terça-feira, 31 de julho de 2012

Pelas aldeias seculares de Castro Laboreiro


Trilho pelo antigos caminhos que ligavam as aldeias de Castro Laboreiro. Estes caminhos merecem ser percorridos e estes sítios explorados. Só respirando aquele ar é que se sente de facto Castro Laboreiro!!!


Principais pontes em Melgaço no séc. XVIII (segundo as memórias paroquiais de 1758)


As principais pontes localizam-se pois no rio de Mouro, na área do concelho de Melgaço. A ponte da Estadela (Memória de Parada do Monte) e a ponte da Minhoteira, que antes era de pau e há poucos anos de cantaria (Memória de Parada do Monte). Sobre o rio Mourilhão, a ponte de Mourilhão e outra no sítio ficando em Parada do Monte (Memória de Parada do Monte). Sobre o rio que nasce no sítio das Regadas, afluente do Mourilhão, em Parada do Monte, a ponte do Porto do Rio (de cantaria) e outras de pedra tosca, do Borrageiro, da Cerdeira, de São Marcos (Memória de Parada do Rio). Estas pontes de pedra, porque outras são ainda de pequenos pontilhões de padieiros de pedra e de madeira, de mais pequeno porte e curso, que atravessa o rio Mouro – designadamente a ponte de pau para passar entre a freguesia de Cousso e a freguesia da Gávea. No rio de Castro Laboreiro 3 pontes de cantaria: a do Rodeiro, a Ponte Pedrinha (junto a Castro), e a da Assureira. E também nos seus afluentes: sobre o rio Campelo, uma ponte de pau (no sitio de Porto Campelo), e uma de cantaria no sitio de Varziela; no rio da Ponte das Veigas, a ponte de cantaria no sitio das Veigas e no rio Barreiro, a ponte de cantaria no sitio de S. Brás (Memória de Castro Laboreiro).

Informações recolhidas em:
- CAPELA, José Viriato (2005) - As freguesias do Distrito de Viana do Castelo nas Memórias Paroquiais de 1758. Alto Minho: Memória, História e Património Casa Museu de Monção/Universidade do Minho.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

O aproveitamento dos rios e ribeiros de Melgaço segundo as Memórias Paroquiais de 1758


No território do concelho de Melgaço, é naturalmente o rio Minho que faz figura principal. Nele confrontam muitas das freguesias do concelho e relativamente a ele se orienta, em declive, o território concelhio, para ele fazendo confluir muitos rios e ribeiros que aí nascem e se desenvolvem. Por ele se delimita o território português do galego e se desenvolvem muitas relações sociais e comerciais. Por ele se articulam as terras do concelho melgacense do interior do território ao litoral marítimo e à foz em Caminha. A desenvolver-se numa grande secção no termo concelhio, o mais importante curso de água é o do Rio de Mouro, que pertence também ao concelho de Monção e por cuja bacia hidrográfica se fazem, aliás, os limites de ambos os concelhos. Tem seu princípio no sítio da Portela do Lagarto, freguesia de Lamas de Mouro e vem ao fim de 2 léguas a lançar-se no rio Minho de que é afluente importante no sítio da Ponte de Mouro (Memória de Cousso, Cubalhão). Diz-se rio caudaloso – com enchentes no Inverno –, que corre todo o ano, ainda que sem qualquer navegação, porque de grande declive e correndo frequentes vezes entre fortes penedias (Memória de Ceivães). É no final o resultado de algumas importantes confluências: a do rio Mourilhão, que nasce nos limites da freguesia de Parada do Monte e se junta ao rio de Mouro junto à ponte de Estadela. É também relativamente caudaloso e de «curso arrebatado» por correr entre penedias e fragões (Memória de Parada do Monte) e outros ribeiros, designadamente os que tem princípio na serra de Parte Aguas e serra de Buzenlhe (Memória de Lamas de Mouro). O rio do Porto nasce no sítio da Espartanga (Memória de Parada do Monte). Em Roussas diz-se nascer um regato no sítio de Pumadelo (Memória de Roussas) e em S. Paio de Melgaço faz-se referência à corga e rio de Montirigo e rio [Lantes] (Memória de S. Paio de Melgaço).
Em Crasto Laboreiro nasce o rio de Castro Laboreiro, ao qual se juntam o rio de Campelo, o rio de Ponte das Veigas e o rio de Barreiro. Corre o Crasto Laboreiro para o Soajo, acabando no rio Tibo do Soajo (Memória de Casto Laboreiro). A pescaria do rio Mouro é em especial de trutas, frequentes da Gávea para cima; para baixo pesca-se também bogas e enguias (Memória de Parada do Monte). Neste como nos demais ribeiros e riachos a pescaria é livre, também de um modo geral é livre o acesso às águas. Nalguns casos andam repartidas e separadas entre os moinhos e os campos, num regime geral com muitas aplicações por todo o lado, tal como vai referido pelo memorialista de Remoães: «as aguas das ribeiras andam partidas desde o dia 18 de Julho até o dia 8 de Setembro (…) e neste tempo correm de noite para os ribeiros para moerem os moinhos, excepto à noite dos Sábados que se tem determinada para as terras que não tem quinhão de agua» (Memória de Remõaes, Melgaço).



