domingo, 30 de dezembro de 2012

Postal Antigo (1943) - Mosteiro de Paderne (Melgaço)


Postal enviado de Melgaço, concretamente do Grande Hotel do Pezo, em 23 de Agosto de 1943. A remetente não se identifica mas apenas sabemos que o postal é endereçado a uma tia moradora em Lisboa. A remetente dá conta à sua tia de como evolui o seu estado de saúde e dos tratamentos nas termas do Peso.
Na frente do postal, fotografia da fachada principal da igreja do Mosteiro de Paderne.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

A Casa da Calçada (Melgaço): caraterísticas aquitetónicas e breve história



Segundo Augusto Cesar Esteves, o edifício da Casa da Quinta da Calçada remonta à primeira década do séc. XVIII e teria sido mandado construir por Jerónimo José Gomes de Abreu Magalhães, “sargento-mor das Ordenanças, provedor da Misericórdia, ministro leigo da Confraria do Espírito Santo tendo-lhe sucedido na administração do morgadio o seu primogénito, homónimo, Jerónimo José Gomes de Abreu Magalhães, casado que foi com D. Tereza Joaquina Rosa de Melo Almada e Vasconcelos, oriunda do Paço de Montes Livres, em Silvares, Guimarães” (Esteves, 2003). Tendo estes falecido sem deixarem descendentes, a Casa da Calçada passou a pertencer ao irmão daquele, o Dr. João Caetano Gomes de Abreu Magalhães sucedendo-lhe seu filho, Luís de Abreu Magalhães, o “último morgado da Casa” (Vaz, 1985).
Inserida em quinta, em meio urbano periférico, esta construção solarenga apresenta um conjunto arquitectónico em U pouco pronunciado, composto por dois corpos laterais unidos, à mesma altura, a um corpo central mais recuado e com telhado de duas águas, prolongando-se uma delas de modo a cobrir uma alpendrada que compõe a frontaria voltada a sul. O corpo do lado nascente desenvolve-se longitudinalmente com cobertura a quatro águas e o corpo do lado poente, rectangular, encontra-se coberto a três águas.
O edifício, construído em alvenaria autoportante de granito, subdivide-se em dois pisos rebocados e pintados a branco excepto embasamento, cunhais, cornijas, molduras e ornamentos que apresentam pedra ‘à vista’.
Os vãos são constituídos, no andar térreo ou de serviços, por portas adinteladas e no piso superior, de habitação, por janelas de peitoril com padieira ligeiramente encurvada nas fachadas sul dos corpos laterais e adintelada nas fachadas laterais dos mesmos. Nas fachadas frontais destes corpos, no nível superior e enquadrado pelas janelas, encontra-se uma pedra de armas. A do corpo do lado nascente “representa Abreu, Magalhães e a do corpo do lado poente pode ler-se como Costa, Gomes, Abreus e Magalhães” (Vaz, 1985).
No nível térreo do corpo central abre-se uma entrada em arco pleno que daria acesso a arrecadação e, no piso superior, estende-se a referida alpendrada e peitoril em granito aparente. Perpendicularmente a esta e adossadas às paredes dos corpos laterais, lançam-se duas escadarias em pedra, de acesso à galeria, estando resguardadas, num dos lados, por parapeito fechado iniciado por volutões.
Quando contemplado, do início do caminho, partindo da estrada e marginado por muros rebocados a branco, constata-se neste solar um grande equilíbrio nas proporções dos diferentes corpos. A horizontalidade dos alçados, aliada à pouca altura das cérceas, confere-lhe uma escala humanizada e uma certa imaterialidade induzida pela alvura das paredes misturando-se com o caio das telhas de meia cana que cobrem todo o edifício.

Para o Arq. Luís Magalhães Fernandes Pinto, a Casa da Calçada e o Pazo de Pegullal (em Salcedas, Galiza) “apresentam uma aparência que nos permite aceitar terem sido construídas segundo uma técnica comum e, talvez, sob o mesmo plano. Apresentam plantas em U, de proporções e dimensões idênticas, com dois corpos intercalando uma alpendrada, em que as variações significativas se concentram no lançamento e exuberância das escadas. Na comparação das suas organizações internas encontra-se a referida diferenciação de organograma, isto é, preferência de cenário numa (a da Casa da Calçada), prioridade ao conforto, na outra (o Pazo de Pegullal)” (Pinto, 1999).

