sexta-feira, 31 de maio de 2013

S. Gregório (Melgaço) em 1915 - Postal Antigo

Postal antigo com data de 14 de Agosto de 1915 enviado para Lisboa. Na frente do mesmo, observa-se esta fotografia com a entrada da localidade de S. Gregório (freguesia de Cristóval, concelho de Melgaço) junto à fronteira com Espanha.



terça-feira, 28 de maio de 2013

Con viento fresco... (Castro Laboreiro em Artigo de opinião publicado no Diario de León)




"Castro Laboreiro, que antaño fue concejo y hoy pertenece al de Melgaço, es una cuña portuguesa que se adentra en tierras de Galicia. Aquí la frontera con España no la delimita el Miño sino una serie de sierras ásperas, de formas redondeadas, constituidas por bloques graníticos pelados en sus cumbres, en los que se han marcado con cruzes y números una serie de hitos o mojones, Al menos desde el siglo XVI: la raya seca. Estos paisajes inhóspitos y aislados son, como dicen los castrexos, «o fin do mundo»; en ellos nunca hubo pasos fronterizos sino silentes caminos atravesados por contrabandistas, traficantes, bandoleros y, en época de persecución política, huidos, prófugos, exiliados. Aunque aisladas, estas tierras han sido paso de viejas culturas megalíticas, que han dejado su impronta en mámoas, sepulcros de corredor y ancestrales creencias religiosas luego cristianizadas, como la peña de Anamán, cuya ermita a la Señora de ese nombre es un lugar recoleto en medio de una naturaleza telúrica.

El río Laboreiro y sus afluentes han tajado en profundas gargantas estas sierras, que se abren a dos paisajes geomorfológicos y humanos diferentes y complementarios: las brandas e invernías. Las brandas o brañas son las zonas altas, duras y frías en invierno, pues con frecuencia están cubiertas de nieve; pero en el verano son tierras soleadas y de pastos abundantes. Las invernías son las tierras bajas, en lo hondón de los valles y en las solanas, protegidas del frío. Esta singularidad geográfica ha dado lugar a un nomadismo de valle a montaña que, en el Bierzo, nos es conocido también en la Somoza. Allí los habitantes de Aira da Pedra, a orillas del Burbia, pasaban los meses de invierno en el valle, mientras que en Campo del Agua, en lo alto, vivían desde Pascua hasta el otoño, con sus ganados y campos de cultivo. En Castro Laboreiro no era uno, como en la Somoza, sino todos los pueblos los que practicaban este nomadismo, que se ha mantenido sin grandes cambios hasta hace unos veinte años.

La raya seca, la vieja frontera, ha desaparecido legalmente; incluso se han trazado nuevas carreteras que acercan Celanova y Bande a Castro Laboreiro; pero quedan muchos viejos malentendidos y distanciamientos mentales, que algunos españoles y portugueses buscan eliminar. Arraianos, una asociación nacida en la parte gallega, lleva años convocando a gallegos y portugueses a jornada s de convivencia, en las que se nombran como Arraiano Mayor, a los que se destacan por esta labor de unir ambos pueblos y divulgar la cultura de frontera. El año pasado le correspondió tal honor a Méndez Ferrín, el prestigioso escritor gallego, natural de Celanova., una de cuyas obras lleva justamente ese título de Arraianos . Este año, Ferrín, al que acompañamos algunos amigos, pasó el testigo al padre Fontes, un cura del Montealegre portugués un tanto heterodoxo, que además de escribir mucho y bien sobre la cultura popular, es capaz de concitar que miles de personas asistan a la Festa das Bruxas, que con carácter anual organiza en su parroquia.

Fonte: Artigo de opinión publicado no Diario de León, autoria de José A. Balboa de Paz
Blogue "Caderno Arraiano"

domingo, 26 de maio de 2013

Melgaço, 30 de Janeiro de 1911 - Agora como há 100 anos, no país da "Cunha"

Encontrei há dias um documento curioso em que uma professora do então Ensino Primário escrevia esta carta, datada de 1911, à esposa do ilustre Bernardino Machado, um dos obreiros do 5 de Outubro que implantou a  República, para que esta intercedesse junto do marido com a finalidade de a autora desta carta conseguisse transferência para a Escola Feminina de Chaviães (Melgaço).
A professora dá pelo nome de Maria Cândida Lopes Castello e pede a Elzira Machado, esposa do notável político, para que esta convencesse o marido a "mexer os cordelinhos" para que tal transferência se concretizasse. Curioso que no final da carta, a senhora professora parece algo envergonhada por ter pedido tal coisa. 
Não sabemos se o tal pedido foi correspondido. 
Sem mais, convido os leitores a lerem a carta na totalidade.