Informações recolhidas em:
- CAPELA, José Viriato (2005) - As freguesias do Distrito de Viana do Castelo nas Memórias Paroquiais de 1758. Alto Minho: Memória, História e Património Casa Museu de Monção/Universidade do Minho.

domingo, 29 de julho de 2012

Melgaço vive acentuado clima de insegurança na primeira metade do século XIX

Cadeia de Melgaço no século XIX

Em tempos mais recuados, assistiu-se à actuação de quadrilhas, cuja actividade se fez sentir por todo o Alto Minho, desde os inícios do século XIX. Em 1818, as povoações ribeirinhas do rio Minho, quer do lado português, quer da Galiza, eram constantemente atacadas por bandos de salteadores encapuzados, que não só roubavam como invadiam as aldeias, intimidando as populações com tiros e ocupando tabernas e vendas. Alguns destes bandos tinham motivações políticas e contavam, inclusive, com a conivência do poder judicial. Outros foram, entretanto, desmantelados, como a quadrilha que actuava em Melgaço, intitulada “A Cruzada de S. Gregório”. Este grupo era liderado por Manuel Joaquim Veloso, capturado em quatro de Novembro de 1834 e julgado e condenado em Junho de 1836. A aceitação da vitória liberal, não sendo um facto consumado em todo o reino, contribuiu para o desenvolvimento de uma política de guerrilha. Constituíu o primeiro passo para a formação de bandos organizados, que se dedicavam à prática de todo o tipo de atentados. Apesar da detenção, no decurso do ano de 1835, de algumas figuras destacadas da guerrilha, em Janeiro de 1836 o provedor de Melgaço traçou um cenário desolador. Algumas estradas, nomeadamente a que ligava a freguesia de Penso a Valadares, estavam praticamente intransitáveis, devido ao clima de medo imposto por bandoleiros, sendo o mais conhecido Tomás das Quingostas, que deambulavam por aquelas terras.
Por outro lado, funcionários judiciais recusavam-se a entrar nas aldeias e afixar editais contra eles, com receio de perder a vida, imperando, por isso, um verdadeiro clima de medo e delação. Em Fevereiro de 1836, o administrador geral do distrito dava conta da disseminação de bandos de salteadores, que, em alguns concelhos, não se limitavam a realizar incursões nocturnas, de beira de estrada, mas atacavam as povoações e todos aqueles que ousavam resistir. Para agravar a situação, tais acontecimentos desenrolavam-se num quadro em que a ordem liberal ainda não estava consolidada, os recursos eram limitados e os serviços de polícia e segurança incipientes, permitindo que os criminosos vagueassem livremente e, por consequência, se registasse a propagação da violência. Nos últimos anos da década de trinta, bem como nos primeiros anos da década seguinte, a criminalidade foi potenciada pelo contexto político, por antagonismos religiosos e pela elevada actividade de bandoleiros, aos quais se juntavam desertores e inimigos da monarquia constitucional. A sua actuação traduzia-se não só em atentados contra a propriedade, ou contra os representantes locais do poder liberal, mas também contra a população em geral. Por sua vez, muitos dos antigos funcionários da ordem política anterior, afastados dos seus cargos e sem meios de sustento, dedicavam-se à gatunice e vagabundeavam pelo distrito.