Informações recolhidas em:
CERVEIRA, Alexandra/DGEMN - Casa da Quinta da Calçada, n.º IPA: PT011603180012, 1999. Disponível em WWW: <www.monumentos.pt>.
ESTEVES, Augusto César - Obras completas. Melgaço e as Invasões Francesas, reed. C. M. de Melgaço, Melgaço, 2003, Vol. 2.
ESTEVES, Augusto César - Melgaço. Sentinela do Alto Minho, Ed. Tipografia Melgacense, Melgaço, 1957 e 1959, Vol. 1 e Vol. 2.
PINTO, Luís de Magalhães Fernandes - O Vale do Minho. Pazos e Solares. Dois modos diferentes de habitar, in Revista ‘Estudos Regionais’, n.º 19/20, Viana do Castelo, Dezembro 1999, p. 43-58.
VAZ, Júlio - P.e Júlio Vaz apresenta Mário, Edição do Autor, Melgaço, 1996.
www. acer-pt.org

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O significado de inscrições em monumentos melgacenses II


Inscrições em sepultura medieval junto ao Mosteiro de Fiães


Inscrição gravada em tampa de sepultura em granito. Comprimento: 189 cm. Altura: 62 cm/50 cm (Cabeceira/Pés).
Leitura:
Era Ma CCCa L IIII KaLendaS IULII / Obiit Maria I(o)HannIS  DE CAVALEIROS
Inscrição funerária de D. Maria Anes, natural de Cavaleiros (Freguesia de Roucas, Concelho de Melgaço), gravada na tampa de sua sepultura, que se conserva hoje fora de contexto, encostada à parede Norte da Nave da Igreja de Fiães.
A insc. de D. Maria Anes foi publicada apenas por dois autores, em ambos com leitura distinta da que aqui apresentamos no que respeita ao nome próprio de D. Maria Anes. O primeiro autor a divulgar esta inscrição foi o P.e Bernardo Pintor, na sua monografia dedicada a Melgaço Medieval, quando dá notícia do aparecimento da tampa de sepultura em 1958, desenterrada da zona envolvente da Capela-Mor de Fiães. Nesse estudo, o P.e Pintor propõe a seguinte leitura para este epitáfio:
"E : M : CCC : L IIII KL S IULII
O' M : IHTS . DE CAVALEIROS" desdobrando:
"Era 1345 Calendis Julii Obiit Martinus Johanis de Cavaleiros" (PINTOR 1975, p. 44). O P.e Bernardo Pintor ressalvava, ainda, que o desdobramento de M por "Martinus" era apenas uma hipótese, podendo ser igualmente desdobrado por "Mendo" ou "Múnio" (PINTOR 1975, p. 44). Depois da referência do P.e Bernardo Pintor, a insc. de Fiães seria apenas de novo referida em 1987, por nós próprios, quando procedemos ao estudo dos vestígios funerários medievais de Entre-Douro-e--Minho, e onde perfilhámos a leitura proposta pelo P.e Pintor, optando pela primeira solução de desdobramento («Martinus»), por parecer ser a mais usual para a época, sendo portanto a mais plausível (BARROCA 1987, p. 410 e p. 482). Julgamos, hoje, que estávamos equivocados, tal como o P.e Pintor. Na realidade, o M apresenta-se coroado por pequeno A aberto, de herança visigótica, revelador do género feminino da palavra aí abreviada. Ora, a sua presença afasta desde já, e de forma radical, a possibilidade de se tratar de um Martinho, Mendo ou Múnio. A conjugação de um M com a terminação em A, na forma «Ma» recomenda que se desdobre por Maria, o que aqui fazemos pela primeira vez.
A inscrição de Maria Anes, natural de Cavaleiros, encontra-se gravada na sua tampa sepulcral, decorada com uma enorme cruz latina que ocupa as dimensões maiores da tampa acompanhando o eixo principal desta, com braços definidos a duplo traço e remates terminais flordelizados. Acompanhando o braço maior da cruz, e ocupando os dois "campos" rectangulares por ele definidos, foram gravadas as duas regras deste modesto epitáfio. 
Apenas uma palavra, Obiit (abreviada na primeira letra, «O»), que abre a segunda regra, foi gravada à esquerda desse "campo" epigráfico, portanto no que poderíamos designar por primeiro quadrante da tampa. Esta palavra constitui, igualmente, o principal motivo de interesse desta inscrição, já que se trata de uma abreviatura particular da palavra Obiit, grafada na forma de O cortado por pequeno segmento de recta oblíquo (0). Ora, esta forma peculiar de abreviar a palavra Obiit ocorre apenas em Coimbra e, sobretudo, em Alcobaça, sendo típica dos "ateliers" epigráficos cistercienses. Julgamos que o seu aparecimento em Fiães não pode deixar de espelhar contactos culturais entre as diversas instituições cistercienses, que sabemos terem existido, e que encontram aqui uma comprovação epigráfica.
O Mosteiro de Fiães encontra-se documentado desde 1142, tendo começado por abraçar a Regra de S. Bento (que ainda seguia em 1173), e mudando mais tarde para a Regra de Cister (que já se documenta nesta instituição em 1194).