Extraído de:

(1911), Sem Título, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_107261, consultado em 2013-5-11.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Rio do Porto (Melgaço,1924) - Postal Antigo

Postal antigo que nos mostra a vila de Melgaço por volta de 1924 (data do carimbo da estação dos Correios) coma a rua do Rio do Porto em primeiro plano.
Este postal foi enviado para o Porto em 25 de Setembro de 1924.




quarta-feira, 22 de maio de 2013

Recordando ou…

“Contando aos mais novos e lembrando-o aos mais velhos”
                                  
                                                 PÓRTICO

                                               Com os meus amigos aprendi que o que dói às aves
                                               Não é o serem atingidas, mas que,
                                               Uma vez atingidas,
                                               O caçador não repare na sua queda
            Daniel Faria
          In “A casa dos Ceifeiros

Dr. Júlio Lurdes Outeiro Esteves – Médico


Era eu um jovem adolescente quando, no dia 7 de Maio de 1959, com apenas 51 anos idade, completados no dia anterior, morreu em S. Gregório o Dr. Júlio.
Apesar da minha pouca idade na altura da sua morte – 15 anos – e da ausência a que me obrigavam os estudos, que só era interrompida nas férias escolares, cedo me habituei a sentir e a ver nele uma personalidade de referência não só na vida de Cristóval, mas também de Melgaço. Direi mesmo da Região, como pude constatar por informações recolhidas.
É por esta razão que, num misto de saudade e orgulho por ter tido privilégio de com ele ter convivido, “ouso” recordá-lo aqui e agora.
Sei que não vai ser tarefa muito fácil porque estou certo que não vou conseguir transmitir a verdadeira dimensão de uma personalidade que – quer se queira quer não – deixou marcas que, pela sua importância, merece bem ser recordado, direi mesmo, perdoem-me a imodéstia, que merecia bem mais SER PERPETUADO.
Fiel aos mais elementares princípios de objectividade vou procurar mostrar, se para tal tiver “engenho e arte”, quem foi este Melgacense Ilustre.

Júlio de Lurdes Outeiro Esteves, de seu nome completo, havia nascido também em S. Gregório – Cristóval, no dia 06 de Maio de 1908.
Filho de António Alberto Outeiro Esteves e de Luisa Teresa de Sousa Viana, cresceu num ambiente familiar onde se cultivavam valores que os tempos quase fizeram cair em desuso.
Concluiu a sua Licenciatura em Medicina na Universidade do Porto em 1933 e especializou-se em estomatologia – odontologia.
Quase de seguida fixou – se no Concelho de Melgaço passando a residir no lugar de S. Gregório, freguesia de Cristóval, donde, com se disse, era natural.
A sua actividade não se confinou à prática da medicina que exerceu, nas condições que hoje serão fáceis de adivinhar bastando para tal que nos lembrarmos que isso aconteceu nos anos de 30 a 50. Com consultórios em S. Gregório, em Melgaço e em Monção, nunca deixou de fazer serviço domiciliário sempre que para tal era solicitado.
Dizem-me os mais velhos, que com ele privaram de muito perto, que nunca se poupou a sacrifícios e tais eles eram que a sua saúde foi grandemente afectada por isso e, ainda, que a sua forma de exercer a medicina lhe mereceu o nome de “médico dos pobres”.
O certo é, também, que não se lhe conheceu fortuna resultante do exercício da sua actividade enquanto médico ou das outras funções que ao longo da vida desempenhou.

Deixou o seu nome ligado a diversas instituições, não só do Concelho com até do Distrito.

Foi um dos que, há precisamente sessenta anos que hoje se completam, ajudou a fundar a “VOZ DE MELGAÇO” onde desempenhou funções de chefe da redacção durante algum tempo.

Exerceu o cargo de Presidente da Câmara Municipal de Melgaço desde Dezembro de 1956 até Novembro de 1957. Foi curto o seu mandato, porque a sua saúde débil, não lhe permitiu que continuasse e até o forçou a recusar cargos políticos mais elevados já que o seu prestígio político era grande não só no Concelho como até no Distrito.