A implantação definitiva do regime liberal e das consequentes reformas conduziram à disseminação dos crimes políticos e religiosos. Tratava-se de ecos do miguelismo, que se materializavam no cometimento de delitos contra o Estado, sob a forma de sedições, rebeliões e assuadas, e contra a ordem religiosa reformada. Foram vários os “cismáticos” perseguidos em Melgaço e noutros concelhos do distrito de Viana do Castelo, mas outros conseguiram escapar à justiça e engrossaram as fileiras dos bandos de salteadores.

É, todavia, de salientar que não podemos considerar que a totalidade do povo rural do Alto Minho, manipulado pelas oligarquias locais, pugnava cegamente pela defesa do absolutismo e pela fé cristã. Corremos, aliás, o risco de nos revelarmos preconceituosos e redundantes, ao admitirmos a possibilidade de a ignorância, a falta de instrução, o conservadorismo e o fanatismo das populações serem os únicos elementos do discurso explicativo da adesão à causa miguelista e considerá-las uma força de bloqueio ao progresso da nação.



Texto extraído de:

- "ESTEVES, Alexandra Patrícia Lopes (2010) - Entre o crime e a cadeia: violência e marginalidade no Alto Minho (1732 - 1870). Tese de Doutoramento, Universidade do Minho, Instituto de Ciências Sociais.

Em 1462, o rei D. Afonso V confirma para Castro Laboreiro, entre outros, o privilégio da fronteira livre com Milmanda e Araúxo (Galiza)



Nunca foi fácil a estas populações raianas, marcadas por um forte periferismo sacudir, quer a crescente pressão fiscal dos agentes régios que desanimava a vinda dos galegos, quer a influência senhorial, que cobrava portagens arbitrárias e exercia abusos, contrariando, assim, a corrente regular de trocas, causando, em muitos casos, uma animosidade entre comunidades vizinhas, como o deixam transparecer as múltiplas declarações efectuadas nas diversas Cortes do séc. XV.

Populações, altamente lesadas pelas medidas de foro fiscal, aproveitaram a presença de Afonso V no vale do Minho, em 1462, para irem ao seu encontro e queixarem-se, não só da violência de que eram alvo, por parte das autoridades, como para lhe solicitar a confirmação dos velhos privilégios de vizinhança, que abrangiam, também, as vizinhas populações galegas. Curioso é, ainda, registar, que populações galegas raianas tomaram a mesma iniciativa perante o monarca português.

De todas as povoações raianas, Castro Laboreiro, talvez, fosse a mais atingida, por este conjunto de medidas, atendendo ao isolamento a que ficou votada e que levantou graves problemas de subsistência.

D. Afonso V sensível ao pedido e à situação de penúria da população castreja, outorgou, em Monção, uma carta em que lhes concedeu a manutenção do velho privilégio de fronteira livre, nomeadamente, com Milmanda e Araúxo, além da regalia de “lá hirem paçer com seus gados (...) e assi meesmo y o faziam os dictos lugares que vinham ca a nossos rregnos ssem lhe sobre ello ser posto embarguo (...) porquanto a dicta terra era muito fragosa e sse a assi nom fezessem se nam poderiam manter nem soportar, ouvemos por bem de ellos vizinharem e trautarem com os sobredictos assy como sempre teveram de custume”.