Extraído de:
- BARROCA, Mário Jorge (2000) - Epigrafia Medieval Portuguesa - (862-1422), vol. II, CORPUS EPIGRAFICO MEDIEVAL PORTUGUÊS. Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Porto.

domingo, 23 de dezembro de 2012

O significado de inscrições em monumentos melgacenses I


Inscrição na Capela de Nossa Senhora da Orada


Inscrição comemorativa da Fundação da Ermida de N.a S.a da Orada, gravada em silhar do ombral direito do Portal Ocidental do templo. A inscrição revela-nos o papel desempenhado pelo Prior de Fiães na fundação deste templo rural.
Foi o Padre. Bernardo Pintor o primeiro autor a publicar a inscrição de Orada, oferecendo leitura quase correcta do letreiro, primeiro sem desdobramentos:
"P'IOR MONAC DE / FENALIB ISTAM / ECCIÃ FUND" depois com desdobramento de abreviaturas:
"PRIOR MONACHORUM DE FENALIBUS ISTAM ECCLESIAM
FUNDAVIT" e depois da respectiva tradução:
"O Prior dos Monges de Fiães Esta Igreja Fundou" (PINTOR 1975. Anotemos apenas que a inscrição apresenta ECCLA e não ECCIA, e que a MONAC se segue o sinal de abreviatura, parcialmente gravado no silhar superior, pelo que deveria transcrever MONAC. A leitura do Padre Bernardo Pintor, correcta nas suas linhas gerais, seria citada por Lúcia M. Cardoso Rosas (ROSAS 1987).
Já tivemos oportunidade de referir as ligações profundas que uniam a Ermida de N.a S.a da Orada ao Mosteiro de Fiães. O Mosteiro teria recebido a herdade de St.a Maria da Orada das mãos de D. Afonso Henriques por diploma hoje desconhecido mas confirmado indirectamente por outro de seu filho, D. Sancho I, de 1199. É possível que a doação tenha sido realizada no quadro do diploma de 1173 pelo qual o primeiro monarca português entregou diversos e alargados bens ao Abade D. João e aos frades do Mosteiro de Fiães. A construção da Ermida, como Carlos Alberto Ferreira de Almeida teve oportunidade de sublinhar, deve ser colocada nos meados do século XIII (ALMEIDA C.A.F. 1988) e à qual talvez se deva associar a inscrição de 1245. É possível que tenha sido no final das obras dessa centúria que se gravou o letreiro que aqui nos ocupa, consagrando o papel do Prior de Fiães na construção deste prestigiado centro de devoção, implantado em plena mancha rural, à saída de Melgaço.


Extraído de:
- BARROCA, Mário Jorge (2000) - Epigrafia Medieval Portuguesa - (862-1422), vol. II, CORPUS EPIGRAFICO MEDIEVAL PORTUGUÊS. Fundação Calouste Gulbenkian, Fundação para a Ciência e a Tecnologia, Porto.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Histórias da RODA de Melgaço - séc. XVIII e XIX (parte XIX)