Numa altura particularmente difícil para Santa Casa da Misericórdia de Melgaço, cujo hospital estava em riscos de fechar, aceitou ser seu Provedor em 1945 e aí se manteve até à sua morte.
Este desafio foi-lhe lançado por outro ilustre Melgacense – o Dr. Augusto César Esteves – a quem lhe caberia substituir no cargo.
Não o aguardava tarefa fácil, ele estava consciente disso, mas, com o seu espírito empreendedor e a sua dedicação, deitou mãos à obra e conseguiu levar por diante aquele projecto da Santa Casa da Misericórdia.
Para angariar os fundos que lhe permitiram alcançar os objectivos que se propôs, valeu-se não só dos Amigos, mas também conseguiu reunir à volta do seu projecto todo o Concelho que respondeu, quase em uníssono, através de uma participação activa das mais diversas maneiras e, muito particularmente, nos vários cortejos de oferendas que, para o efeito, foram organizados.

Destes, recordo um, talvez o último, onde a Freguesia de Cristóval se fez representar com um enorme cisne branco e nos diversos carros se via de tudo. Os contributos eram dos mais variados desde réstias de cebolas a árvores cujos “frutos” eram chouriços e salpicões ou notas de 20$00… e, se a memória não me falha, as receitas deste também se destinavam para obras a levar a cabo no “Asilo Pereira de Sousa em Eiró”.

Sinto que já vai longo este meu texto e ao mesmo tempo fico com uma certa sensação de frustração por não poder dizer mais coisas que permitissem mostrar a dimensão deste HOMEM BOM DE MELGAÇO, mas fica-me a satisfação de, falando nele o “Contando aos mais novos e lembrando aos mais velhos”. Resumindo: “Falando nele” para que outros o possam vir a estudar melhor

Para concluir, por hoje, deixo esta nota:

O dia em que morreu celebrava a Igreja a festa da Ascensão que nesse ano calhou a 7 de Maio. Tendo em conta o carácter e a personalidade do Dr. Júlio, não deixa de despertar uma certa curiosidade e, porque não, ser motivo para uma reflexão pela coincidência das datas.


A fechar:

Em dia de aniversário e cumprimentando fraternalmente todos os seus leitores, aqui deixo os meus parabéns para o Jornal e votos das maiores felicidades para todos quantos nele trabalham.
Para todos o meu “BEM HAJAM


Armando Coelho Rodrigues

Texto gentilmente enviado por Armando  Rodrigues a quem muito agradeço a partilha!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

A propósito de: Professores… (Parte 2)


Contando aos mais novos e lembrando aos mais velhos

D. Luiza Sampaio Fernandes (D. Luisinha)

Depois de na última edição ter recordado à “D. Elvirinha” trago hoje à recordação de todos a “D. Luisinha”, sobretudo das que foram suas alunas.


A D. Luiza Sampaio Fernandes (D. Luisinha) era, no meu tempo, a professora “das raparigas” e S. Gregório era a sua terra de adopção em resultado do casamento em 30 de Julho de 1934 com o quintanista de medicina Júlio Lourdes Outeiro Esteves, pouco mais tarde o médico Dr. Júlio, de quem espero, tão depressa quanto as “pesquisas” que ando a fazer me permitam, escrever algo que esteja à altura da sua memória.

Transmontana, nasceu a D. Luiza no dia 20 de Junho de 1906, na freguesia de Parambos, no concelho de Carrazeda de Ansiães, distrito de Bragança.
Na Escola do Magistério Primário do Porto diplomou-se em 23 de Fevereiro de 1933 com a classificação de 15 valores.
Os dois primeiros anos de serviço, desde 09/04/34 até 30/09/35, foram cumpridos no distrito de Bragança, o primeiro no concelho de Miranda do Douro e o segundo no de Freixo Espada à Cinta.
Chega a Melgaço para dar aulas na escola de Remoães em 01/10/35 e daqui passa para a de S. Gregório onde se mantém até ao fim dos seus dias e este chegou no dia 4 de Agosto de 1969 apanhando-a aos 63 anos de idade.
Dos 36 anos de serviço 34 foram no concelho, um em Remoães e os 33 restantes em S. Gregório.
A par da sua actividade profissional desenvolvia outra, não muito conhecida, mas não menos importante no aspecto social. Ao que me disseram, ela continuava a tarefa curativa dos males do corpo levada a cabo pelo marido, ajudando os doentes a sararem outras “feridas” não menos importantes.

Felizmente esta para além, de ter ficado na memória das que foram suas alunas, continua-se através da filha Dra. Maria Filomena – a “Meninha” do Dr. Júlio como ainda é carinhosamente tratada pelas gentes de S. Gregório do seu tempo – e dos netos que esta lhe deu e que preservarão a sua memória. Para ela o meu “Muito Obrigado” pela cedência da fotografia que se publica.