sábado, 28 de julho de 2012

As origens de Fiães


São diversas as teorias sobre as origens do topónimo. O Pe. Aníbal Rodrigues avança três: de feno, terreno onde se produzia muito feno; de Fidelanis, gente de muita fé; ou de ‘terra de fiandeiras ou fiandeiros”, cultivadores de linho e tecelões de teares caseiros.
Pinho Leal, por seu lado, defende que Fian, Fiãa, Fiaam, Ffia, Sfiãa e Fiada é tudo o mesmo (no português arcaico) e significa vaso de barro chato e redondo, a que depois se chamou almofia. Servia antigamente para pagar certa medida de cereais e também de manteiga. Dezasseis fiães faziam um alqueire.
Ainda segundo este autor, é provável que aqui se pagasse este foro, pelo que então se diria terra de Fiães (ou que paga fiães). Ou que houvesse aqui oleiros que fabricassem fians. Afian (em latim fiala) era quase da forma de um alguidar e levava dois quartilhos.
Houve aqui um importante convento de frades beneditinos, antiquíssimo. São bastante confusos os seus primórdios: frei António da Purificação pretende que remonte ao ano de 870, logo ocupado pelos eremitas de Santo Agostinho, que aqui ficariam até se integrarem na regra cisterciense; os beneditinos contestam esta opinião e, pela pena de frei Leão de S. Tomás, avocam-se tal prioridade, dando-no como fundado em 889; finalmente, o Pe. Carvalho da Costa, indo mais longe, afir­ma que aparecem notícias sobre a casa já no ano de 851 (no tempo de D. Ramiro II, de Leão, e de sua mulher, D. Patema).
Não há dúvidas, no entanto, que já era couto antes da fundação da nacionalidade, pois D. Afonso Henriques confirmou-lhe esse privilégio em 1173 e isentou os seus moradores de pegarem em armas e de servirem em quaisquer obras de fortificação, excepto “em uma quadrilha de dezoito braços nos muros de Melgaço”.
Os reis seguintes mantiveram e, em muitos casos, aumentaram estas mercês.
Em 1730, as autoridades militares ordenaram um recrutamento no couto. Imediatamente o abade recorreu para o general comandante da praça de Valença, sendo atendido. Como, anos depois, nova tentativa se fizesse, D. João V recomendou a anulação dessa diligência.
Constava que era o mosteiro mais rico das Espanhas. Recebeu valiosas doações.
Tinha muitos bens e casais e grande número de coutos. Possuía foros no Minho, Trás-os-Montes e Galiza, chegando a dispor de vinte abadias. “Desta forma, podia manter oitenta frades de missa, além dos conversos” (Lionído de Abreu, em “Silva Minhota”). Nesses tempos, quando se pretendia definir a sua grandeza, dizia-se que, “depois de el-rei, não há senhor tão poderoso como o Dom Abade de Fiães”.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Melgaço ao lado da "Monarquia do Norte" (1919)

Na vila de Melgaço na época...