Nenhum outro elemento poderá expressar melhor os sentimentos manifestados em relação às crianças expostas como as mensagens escritas que as acompanhavam. Muitas delas apontavam para uma futura reintegração familiar, a justificarem um tratamento diferenciado daquelas que eram enjeitadas e que passariam a constituir um encargo exclusivo dos municípios. Mesmo que, no futuro, se viesse a provar não existir uma correspondência efectiva entre o conteúdo das mensagens e o destino das crianças expostas, o facto de terem sido elaboradas já revela uma preocupação particular com a sua sorte. Na prática, seria uma forma de manter uma ligação afectiva que a sua exposição não havia definitivamente quebrado. São muito variadas as expressões utilizadas nas mensagens que demonstram o desejo de continuar a acompanhar o percurso das crianças expostas, reveladoras da presença de fortes sentimentos pessoais e familiares. São expressões que, apesar de aparecerem sobretudo na documentação do século XIX e do primeiro quartel do século XX, não deixaram de aparecer esporadicamente no século XVIII, numa altura em que o número de expostos ainda era muito reduzido. Algumas dessas mensagens imploravam os favores das rodeiras para que lhes arranjarem amas boas que as tratassem “com amor” ou “com toda a humanidade e carinho”. Outras vezes, depois de recordarem que a caridade era a principal das virtudes, solicitavam o seu bom tratamento, “por caridade e amor ao próximo”, havendo mesmo uma que “pedia do coração todo o esmero possível” na criação da criança inocente.
Algumas das mensagens pretendiam justificar as razões que levaram à exposição das crianças, como se verificou com uma delas, ao informar que «a criança que se engeita não é por falta de amor que lhe têm seus pais, mas sim por circunstâncias», ao mesmo tempo que se comprometiam a recuperá-la mais tarde e a pagar toda a despesa que tivesse sido realizada pela Roda. Através do escrito que acompanhava esta criança (exposta na freguesia de Alvaredo, concelho de Melgaço, apenas com algumas horas de vida), informava-se que a criança ainda não fora baptizada e pedia-se «por amor de Deus que lhe pusessem o nome de Júlio da Glória e que havia nascido às 9 para as 10 horas da noite do dia 17 de Outubro de 1861». Ao mesmo tempo, prometia-se que iria ser procurada e a instituição ressarcida de toda a despesa realizada. Na verdade, em 20 de Agosto de 1862, esta criança foi procurada e entregue a João Correia dos Santos Lima, negociante da vila de Melgaço, que a exigiu e se responsabilizou pela sua criação e educação, não sendo possível saber se seria o seu pai.  Também não passou despercebido o facto de alguém ter escrito uma mensagem num papel em forma de coração, assim como a promessa de uma mãe em recompensar a ama que criasse o seu filho com todo o amor, cuja exposição a fazia “sofrer encarniçadamente”, mas que esperava poder vir a recuperá-lo no futuro, ultrapassadas as razões que a haviam obrigado a tal procedimento.

Informações recolhidas em:

- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.



terça-feira, 18 de dezembro de 2012

1926 -Melgaço em Carta de Teixeira de Pascoaes para António Carneiro

Nesta carta, Teixeira de Pascoaes acusa recepção da carta escrita de Melgaço por António Carneiro e expressa a sua satisfação pela ida do amigo para Pascoais. Refere-se a Carlos Carneiro e a Raúl Brandão.



