que viesse ver o dia do combate, e veiu e esteve ali.
E em uma segunda feira, depois de comer, três dias do mez de março, mandou el-rei que abalasse a bastida com seus corregimentos contra a villa, como tinha ordenado, e moveu com mui gran força de gente; pero foi bem dezoito braças, desahi moveu uma ala, e depois a outra, e estiveram ambas defronte do muro, arredada urna da outra, e tiraram-lhe sete trons, que não fizeram damno. Depois moveu outra vez, e foi bem rijamente, e chegaram-se tanto à villa que punham um pé dentro no muro e outro na escala, e subiu muita companha, e o Priol primeiro que todos, e mandou el-rei que atirassem afora.
Entonce se fez prestes pera mandar combater, e mandou dez homens d'armas que subissem no mais alto sobrado, onde iam as pedras de mão, e moveu tudo juntamente, as escalas pera pousar e a bastida em que iam os homens d'armas e besteiros. E da bastida sahiam homens com grossos paus, que acostavam ao muro, e puzeram muitos d'elles, e ficavam de fundo amparados, e pero de cima d'elles lhe lançavam pedras grandes e fogo, não lhes impécia nada, e tiraram de fundo alguns cantos, afora outra pedra, de guisa que os de dentro entenderam que não havia em elles conselho, posto que trabalhassem por se defender. Fizeram saber a el-rei que lhes fizesse fallar, e foi lá o Priol e fallou com elles, e el-rei não queria consentir em nenhuma avença, cousa que aos outros lagares fazia de boamente quando lh'a commettiam. Mas todavia tomai-os por força, por se vingar d' algumas desmesuradas palavras que contra elle diziam por vezes; e sobre esto havia refeita se o faria ou não. João Rodrigues de Sá disse que lhe parecia que era bem, pois lhe moviam preitezia de a fazer, porque tomando-os por força, lhe podiam matar uma tal pessoa, que elle não quereria depois por quantos no jogar jaziam.
El-rei disse com queixume: «Quem medo houver não vá na escala.»
-Eu, senhor, disse João Rodrigues, não sei se dizeis vós isso por mim, mas cuido que nunca me vós a mim por tal conhecestes.
-Nem eu, disse el-rei, não o digo por vós, mas digo-o, porque os hei já por tomados.
Os que roubar desejavam, da gente meuda e meã, queriam que o tomasse por força, outros muitos tinham com João Rodrigues. Enfim consentiu el-rei na preitezia, e tornou lá o Priol, o qual, leixadas algumas razões, que mingua não fazem de escrever, foi d'aquena guisa:
Que dessem a villa e o castello a el-rei, e que sahissem em gibões sem outra cousa.
Havendo já cincoenta e tres dias que el-rei jazia sobre elles, e tendo lançadas da villa ao arraial cento e vinte pedras de trons, que nenhum nojo fizeram, e do arraial á villa trezentas e trinta e seis, que damnaram gran parte dela.
E preitejada por esta maneira, foi fama pelo arraial que todos haviam de sahir em gibões, e com senhas varas na mão. Os cachopos todos, sem lho nenhum mandar, apanharam varas, cada um seu feixe, e tinham-nas prestes á porta da villa por onde haviam de sahir.
Em esto sahiu um mancebo pouco mais de vinte annos, e chegou onde el-rei estava, e fincou os joelhos ante elle e disse d'esta maneira:
«Senhor, eu sou escudeiro fidalgo que vim a este logar por serviço d'el-rei meu senhor, cujo vassallo sou, e por minha desaventura, sendo estas as primeiras armas que eu tomei pera o.servir, parece-me que é forçado que as perca, segundo a preitezia, que ouço dizer que entre vós e os da villa tendes trautado, que é cousa de que tomo tão grão nojo, que maior ser não pode, não por a perda das armas, que sua valia não é tamanha, mas porque me parece que já com outras não poderei haver nenhum bom aquecimento, se estas de tal guisa perdesse. Porém vos peço, senhor, por mercê, que mas mandeis dar, que pode ser que inda vos eu com ellas faça tal serviço, guardando a honra d'el-rei meu senhor, e a minha lealdade, que vós as hajaes em mim por bem empregadas.»
El-rei disse que lhe prazia muito e que mandava lh'as dessem, se achadas fossem, ou das outras, umas quaes elle escolhesse, e que viesse, e assim foi feito.
Em outro dia, uma segunda feira, foram lançados todos fora d'aquelle geito, e os cachopos mettiam-lhe senhas varas nas mãos, e elles tomavam-n'as, e alguns por sabor diziam ao que lh'a dava:
- “Ai, rogo-te ora que me dês uma bem direita e boa”.
E assim se foram, que não ficou nenhum, e o Priol em sua guarda, não embargando os pregões e defesa d'el-rei que andava pelo arraial.

Á quinta feira, foi entregue a villa e castello a João Rodrigues de Sá, a quem o el-rei deu, e elle tornou com a senhora rainha pera a villa de Monsão, que eram d'ahi tres leguas, como dissemos." 

Nota (1): Preitezia significa que tomou a vila por meio de uma negociação.

Extraído de: LOPES, Fernão (1897) - Chrónica d' El-Rei J. João I. Vol. IV, Edição da Bibliotheca de Classicos Portuguezes, Lisboa.

Veja a parte I em http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/2014/01/o-cerco-melgaco-na-cronica-d-el-rey-d.html
Veja a parte em II http://entreominhoeaserra.blogspot.pt/2014/01/o-cerco-melgaco-1388-na-cronica-d-el.html