A 14 de Dezembro de 1918 o major dr. Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais, Presidente da República Portuguesa, foi assassinado a tiro, ao badalar da meia-noite. A partir daqui tudo se complicou e precipitou, quase às claras. A 13 de Janeiro de 1919 estoura em Santarém uma rebelião militar republicana, prontamente esmagada pelo general Fernando Tamagnini de Abreu e Silva e pelo Ministro da Guerra, tenente-coronel José Alberto da Silva Basto. O poviléu, atrito e gemebundo, assistia a tudo de olho esbugalhado fora da órbita.
Logo de seguida, num domingo radioso de sol, eclodiu a revolta monárquica na cidade do Porto, «agora ou nunca». Durante a parada militar do Monte Pedral, com contingentes de Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Metralhadoras e da Guarda Nacional Republicana, às 13 horas do dia 19 de Janeiro de 1919, foi desfraldada a bandeira azul e branca, por entre vivas a Portugal, à Monarquia, ao Exército e a El-Rei Dom Manuel II, tudo sem disparar um único tiro.
Secundada por outros movimentos sediciosos, rapidamente levaram à proclamação da Restauração da Monarquia e a instauração da Junta Governativa do Reino de Portugal sob a presidência de Henrique de Paiva Couceiro, que exerceu, na realidade, o poder nas províncias do Minho, Douro, Trás-os-Montes, parte da Beira Alta e da Beira Litoral até à linha do Vouga.
Formou-se um ministério, o Governo Nacional, com figuras gradas e espírito couraçado com as razões celestes:
Coronel Henrique Mitchell de Paiva Cabral Couceiro como Ministro da Presidência, Negócios da Fazenda e Subsistências;
Capitão de Cavalaria António Adalberto Sollari Allegro, Ministro dos Negócios do Reino;
Dr. Júlio Girão Faria de Morais Sarmento (Visconde do Banho), Ministro dos Negócios Eclesiásticos, Justiça e Instrução;
Coronel João de Almeida, Ministro da Guerra, Marinha e Comunicações;
Conselheiro dr. Luís Cipriano Coelho de Magalhães, Ministro dos Negócios Estrangeiros;
Coronel eng.º Artur da Silva Ramos, Ministro das Obras Públicas, Correios e Telégrafos;
Dr. Pedro de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon (Conde de Azevedo), Ministro da Agricultura, Comércio, Indústria e Trabalho.
O coronel João de Almeida, comandante militar de Aveiro, nunca chegou a tomar posse e não tardou a desmarcar-se da «restauração monárquica na presente conjuntura». Tal motivo originou a redistribuição das pastas ministeriais.
A Junta Governativa do Reino de Portugal tentou reorganizar a administração do território nomeando governadores civis para diversos distritos, cujas posse decorreram, na maioria dos casos, a 20 de Janeiro:
Tenente-coronel Fernando de Almeida Cardoso de Albuquerque (Conde de Mangualde) para o distrito do Porto;
Major Martinho José Cerqueira para Viana do Castelo;
Major Egas Ferreira Pinto Basto para Aveiro;
Capitão Arnaldo Ribeiro de Andrade Piçarra para Braga;
Tenente-coronel Carlos Leitão Bandeira para Bragança;
Capitão Victor Alberto Ribeiro de Menezes para Coimbra;
António de Sampaio da Cunha Pimentel para Vila Real;
Tenente-coronel Patrício Xavier de Almeida e Brito para Viseu;
Dr. António Maria de Sousa Sardinha para o distrito de Portalegre;
Coronel Firmino Teixeira da Mota Guedes como governador militar de Braga.
Ao mesmo tempo revogou inúmera legislação aprovada pelo fervor republicano desde Outubro de 1910, criou um órgão oficial, restabeleceu os símbolos da Monarquia Constitucional, a bandeira, o hino, a moeda, os selos, os feriados, a Carta Constitucional da Monarquia Portuguesa de 1826 e reintroduziu o Código Administrativo de 1896.
O Diário da Junta Governativa do Reino de Portugal, logo no seu primeiro número publicado a 19 de Janeiro, despachou os decretos que restabeleceram a bandeira com as cores reais, o Hino da Carta e revogou «toda a legislação promulgada desde 5 de Outubro de 1910». Entrementes, prosseguiu o afã legislativo da Junta Governativa do Reino de Portugal, com o estabelecimento do livre-trânsito dos géneros alimentícios e a regulação de preços.
Os oficiais, militares e funcionários que tinham sido saneados após o 5 de Outubro foram readmitidos, promulgou uma amnistia para os exilados políticos. À frente da Divisão Militar do Porto foram mantidos o coronel João Gomes Espírito Santo e o capitão António Maria Homem de Sampaio e Mello. A maioria esmagadora das autarquias do Entre-Douro-e-Minho aceitou o facto consumando sem perturbação da ordem e proclamou a Monarquia, sem haver necessidade de nomear novas vereações. Ainda a 19 de Janeiro a restauração da Monarquia foi solenemente proclamada em Viseu, São Pedro do Sul, Lamego e em Braga.
A 20 de Janeiro de 1919 o dr. José Maria Nogueira, que já era presidente da Câmara Municipal de Paredes de Coura, aclamou a mudança do regime em sessão solene realizada nos Paços do Concelho. Com entusiasmo, e por entre vivas ao Rei, a bandeira azul e branca foi içada no município de Melgaço. A bandeira azul e branca é levantada também em Ponte da Barca, Ponte de Lima, Arcos de Valdevez, Vila Nova de Cerveira, Caminha, Guimarães, Barcelos, Vieira do Minho, Fafe, Póvoa de Lanhoso, Cabeceiras de Basto, Esposende e demais localidades minhotas, reconhecendo ipso facto a mudança de regime.