Extraída de:
- http://arquivodigital.cm-porto.pt/Conteudos/Conteudos_BPMP


sábado, 15 de dezembro de 2012

Os primórdios da Misericórdia de Melgaço no século XVI


Igreja da Misericórdia de Melgaço

Embora desconheçamos a data da fundação da Misericórdia de Melgaço, sabemos que estava em funcionamento em 1531. Nesta data, recebeu autorização de D. João III para incorporar o Hospital de S. Gião. Apesar da incorporação ser autorizada pelo monarca, um alvará de 1562, para que o referido hospital fosse anexado à Misericórdia, prova que o mesmo não foi integrado em 1531. Esta importante incorporação constitui o primeiro grande impulso de fortalecimento da confraria, uma vez que o referido hospital possuía bens que transitaram para a Santa Casa. Em 1531, tinha de renda anual “setecentos e trinta e dous reis”. Situado extra-muros, este instituto era uma casa para leprosos, que na época se encontrava mal administrado pelo Provedor da Comarca e sem doentes. Por isso, e como a Misericórdia “hera muito pobre”, os confrades solicitaram ao rei a sua integração na Santa Casa.
Este movimento de incorporações foi conhecido em todo o reino e teve como objetivo tornar viável as confrarias da Misericórdia, ao mesmo tempo que se reestruturava a assistência em Portugal.
A integração significa que a Misericórdia assumia a obrigação de continuar a dar cumprimento aos legados instituídos no hospital, a prover os leprosos, no caso de existirem, podendo usufruir de todos os seus bens. Tratava-se de um “negócio” muito vantajoso para as Santas Casas e que tinha o consentimento dos monarcas.
A Misericórdia de Melgaço conheceu o seu primeiro grande impulso com esta integração. Mais tarde, sedimentou a sua ação com os legados recebidos, com as esmolas oferecidas pelos fiéis e outras individualidades, com as receitas dos funerais, com o empréstimo de dinheiro a juro, com algumas multas passadas pela Câmara Municipal e com os peditórios. Apesar de Melgaço pertencer ao senhorio da Casa de Bragança, as margens deixadas pelos Duques na Misericórdia local foram muito ténues. Ao contrário do que se verificou em Vila Viçosa, onde a Santa Casa da vila beneficiou, por estar situada na sede da casa ducal, das esmolas e dos legados dos duques, em Melgaço apenas existe menção de uma dádiva de oito mil réis enviada por D. Teodósio II à confraria em 1590. A distância da casa ducal não teria sido um fator de menor peso nesta atitude dos Bragança, mas estamos convencidos de que mais do que a distância física, pesaram estratégias de atuação que definiram investimentos diferenciados por parte da casa senhorial.
A confraria de Melgaço era uma instituição pequena, localizada numa terra fronteiriça, onde não abundavam as fortunas pessoais. Este facto refletiu-se nos legados que recebeu. Os seus mais importantes benfeitores foram alguns homens da terra que partiram para o ultramar, especialmente para a Índia. Também os provedores se destacaram, enquanto benfeitores. Sabe-se, no entanto, que parte da sua fortuna pessoal era gasta nos anos em que governavam a Santa Casa. Normalmente, pagavam festas religiosas e obras, proviam pobres ou compravam alfaias de culto, fazendo memória da sua passagem pela direção da confraria.
Na Misericórdia de Melgaço, esta situação foi tanto mais importante quanto muitos deles eram juízes de fora, gente que não era da terra, mas que depois de passar alguns anos em Melgaço e de ocupar o cargo mais importante da confraria mais prestigiada da vila, a escolhia para legar parte ou a totalidade da sua fortuna.
Este facto foi peculiar, porque em algumas localidades, estes homens tiveram dificuldades em aceder às Misericórdias. Porém em Melgaço, explica-se por ser ma terra pobre e raiana onde escasseavam elites.
A Misericórdia servia-se dos seus irmãos e dos homens que pediam pelas freguesias – os mamposteiros – para angariar fundos que lhes possibilitavam prover os pobres. Ou seja, com as contribuições que recebia, conseguiu manter em funcionamento uma ajuda regular aos mais necessitados. Pedia para poder distribuir. O compromisso da Misericórdia de Lisboa de 1618, que regia a Santa Casa de Melgaço, determinava a existência de uma pessoa em cada freguesia para recolher pão para os presos, devendo entregá-lo à Misericórdia.


Extraído de: 
- ARAÚJO, Maria Marta Lobo (2005) - Pedir para distribuir: Os peditórios e os mamposteiros da Misericórdia de Melgaço na época moderna. Boletim Cultural de Melgaço, Câmara Municipal de Melgaço.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Postal antigo (1931) das Termas do Peso




Postal enviado de Melgaço para Lisboa no dia 31 de Julho de !931 para Lisboa. Na frente pode ver-se uma fotografia do balneário das termas do Peso. Note-se que uma maioria esmagadora dos chamados aquistas são oriundos de classes sociais médias e altas e são quase sempre oriundos dos grandes centros urbanos. Nesta época, o turismo termal era verdadeira moda...

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Postal antigo - Mosteiro de Fiães (1918)




Postal envido de Melgaço, mais concretamente do Peso em 17 de Setembro de 1918 por um senhor de nome João. Este postal foi enviado para o seu primo residente em Lisboa chamado Henrique Alves (o nome do meio não o consegui decifrar...). No texto o remetente felicita o destinatário por um acontecimento que não é especificado no postal.
Na frente observamos uma fotografia da fachada principal da Igreja do antigo Convento de Fiães (Melgaço) datada do início do século XX.

domingo, 9 de dezembro de 2012

O castelo de Melgaço no Portugal dos Pequeninos (1941)


         Imagem extraída de: Arquivo Municipal de Lisboa

A imagem documenta o “Alçado Principal da Secção Etnográfica do Minho” no Portugal dos Pequeninos, em Coimbra, segundo o projeto do arquiteto Cassiano Branco, datado de 1941.