Quer de uma quer de outra tiveram uma influência decisiva e marcaram para toda a vida a maioria dos que em Cristóval nasceram entre finais dos anos 20 e o início dos anos 60 uma vez que na sua quase totalidade foram seus alunos.

E o que elas faziam por nós…

E se para mais não servir este meu texto, permita pelo menos àqueles que tem responsabilidades na “terra” fazerem uma reflexão e verem a melhor maneira de as recordar.

Pela minha parte e inclinando respeitosamente perante a sua memória dirijo uma prece para que Deus as tenha no lugar que lhes é devido.

Obrigado “Senhoras Professoras”

a)    De acordo com a ortografia da época e tal como ela o fez no seu Registo Biográfico


Armando Coelho Rodrigues

In: A Voz de Melgaço


Texto gentilmente enviado por Armando  Rodrigues a quem muito agradeço a partilha!

sábado, 18 de maio de 2013

A propósito de: Professores… (Parte 1)

A Sra. Professora D. Elvira da Conceição Outeiro (D. Elvirinha)

Contando aos mais novos e lembrando aos mais velhos

Numa altura em que, de uma maneira geral, o sistema de ensino e os Professores, estão na ordem do dia e se pretende que sobre estes recaia toda a responsabilidade pela educação dos mais novos, incluído a parte que cabe aos progenitores, não sei se será a melhor ocasião para falar de duas PROFESSORAS “PRIMÁRIAS” – se fosse agora eram do 1º ciclo do Ensino Básico – que foram referência em Melgaço, particularmente em S. Gregório, onde exerceram funções durante mais de trinta anos.
A minha ideia ao escrever estes textos, é fazer com que os mais velhos as recordem e os mais novos as conheçam … uma espécie de “contando aos mais novos e lembrando aos mais velhos”.

Foram elas a Exmas. Sras. Professoras D. Elvira da Conceição Outeiro (D. Elvirinha) e D. Luiza Sampaio Fernandes (D. Luisinha).
Os diminutivos, ao que me disseram, eram justificados por uma questão de respeito e carinho. No caso particular da D. Luisinha seria, também, para estabelecer a diferença relativamente à outra D. Luisa da casa: - a virtuosa Mãe do Dr. Júlio, seu marido, de quem espero falar um dia, se a minha memória e alguns amigos me ajudarem.

Curiosamente este ano de 2005 e no próximo celebrariam 100 anos se fossem vivas e, sem falsas vaidades, sinto-me orgulhoso por as recordar por alturas dos respectivos Centenários.

Dada a extensão dos textos e para não ser muito maçador nem ocupar muito espaço vou fazê-lo em duas partes.

Por uma questão de ordem alfabética comecemos pela D. Elvira da Conceição Outeiro (D. Elvirinha) que era natural de Cristóval. Nasceu no lugar do Ramo, no dia 25 de Janeiro de 1905.
Concluiu o curso, em Braga, aos 22 anos obtendo a classificação de 18 valores, na Escola Normal Primária (depois designadas Escolas do Magistério Primário e agora Escolas Superiores de Educação) onde ingressou depois de ter concluído o sexto anos dos Liceus.
Sempre exerceu as suas funções em Melgaço, primeiro na freguesia da Gave, na Escola do Soadro, durante três anos, desde 14/01/1928 até 15/04 /1931, tendo a partir desta data ido para a Escola do Outeiro em Paços onde se manteve até ao final do ano lectivo. Em 09/10/31 foi para a Escola do Convento em Paderne, donde só saiu para S. Gregório no dia 30/09/38 e aí se manteve até à sua aposentação em 26 de Julho de 1968 sendo professora, sempre na “Escola Masculina”.
Feitas as contas que aprendi com ela, “deu-se” a Melgaço durante 40 anos e alguns meses. Das condições em que o fez… bem, creio que os mais velhos ainda se recordam dos rigores do Inverno e das condições de trabalho a que os professores e os alunos eram sujeitos uma vez que com eles as compartilharam.

Por pouco tempo gozou a reforma pois no dia 03 de Maio de 1969 “partiu” e dela não resta nem uma placa no local onde descansa para sempre.

Casada que foi com o Sr. Manuel José Rodrigues, não deixou quem continuasse o seu nome. Para além dos que tivemos o privilégio de ter sido seus alunos recordam-na os sobrinhos Artur e Maria Teresa Outeiro a quem daqui mando o meu abraço.

Continua…

Armando Coelho Rodrigues

In: A Voz de Melgaço


Texto gentilmente enviado por Armando  Rodrigues a quem muito agradeço a partilha!