As únicas excepções registaram-se em Viana do Castelo e Valença do Minho, devido à forte presença de guarnições infectadas pelo credo republicano. Formou-se em Braga uma intrépida coluna militar comandada pelo capitão António de Sá Guimarães Júnior, acompanhado do major Martinho José Cerqueira, governador civil indigitado, e pelo coronel Alfredo Ernesto Dias Branco, comandante militar da cidade do Lima, marchou para o Alto Minho e impôs a instauração da Monarquia em Viana do Castelo, ainda a 20 de Janeiro, e em Valença no dia imediato, sem encontrar, afinal, qualquer resistência ou disparar um cartucho. Contudo, a 22 de Janeiro, as canhoneiras da Marinha republicana bombardearam a cidade de Viana do Castelo e Vila Praia de Âncora, acto intimidatório, para inglês ver.
De seguida a «coluna relâmpago» do capitão Sá Guimarães marchou para o Nordeste e proclamou a restauração da realeza em Vila Real (24 de Janeiro) e em Vidago (30 de Janeiro) e, quando planeava atacar Chaves, retrocedeu primeiro para Mirandela, onde já fora antes restaurada a República, e ali sofreu o primeiro revés, sendo gravemente ferido.
A Coluna Militar Mista do Sul, comandada pelo tenente-coronel de Artilharia João Carlos da Cunha Corte-Real Machado partiu do Porto a 22 de Janeiro e proclamou a Monarquia em Ovar (23 de Janeiro), Estarreja e Albergaria-a-Velha (24 de Janeiro), sendo travada às portas de Águeda, exaurida de reforços, munições, calçado e pitança.
Por isto ou por aquilo, a Monarquia nunca foi instaurada na região Centro do País, o que tornou muito difícil a sua sobrevivência. Somente a 22 de Janeiro de 1919 a rebelião alastrou a Lisboa, com as tropas monárquicas e civis comandados pelo conselheiro Aires de Ornelas e Vasconcelos a acantonarem-se no reduto da serra de Monsanto, donde foram desalojados após violentíssimos combates e gritaria da turba espavorida, que ditaram a derrota monárquica na capital, a 24 de Janeiro. A rebelião no Sul fracassara perante a Escalada de Monsanto, sem rei nem roque.
Para operar na Régua e Lamego foi enviada a coluna monárquica capitaneada pelo major Joaquim César de Araújo Rangel, depois transferido para Trás-os-Montes e ali substituído pelo tenente-coronel Augusto de Sousa Dias, porém, já não era possível sustar o açoite das forças republicanas por muito tempo, a mata-cavalo por trancos e barrancos. A 10 de Fevereiro, apesar do denodo praticado, os republicanos conquistaram Lamego.
A Coluna Mista do Norte, agora liderada pelo major Joaquim Rangel, marchou em direcção a Mirandela, trupe que trupe, depois de receber informações que reforços republicanos iam de rota batida a caminho de Vila Flor, por meio de montes fragosíssimos. A 9 de Fevereiro de 1919 iniciou-se o feroz combate pela travessia do rio Tua e tomada de Mirandela, nove horas a ferro e fogo e terminou num feroz assalto corpo a corpo nas vielas da localidade, ao cair da noitinha. Com pesadas baixas de ambos os lados, a bandeira real foi ali novamente hasteada. No dia seguinte a Monarquia foi proclamada em Vila Flor.
Vitoriosos em Lisboa, os republicanos e o Governo da República apertaram o cerco, mobilizando voluntários civis e colunas militares comandadas pelos generais Abel Hipólito e Alberto Mimoso da Costa Ilharco em marcha forçada com destino ao Norte do País. Depois de fugazes escaramuças e recontros, em especial em Águeda e em Angeja, a breve Guerra Civil iria terminar com a derrota da hoste monárquica, com numerosos actos de valentia de parte a parte.
Os republicanos reocuparam Estarreja (11 de Fevereiro) e Oliveira de Azeméis e Ovar (12 de Fevereiro), e os combates prosseguiam ainda na Ponte de Entre-os-Rios e Paços de Ferreira. Apesar dos últimos esforços na frente de batalha em Lamego e no Vouga de Paiva Couceiro, esforçado paladino dos seus ideais, com tão parcos meios e sem bocado de pão para trincar pela soldadesca, a defesa da Monarquia e do Porto era caso de extrema complexidade, percebeu de salto que a causa estava perdida. A manta era curta, destapava os pés quando cobria a cabeça.
Porém, a Monarquia do Norte ainda persistiu até 13 de Fevereiro, altura em que o capitão de Cavalaria João Maria Ferreira Sarmento Pimentel e o capitão de Infantaria Jaime Rodolfo Novais e Silva, com razões astutas, restauraram a República na cidade do Porto, aproveitando a ausência de Paiva Couceiro e de Sollari Allegro, o que precipitou a marcha dos acontecimentos, ainda com alguns focos esporádicos de resistência monárquica aqui e ali. Aos poucos e pouco, fruto da enorme diferença de recursos, o sonho desmoronou-se e a bandeira rubra e verde foi alçada nas demais localidades.
Ainda a 13 de Fevereiro as forças realistas abandonam Vila Flor, a 14 deixaram Mirandela, retirando em direitura a Bragança. A 17 de Fevereiro foi arvorada o pendão republicano em Vila Real e no dia seguinte terminou a resistência monárquica em Macedo de Cavaleiros. A 19 de Fevereiro de 1919, o conselho de oficiais decidiu abandonar Bragança, o ultimo bastião da Monarquia, e o major Joaquim Rangel, na companha de dez oficiais, cinquenta civis e alguns labregos, atravessou a fronteira e no meio das maiores dificuldades entrou em Espanha a 20 de Fevereiro, depois de andanças por franças e araganças, a descrer da graça divina da Restauração.