O desenho descreve o alçado principal do arco da Casa dos Paivas em Braga, do pelourinho de Ponte da Barca, da Torre do Relógio em Caminha, da Câmara Municipal de Guimarães, do Castelo de Melgaço, da Casa dos Coimbras, em Braga, do Castelo de Guimarães, do Castelo de Viana do Castelo, da Casa de João Velho, em Viana do Castelo e do Arco, em Braga.

Fonte: Blogue do Minho

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Os privilégios dados às gentes de Melgaço no foral de D. Afonso Henriques (1183)

D. Afonso Henriques, para além de ter beneficiado particulares e instituições eclesiásticas, também concedeu a Melgaço carta de foral. Documento que elevou esta povoação à dignidade de município ou concelho.
Em relação a esta carta foralenga, convém recordar que a data, expressa de forma anormal, se costuma ler 1181, mas a crítica, conferindo as datas dos cargos exercidos pelos magnates que o subscrevem, inclina-se para o ano de 1183. Fosse de um ou de outro ano, pelo dito foral vê-se que Melgaço era uma unidade territorial antiga, talvez uma vila romana ou castro atendendo à configuração do terreno em que a vila se implantou, vila que deve ter sucedido a uma póvoa ou pobra, isto é, povoação anterior.
Trata-se de uma terra que já tinha sido delimitada anteriormente, pelo que D. Afonso Henriques a concedeu aos seus moradores com uma certa independência administrativa e judicial, outorgando-lhe um foral igual ao modelo de Ribadávia, na Galiza, como lhe tinha sido pedido por eles. Expressamente o rei diz que lhes concede a terra “... cum suis terminis et locis antiquis...” por onde os pudessem descobrir ou reclamar.
O património concelhio foi-lhes ainda aumentado com a metade indivisa de Chaviães, que era do rei, impondo como condição, nesta concessão, que edifiquem a povoação e nela residam32. Poderia tratar-se tanto de uma reconstrução como de um repovoamento.
Este modelo de foral constituiu no seu conjunto a forma mais adequada, encontrada pelos moradores de Melgaço e apoiada pelo rei, para organizar o território, para o povoar, para incrementar o seu desenvolvimento económico e para o defender, dado que se encontrava em zona fronteiriça.
Para alcançar esses objectivos orientavam-se certas disposições, exaradas na respectiva carta de foral, referentes aos foros, tributos e penas que incidiam sobre a vida dos moradores e também sobre pessoas estranhas ao concelho, de que salientamos apenas alguns aspectos:
– A relativa leveza da carga fiscal a pagar ao rei pelos moradores, já que, apenas teriam de lhe pagar, anualmente, por suas casas, um soldo, e os carniceiros dois, sendo metade paga depois do Natal e a outra metade três dias após a Assunção de Sta. Maria e seis dinheiros de colheita. De tudo o cultivado, comprado ou vendido apenas pagariam a dizima à igreja, com vista à defesa da agricultura e aumento do comércio.
– O incremento e protecção concedida ao comércio local, pois os mercadores da vila beneficiavam de certas regalias em relação aos mercadores “estranhos” – leia-se aqui galegos. Enquanto estes de tudo o que vendessem tinham de pagar ao rei ou seu representante determinada quantia, estipulada numa pauta, aqueles perante ninguém teriam de dar satisfação. Por outro lado, tenta-se também pôr cobro à utilização de medidas falsas através da aplicação de coimas: “De falso cubito et de tota medida... pro falsitate V soldos reddat”.
– A luta contra os delitos e infracções cometidas, através de adequadas penas. Entre esses podemos apontar: homicídio, roubo, violação do domicílio, agressão em recinto público, injúria, penhora indevida, etc. O produto das coimas aplicadas revertia tanto em favor da vítima e do poder régio, como do concelho.
A instituição do concelho assentava então, numa carta de foral, diploma que regulava a administração, as relações sociais e os direitos e encargos dos moradores. 