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Águas de Melgaço (1915) e os aquistas que atravessavam o rio Minho



A nostalgia do comboio que trazia gente da Galiza
A estação ferroviária é galega, mas nela desembarcaram, durante anos, até 1915, muitos portugueses que iam tomar águas a Melgaço. Fica em Arbo, na margem direita do rio Minho. Desta terra raiana da Galiza avistam-se as termas de Melgaço. A estação de Arbo servia, assim, de alternativa para os aquistas que, naqueles tempos, só tinham comboio até Valença. Para não fazerem o resto da viagem até Melgaço em carros de cavalos, passando por Monção, onde a via-férrea chegara tarde (e mal), seguiam então de comboio por Tui e, daqui, subindo a margem direita do Minho, chegavam à estação de Arbo. Só tinham, depois, de atravessar o rio em barcaça. Na margem esquerda esperavam-nos as charretes postas à disposição pelos hotéis das termas melgacenses. Maria Júlia Ranhada não viveu esse tempo, mas a estação galega de Arbo aviva-lhe sempre a saga desses hóspedes, que fazem também a história dos primitivos tempos do hotel, fundado pelo seu avô, António Maria Ranhada. Quando lá vai, sente a nostalgia dos comboios que, outrora, traziam gente para as termas de Melgaço. Nesta gare, correm-lhe ainda as histórias da infância, que ela e as irmãs ouviram contar. Vem-lhe à memória o avô António Maria, que ali desembarcara um dia, muito doente, para se salvar com as águas de Melgaço. 


Fonte: "Termas de Melgaço: os dias saborosos de uma glória submersa", texto de Pedro Leitão, in: SIM, Revista do Minho, editado em 6 de Maio de 2013.
Artigo gentilmente enviado por pela Sra. Teresa Lobato a quem agradeço a partilha!




terça-feira, 14 de maio de 2013

1948 - Um qualquer dia no Hotel Ranhada nos seus anos de ouro (parte III)


D. Amélia Moutinho, dona do Porto Meia, é há muito hóspede do Hotel Ranhada, está cá todos os anos, traz motorista e dama de companhia, já tem reserva para os primeiros vinte dias deste Setembro que vem, prefere sempre o Setembro, e faz bem em não escolher o Agosto, ao menos escapa ao irritadiço marido da senhora Condessa de Feijó. É uma criatura insuportável aquele homem assim baixinho e gordinho, oh! se não é. Em Setembro que vem teremos aqui no Hotel Ranhada os Teixeira, eles são donos de uma cadeia de talhos. Trazem a família toda, são para aí umas trinta pessoas. Vêm os avós, os netos, as noras, as sogras, a prole é de banzar. São dos mais antigos hóspedes do Hotel Ranhada. Esta família já cá vem a águas desde finais do século XIX, os mais velhos ainda privaram com o fundador, o senhor António Maria Ranhada. Hóspedes tão antigos como eles só os da família Linhares. Um dia antes de se instalarem, já cá está uma carrinha para despejar as malas todas. Menos canseiras dão os lavradores ricos que chegam por finais de Setembro e que por aqui ficam até 10 de Outubro, se tanto. O senhor Mário Ranhada chama-lhes os “hóspedes das castanhas”. Nesta última leva chegam os Sousa Lopes, que, não contentes com o que ganham na lavoura, ainda se metem a fabricar botões. Pelo fim desta manhã de Agosto, há-de comentar-se à mesa, com pilhéria, estas e outras bugiarias.