Curiosamente, somente a 23 de Fevereiro de 1919 a República foi reimplantada nos Paços do Concelho de Paredes de Coura graças ao major Inácio Soares Severino de Melo Bandeira, comandante do 3.º Batalhão do Regimento de Infantaria de Valença, e ao capitão Antero Moreira da Rosa Alpedrinha, administrador do concelho de Paredes de Coura.
Consumada a derrota azul e branca, eis a leva de presos, represálias de monta, alguns assassinatos esporádicos a enviar monárquicos de presente ao Diabo, saneamento de oficiais, expulsão de funcionários, toda a série de «morras» e «mata» da folia rude da populaça urbana de Lisboa e Porto e mais partes-gagas. As enxovias dos cárceres de Lisboa (Penitenciária, Trafaria, Limoeiro, Lazareto e Forte de S. Julião da Barra), Porto (Aljube e Casa da Reclusão), Funchal, Coimbra, Braga, Ponte de Lima, abarrotaram até ao tecto.
Foram criados o Tribunal Militar Especial de Santa Clara (Lisboa) e o Tribunal Militar Especial de S. Bento (Porto) que julgaram dois mil arguidos civis e militares, em julgamentos que se prolongarem até 1921, com muitas sentenças cochichadas ao ouvido e sobrolho carregado, o látego a fustigar a canalha talassa. Ao mesmo tempo procedeu-se a um vasto saneamento da corporação militar com a expulsão de quinhentos oficiais das Forças Armadas. A República topava inimigos a cada passo, até num sorriso alarve.
O major Martinho Cerqueira, governador civil do distrito de Viana do Castelo na Monarquia do Norte, o capitão Benjamim Gomes de Amorim, natural de Arcos de Valdevez, e o sargento de Artilharia Manuel da Mota, de Viana do Castelo, foram condenados a seis anos de prisão maior celular, seguidos de dez anos de degredo ou à pena única de vinte anos de degredo. O padre Domingos Pereira, cabecilha que em Cabeceiras de Basto desfiava padres-nossos enquanto sustinha o arcabuz da guerrilha, foi condenado a tanta soma de anos, quatro em prisão maior celular, seguidos de oito em degredo, ou a quinze anos de degredo opcional.
O alferes Gualdino Ribeiro Guimarães de Passos, natural de Padornelo (Paredes de Coura), foi punido com quatro meses de prisão por despacho de 15 de Agosto de 1919, decisão que contudo foi anulada por despacho de 4 de Janeiro de 1920, «por não provada por unanimidade» as acusações de «tentar restabelecer a forma de Governo Monárquico em Portugal». Revogada em termos administrativos, depois de ter cumprido a punição.
O dr. António Antas de Barros, de Paredes de Coura, detido no Porto a 14 de Fevereiro de 1919 pelo seu envolvimento na Restauração Monárquica, foi pendurado de cabeça para baixo na Ponte Dom Luís e intimado com risco de vida a gritar “Viva a República”. Não se mostrou manso nem cordato e respondia sempre, com brios de bizarria e durante horas, com um heróico e contumaz “Viva o Rei!”. Moídos de tanta berraria, o homúnculo não cedia pela alma do Demo, foi atirado dois anos agrilhoado para o fundo do calabouço em Ponte de Lima.
António Domingos Teixeira Pinto e António de Oliveira Lima, ambos do concelho de Coura, alistaram-se igualmente sob o estandarte real, a satisfizer o dever sagrado dos seus ideais, com louváveis assomos de coragem. Obviamente, estes casos são tão-só evocativos e não esgotam a questão.
Do Alto Minho, entre outros, participaram na Monarquia do Norte o Manuel dos Passos Couta Viana, de Viana do Castelo, comandante duma bateria de artilharia em Monsanto, preso que foi no Forte de Monsanto e sucessivamente transferido para o Lazareto de Lisboa e depois para o Lazareto do Funchal, sendo de seguida demitido do Exército. João Espregueira da Rocha Páris, de Viana do Castelo, foi obrigado a exilar-se pelo seu papel na restauração monárquica. No rescaldo da mesma foram enclausurados, condenados ou saneados o poeta António de Cardielos e o eng.º José Alves Bonifácio, de Castelo de Neiva. O dr. Francisco de Abreu Pereira Maia, de Ponte de Lima, teve homiziado na Galiza durante anos.
Em Abril de 1920 o Tribunal Militar Especial, por entre alarido das trombetas, condenou os réus da Junta Governativa do Reino que estavam detidos, o conselheiro Luís de Magalhães, Visconde do Banho, Conde de Azevedo e coronel Silva Ramos, a quatro anos de ferros em penitenciária e a oitos anos de degredo, ou, em alternativa, a quinze anos de degredo para as possessões ultramarinas.
Outrossim, em Dezembro de 1920, os réus julgados à revelia e que haviam integrado a mesma Junta Governativa do Reino, no caso de Paiva Couceiro e Sollari Allegro, foram sentenciados a oito anos de prisão maior, seguidos de doze anos de degredo, ou, em alternativa a 25 anos de deportação nas colónias.
A lei de 9 de Abril de 1921 aprova uma amnistia para crimes políticos. Contudo, por decreto 29 de Abril de 1921, tais e tais, ficam proibidos de residir em território nacional pelo prazo de oitos anos, acusados de conspiração monárquica, que se viram excluídos do indulto:
Comandante Henrique Mitchell de Paiva Couceiro;
Capitão António Adalberto Sollari Allegro;
Padre Domingos Pereira;
Capitão António de Sá Guimarães Júnior;
Capitão Arnaldo Ribeiro de Andrade Piçarra;
Inspector José Baldaque Guimarães;
Aspirante Rogério Pais da Cunha Prelada;
Coronel António Teixeira da Rocha Pinto;
António Rodrigues.
Assim terminou um dos episódios mais marcantes da história política e militar do século XX português, a consumar o fado vesgo do destino, enquanto os passarinhos chilreavam recados na natureza, a dar ouvidos ao canto da sereia.