 Texto extraído de:
RODRIGUES, Teresa de Jesus (1996) - D. Afonso Henriques e o Alto-Minho. Casa de Sarmento, Centro de Estudos do Património, Universidade do Minho. In: Revista de Guimarães, n.º 106, 1996, pp. 79-93.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Histórias da RODA de Melgaço - séc. XVIII e XIX (parte VIII)


Muitas crianças terão morrido por serem incorrecta ou insuficientemente alimentadas. Provavelmente como reflexo de uma situação de extrema miséria, uma ama solteira, que também havia sido exposta, entregou na instituição de acolhimento em Melgaço um exposto que estava a criar, o qual se encontrava «em tal estado de magreza, como não pode explicar-se, sendo este devido á falta de alimento desde o princípio da sua criação». Era o que constava no atestado passado pelo médico municipal. Mesmo neste estado, este exposto ainda sobreviveu cerca de um mês.
Desta forma, corria o ano de 1875, a rogo da câmara de Melgaço, Maria Delfina Dias, solteira, lavradeira, de 20 anos de idade, inscreveu-se como ama para criar a exposta Maria Olímpia, a qual havia entrado na “Roda” “quase expirante”, não podendo ser amamentada por ser «aleijada da boca e não poder extrair o leite da mama». Segundo o bilhete que trazia, a menina tinha um mês de vida, já estava baptizada e «desde que nasceu ainda não mamou, tendo-se sustentado com sopas de trigo». Mesmo nesta situação, não deixa de surpreender o facto desta criança ter sobrevivido quase três meses, tendo falecido no dia 29 de Junho do mesmo ano, «por suas circunstâncias de defecção assim o permitirem, visto não poder manter-se com a falta de amamentação».

Informações recolhidas em:

- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.

sábado, 1 de dezembro de 2012

A edificação do Convento de Nossa Senhora da Conceição de Melgaço III



Fachada principal e campanário, 1757-1758.