Equipa do pessoal do Hotel Ranhada em 1956


Boas maneiras
Os empregados de mesa do Hotel Ranhada nunca iam vestidos “às três pancadas” para a sala de jantar. Faziam sempre duas mudas diárias. Ao almoço envergavam casaquinho branco, com botões dourados, e calça preta. Ao jantar, iam de trajo escuro, tipo smoking, com os colarinhos de camisa branca virados e laçarote preto. Mas José Meleiro de Castro, que lá trabalhou ainda no período áureo, já não é do tempo dos colarinhos virados e do “fato à grilo”. Embora vestisse à noite fato escuro, a gola do casaco já levava cetim preto. Ao almoço era a farda do costume. Os hóspedes não se aprontavam por aí além para a refeição do meio-dia. Mas à noite já iam para a mesa mais aperaltados. Os cavalheiros caprichavam com “bom fato de fazenda lisa, de tons azuis ou castanhos, e gravata a condizer”, tanto quanto se recorda José Meleiro. As senhoras apareciam com vestidos de seda, muito “levezinhos”, e não esqueciam os seus colares. Só as mais idosas faziam questão de levar, às vezes, o seu “xailezinho”. Em Julho e Agosto, serviam-se entre 150 a 200 hóspedes. “Todos ao mesmo tempo naquela sala de jantar”, lembra José Meleiro. Eram rápidos a comer, estavam quase todos a dieta, “tudo à base de peixe cozido e de carnes grelhadas”. Durante a refeição conversavam baixinho, eram muito delicados, não se ouvia sequer um bater de talheres. “Até exageravam”. Mas eram pessoas “de muito respeito e de muita educação”. À noite, acabada a refeição, passavam à sala de jogos e não resistiam a contar anedotas “sem palavrões, nem grandes gargalhadas”. Os cavalheiros falavam também de negócios, mas a conversação era cordata. Aos fins-de-semana, a sala de visitas virava, às vezes, sala de baile, mas apenas se polcava, à falta de melhor orquestra, ao som das concertinas do senhor Avelino Gonçalves e do seu sobrinho. Ambos trabalhavam como afinadores daquele género de instrumentos no Peso de Melgaço. Mas Avelino Gonçalves ganhava também a vida como corretor do Hotel Figueiroa, há décadas em completa ruína, junto ao Parque das Termas. (O último dono foi um tal Manolo, galego, o filho é médico em Madrid e a filha foi viver para Vigo. “Nunca mais voltaram a Melgaço”). José Meleiro de Castro ainda é primo afastado dos Ranhada. “O António Maria Ranhada, fundador do hotel, casou com uma irmã da minha avó”. Foi trabalhar para o Hotel Ranhada muito novo, para escapar ao duro trabalho nos campos de que o pai era proprietário. Começou como despenseiro, passou a empregado de mesa e, por último, ao fim de 20 anos, já era chefe de mesa. “Era o último a sair e a fechar as portas”, recorda.
(Continua)

Fonte: "Termas de Melgaço: os dias saborosos de uma glória submersa", texto de Pedro Leitão, in: SIM, Revista do Minho, editado em 6 de Maio de 2013.
Artigo gentilmente enviado por pela Sra. Teresa Lobato a quem agradeço a partilha!



domingo, 12 de maio de 2013

1948 - Um qualquer dia no Hotel Ranhada nos seus anos de ouro (parte II)


Fachada do Hotel Ranhado em 1914
A senhora condessa da Saborosa está a sair agora mesmo do hotel Ranhada. Sobressai pelo seu cabelo branco, com carrapito bem feito atrás e popa alta à frente, são arranjos que encaixam melhor ainda nas suas feições muito finas, diferenciando-se, à saída, das demais senhoras da sua condição, que lhe seguem o passo. Salta à vista que sabe zelar a linha. Apesar de sexagenária, irradia ainda beleza e faz adivinhar que, na mocidade, fora bem capaz de arrastar atrás de si muitos pretendentes. Cá fora, o arruado que conduz ao balneário termal ainda se resguarda do calor arrebentadiço neste começo de mais uma manhã estival. A fresca vem-lhe do manto sombrio destes plátanos e destas acácias, que correm o trajeto, embelezando-o como prelúdio de uma vida termal que se advinha intensa lá para o meio da manhã. À porta, está o calhambeque do hotel para que estas senhoras e outros hóspedes não façam a caminhada a pé, que é sempre coisa para um quilómetro (noutros tempos, ia-se de charrete, o cocheiro era o senhor Rocha, que acumulava estas funções com as de corretor do hotel, até ia à Estação de Monção esperar os hóspedes, depois deu-lhe para ser também dono de um hotel, o Hotel Rocha, hoje devoluto).
O senhor Mário Ranhada faz questão que embarquem todos no pequeno autocarro, mas não há nada a fazer: todos recusam. A pé é que se vai bem, as diabetes mandam andar. Partem assim cedo para guardar vez no balneário termal. A meio da manhã, já bebidas as águas e tomados os banhos, a senhora Condessa de Saborosa encontra-se no Parque das Termas com a senhora D. Amélia. Esta sua grande amiga é esposa do professor doutor Eduardo Costa, director do Instituto Pasteur em Lisboa, que acumula agora estas funções com as de director clínico da estância. Andam atarefadas com a quermesse, que organizam todos os anos a favor dos pobres das redondezas, enquanto estanciam no Peso de Melgaço. Passam estes dias a recolher donativos e compram roupas e outras coisas necessárias. Depois da cura do corpo, fazem a do espírito. A excelentíssima D. Amélia é uma senhora muito alta. Quando está ao lado do marido, que é assim sobre o baixinho, vê-se que a diferença entre ele e ela vai a modos de capela para catedral. O distinto médico anda sempre de lacinho clássico, mesmo de bata branca nunca o tira, fica a dar consultas até tarde, às vezes são nove da noite e ainda está a atender aquistas. La noblesse oblige.
Por esta manhã a meio, já outros aquistas percorrem, por mero passeio, as avantajadas alamedas do Parque das Termas, colmadas pela abundante ramaria. O seu traço urbanístico saiu do lápis do senhor José Ranhada, tio da Julinha, quando geriu as termas, faz já alguns anos. Por esse tempo, o senhor José Ranhada tinha o estranho hábito de se entrincheirar no escritório das termas, nas quentes tardes de Verão, e, de arma de pressão apontada, mirava, de olhinho caído, toda a truta que subisse, arteira, o regato cristalino que desce à ilharga daquele ponto. Qual águia-real, era certeiro de visão e muito mais de mira, não precisava de garras, nem de voos picados, a chumbada garantia-lhe boa pescaria para a janta.
A senhora Condessa de Saborosa será dessa época, pois há muito ano que vem aqui às termas. Escolhe sempre o Julho ou o Agosto. São os meses melhores para estar, em grupo, com a gente da sua posição. Nunca reserva hotel em Setembro. Este é o mês mais procurado pelos novos-ricos, e a senhora condessa e o seu grupo não querem misturas. Mas, se espreitarmos a bolsa duns e doutros, veremos que uma outra D. Amélia, a senhora D. Amélia de Ascensão Moutinho, burguesa típica do Porto, mete muita fidalguia no bolso. Ostenta joias até ao pescoço, põe-se toda ‘um luxo’, é podre de rica, não tem descendentes, vai deixar tudo a uma afilhada (“Boa senhora, esta D. Amélia Moutinho. Estava atenta às asneiras que eu e as minhas irmãs fazíamos em pequenas, metia-nos respeito, mas, apesar da sua aparência austera, repreendia-nos com um coração de mãe”, recorda, hoje, a D. Maria Júlia Ranhada, a Julinha).