Em 1763 foi Guardiao Frei Diogo da Purificação (...) Fez as urnas dos altares colaterais, pintou-os, e tambem o pulpito: pôs as grades, pôs os taburnos da Igreja e as sepulturas entre os taburnos de caixilhos de alto abaixo. Lajeou a porta da Igreja da banda de fora e desentulhou toda a entrada da mesma Igreja, que era um outeiro, fez os muros desde a quina da torre ate o caminho, e dai até a quina do caminho da porta do carro. Fez mais o outro muro da banda de baixo do mesmo comprimento pagando o chao para botar o caminho por onde agora vai. Principiou a obra da agua, que se chama a fonte nova, e tirou para isso o despacho de Sua Excelencia e fez nessa obra um grande pedaco deixando, para se continuar 200.00 reis na mao do nosso Irmao Sindico e fez mais o forro da porta do coro e o almário dele.
Frei Diogo da Soledade que tomou posse aos 6 de Outubro de 1764 (...) Continuou a dita obra da agua ate se meter na cozinha, gastando-se nela os ditos 200.000 mil reis e mais de 150.000 em cima (...) Andou-se com toda a pressa com a dita obra da água até meter-se na horta, que caiu nela a 24 de Janeiro (...) Frei Francisco do Rosário (...) tomou posse em 13 de Junho de 1765 (...) No seu tempo fez a Provincia metade da obra do claustro, nao concluida alias, porquanto a esmola provincial nao foi bastante (...)
Frei Matias do Espirito Santo, natural de Sao Miguel de Perre, termo de Viana, tomou posse em 12 de Fevereiro de 1767 (...). Fez o tanque da horta e levantou o frontespicio da Igreja, concorrendo para esta obra com a esmola de 32.000 reis o Padre Frei Paulo da Conceição. No arco cruzeiro da Igreja colocou-se no seu tempo as imagens do Santo Cristo, Nossa Senhora e São João Evangelista (...) Fizeram-se duas quadras do claustro de pedraria somente.
Frei Antonio de Sao Joao (...) tomou posse este guardiao em 22 de Setembro de 1768 (...) fez o coberto para dar esmola aos pobres e cobriram-se e soalharam-se de novo duas quadras dos claustros. Colocou de novo o Senhor da Portaria e outros acrescentamentos fez.
Frei Francisco da Purificacao (...) tomou posse da guardiania em 3 de Julho de 1770 (...). No seu tempo retelharam-se as duas quadras do claustro e todo o mais convento que necessitava (...).
Frei Francisco da Madre de Deus (...) tomou posse em 21 de Dezembro de 1771 (...). No seu tempo fizeram-se duas quadras dos claustros, a que corre encostada ao De Profundis e a que desta vai para a sacristia, soalharam-se e madeiraram-se; e as outras se tornaram a compor de madeiras, consertando-se lhe tambem os telhados, assim como em muitas partes do convento. Mudou-se a adega do capitulo e este se preparou colocando-se-lhe a imagem de Sao Pedro de Alcantara. (...) Consertou-se tambem o muro da mata em quatro pontos. Na rouparia colocou-se a imagem de Sao João Nepomuceno, primeiro mártir e defensor do sigilo sacramental (...) Fez-se ainda com todo o primor da arte uma urna para Nossa Senhora das Dores.
Frei Manuel de Santa Margaria, natural da vila da Barca, tomou posse do cargo a 13 de Junho de 1776 (...) e esticou a escada do De Profundis e caiou o convento pela primeira vez desde que se fundou. (...) Frei Joao de Jesus, Maria, Jose tomou posse em 3 de Junho de 1779 e finalizou em 16 de Dezembro de 1780. No seu tempo fez-se a Portaria para dar a esmola e o muro da Senhora da Pastoriza, cerrando-se o que legou Caetano de Abreu e mais um pedaco de baldio. Construiu-se tambem a entrada de carro a esquina da Igreja. (...)
Frei Manuel de Jesus toma posse em 24 de Julho de 1782 (...) Nessa altura fez-se a livraria e nela se colocaram estantes. No campo trabalhou-se tambem especialmente na horta nova e no pomar. Fez-se tambem um galinheiro.
Frei Francisco de Santa Quiteria, que tomou posse da guardiania a 10 de Maio de 1785, deixou na Igreja três lâmpadas novas a romana (...) Organizou-se a enfermaria (...) Frei Bernardino de São José (...) Como fiquei reconduzido na Congregacão do sobredito Provincial, celebrada em Santo António de Viseu a 15 de Dezembro de 1798. Nesta estadia se botou abaixo o estuque, por estar muito roto e despedacado, caiando a pedacos, e se forrou a igreja de madeira de castanho, pintou-se o dito forro de alvaiade fino, fez-se-lhe no cimo e meio do forro a tarja da Senhora da Conceição com armas reais, e seraficas, a qual tem de comprido 35 palmos e 30 de largo. Fizeram-se as varandas de pintura por cima das cornijas da mesma igreja, tambem pintadas como se vêem. Pintaram-se as ditas cornijas, frestas, pedestal do pulpito, arcos, cruzeiro da capela de Sao Pedro de Alcântara e do claustro, portas dos confessionários quanto respeita a pedra e pau. Lavaram-se as três imagens do arco cruzeiro e se lhes puseram cortinas de fingido carmesim, resplandores prateados. Dourou-se e pintou-se o retabulo da capela de São Pedro de Alcantara, como tambem urna, etc. Dourou-se e pintou-se o retabulo e urna da Senhora das Dores, que e o colateral da parte do Evangelho e se fez de novo a Divina Imagem Dolorosa, vestido feito tudo em Braga, so ela Senhora, com os seus adereços, custaram por cima de sessenta mil reis, e pos-se-lhe o caixilho para a vidraca (...)
Frei Manuel de Santa Teresa de Jesus. Tomou posse em 20 de Agosto de 1800 (...) e a obra principal do seu tempo foi a aquisição de um sino para as horas do relógio que se colocou no cimo do campanário em quatro varões de ferro com suas guarnições e garimpa. Terminava com uma cruz na haste da qual se atravessava uma lanca, sustentando, um galo, que rolando, mostrava os ventos. (...)
Frei Joao da Pureza. Tomou posse em 8 de Dezembro de 1813 (...) Diz o sindico da Comunidade, Antonio Luis de Araujo Cunha, da Casa da Gaia, ter o guardião mandado arrancar e cortar no mesmo sitio da Pedreira para as sepulturas e ladrilho do claustro do dito convento, alguma pedra e, como assim se fez, foi a obra embargada pelo tesoureiro mor."

Extraído de:
- FIGUEIREDO, Ana Paula Valente (2008) - Os Conventos franciscanos na real província da Conceição - análise histórica, tipológica, artística e iconográfica. Tese de Doutoramento em Arte, Património e Restauro, FLUL, Lisboa.