(Continua)

Fonte: "Termas de Melgaço: os dias saborosos de uma glória submersa", texto de Pedro Leitão, in: SIM, Revista do Minho, editado em 6 de Maio de 2013.
Artigo gentilmente enviado por pela Sra. Teresa Lobato a quem agradeço a partilha!

sexta-feira, 10 de maio de 2013

1948 - Um qualquer dia no Hotel Ranhada nos seus anos de ouro (parte I)



Estamos em Agosto, o ano será 1948, pouco mais ou menos. São seis da manhã. A esta hora, a senhora Condessa de Saborosa já está levantada e vestida. Desde que enviuvou apronta-se sempre de preto carregado. Dá os últimos retoques ao cabelo no seu quarto, é dos melhores que se alugam aos hóspedes de mais posses. Tem mesmo quarto de banho privativo, é dos poucos que existem assim no hotel. Os outros são bons, estão bem mobilados e decorados, mas ficam-se pelo lavatório e pelo bidé de porcelana. A senhora condessa vai descer daqui a nada à sala de jantar para um pequeno-almoço sóbrio, para não desfalecer pelo resto da manhã. Anda a águas nas termas, e a dieta pede mais respeito pelas manteigas e pelos açúcares. Por todo o grande Hotel Ranhada, o dia desperta aos poucos com o tufa-tufa dos passos delicados de outras hóspedes madrugadoras. São senhoras distintas, do melhor que haverá na nossa aristocracia. Mas a mais exemplar no madrugar é, sem dúvida, a senhora Condessa de Saborosa. Há muitos anos que lhe conhecem este hábito aqui pelo hotel, onde é tratada como se fosse da família. Mesmo agora, que ultrapassa os sessenta anos, teima em se levantar cedinho, da mesma maneira que o fazia aos vinte. A menina Julinha, filha do senhor Mário Ranhada, o dono do hotel, ainda dorme a sono solto, indiferente a este suave bulício. Só o pai já está levantado para a azáfama matinal, orientando os criados, que a canseira da manhã ainda está para vir, pois haverá que cuidar do almoço para duzentos hóspedes (A pequerrucha haveria de chegar a avó sem nunca ter sabido o nome desta condessa. “Só a tratava por senhora condessa”, desculpa-se, hoje, a senhora D. Maria Júlia Ranhada).
(Continua)

Fonte: "Termas de Melgaço: os dias saborosos de uma glória submersa", texto de Pedro Leitão, in: SIM, Revista do Minho, editado em 6 de Maio de 2013.
Artigo gentilmente enviado por pela Sra. Teresa Lobato a quem agradeço a partilha!

terça-feira, 7 de maio de 2013

As manobras dos alcaídes da família Castro de Melgaço no séc. XV


Castelo de Castro Laboreiro, desenho de Duarte D'Armas em 1509

No século XV, Castro Laboreiro encontrava-se inserido na rota do sal, que oriundo de Aveiro, chegava, por barco, a Valença, onde era transaccionado aos mercadores galegos, resultando, sempre, lucro através das sisas, portagens e direitos reais. Como a grande maioria dos galegos eram oriundos da Terra da Límia e de Ourense, além de outros lugares, entravam em Portugal por Castro Laboreiro e Lamas de Mouro “por ser caminho mais direito e mais seguro” e não por Melgaço.
Tal insegurança tem a ver com aquilo que foi mencionado nas Cortes de 1459, onde o procurador de Valença, a exemplo do que já tinha acontecido nas Cortes de 1439, declarava e protestava contra os alcaides de Melgaço, respectivamente Fernando de Castro e Martim de Castro, que acolhiam ladrões “roubadores”, instigando-os a assaltar e a prender os almocreves galegos, para os fazer transitar por Melgaço, onde queriam cobrar os devidos impostos. A circunstância desses almocreves terem de se desviar do caminho previamente esboçado, por causa do local da portagem, Melgaço, eram motivos mais que suficientes, para deixarem o mercado de Valença a favor dos habitantes em Redondela, ou em Pontevedra, com prejuízos incalculáveis para o comércio e fazenda portuguesas. Solicitou, portanto, o procurador, a influência do monarca na manutenção da rota de Castro Laboreiro e em exigir aos alcaides de Melgaço a cobrança das portagens em Cubalhão (Porto das Asnos) ou em Ponte de Mouro, eliminando-se, deste modo, um desvio oneroso aos clientes. Na sequência do pedido, o rei determinou a audição do contador e do alcaide, para apuramento do lugar mais apropriado para pagamento.
Contudo, nos finais do séc. XV a presença de galegos incómodos ameaçava a estabilidade da vila de Melgaço, pelo que levou os procuradores do concelho a recorrerem ao monarca Manuel, a solicitarem que proibisse a entrada dos malfeitores galegos a fim de se evitar mortes, roubos e outros males, continuando-se, assim, as incompatibilidades entre a Câmara e o alcaide-mor, em virtude, deste, os acolher junto de si. No ano de 1500, Manuel dava razão ao concelho ao ordenar que os corregedores e juízes cumprissem a lei.

Extraído de:
CARVALHO, Elza Maria Gonçalves Rodrigues (2006) - Lima Internacional: Paisagens e Espaços de Fronteira. Tese de Doutoramento em Geografia - Ramo de Geografia Humana; Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho.

domingo, 5 de maio de 2013

Mosteiro de Paderne em 1907 (Postal Antigo)

Postal antigo enviado de Melgaço para Coimbra em 11 de Julho de 1907 (data do carimbo do correio da estação do Peso) Contudo, foi escrito no dia anterior, daí a data de 10 de Julho manuscrita. Repare-se no selo do rei D. Carlos com o valor de 10 reis (moeda da época). Este monarca retratado no selo viria a ser assassinado a 1 de Fevereiro de 1908 juntamente com o príncipe D. Luiz Filipe, herdeiro do trono português. 




sexta-feira, 3 de maio de 2013

Os Cães de Castro Laboreiro na prosa de Camilo Castelo Branco


No século XIX, o admirável escritor de novelas Camilo Castelo Branco, profundo conhecedor do Minho e das suas gentes, no seu livro Brasileira dos Prazins (livro de 1882), referindo-se a factos ocorridos por volta de 1845, conhece a raça, e eterniza-a, enaltecendo as suas qualidades de guarda e de fidelidade aos donos:

“…As coronhadas e as intimações ameaçadoras repetiam-se. Uma algazarra de Inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte. A Senhorinha, muito esganiçada, expectorava agudos ais na cozinha; não acertava a enfiar o saiote pelo direito. Os cães de Castro Laboreiro, muito ferozes, arremetiam às portas com a dentuça refilada. Porcos grunhiam dando bufidos espavoridos. A moça dos recados chamava a sua Mãe Santíssima e a alma da tia Jacinta do Reimundles, que estava inteira na igreja…”

quarta-feira, 1 de maio de 2013