Sessão solene da proclamação da Restauração da Monarquia na varanda dos Paços do Concelho de Viana do Castelo, a 20 de Janeiro de 1919.


Texto recolhido em: http://escavar-em-ruinas.blogs.sapo.pt/84300.html


quinta-feira, 26 de julho de 2012

MELGAÇO em tempos de anarquia (1839)

Melgaço - Vista Geral
Depois do fim da guerra civil em 1834, continuou um clima de grande instabilidade e uma certa anarquia na região do Alto MInho que se prolongou até meados da década de 1840. Esta região cujas populações são  tradiconalmente fieis aos absolutistas não aceitaram a derrota militar para os liberais e por variadas vezes se verificaram episódios de atentados à ordem pública por bandos de salteadores como o do Tomás das Quingostas, já aqui dissertado neste blogue. Este atuava entre Melgaço e a Galiza e são conhecidos variadas ocorrências de confrontos entre este e o seu bando e as autoridades. Devido à estranha cumplicidade que a população tinha com este tipo de bando, a relação que havia entre as autoridades e as populações era de muita desconfiança e pouca ou nenhuma cooperação. Quando a atuação do bando do Tomás das Quingostas e outros se tornou um caso muito sério de atentado à ordem pública e as autoridades locais se mostravam incapazes de os neutralizarem, então o comando militar da província do Minho viu-se obrigado a mobilizar para Melgaço uma unidade militar que aí ficou aquartelada. Foi decretada pelas autoridades a obrigação das populações melgacenses em contribuirem (boletas ou aboletamentos) para as despesas com os soldados em géneros ou dinheiro. Como seria de esperar, a população não recebeu bem esse novo esforço que lhe era pedido o que contribuiu para degradar ainda mais a relação que havia entre a população e as autoridades civis e militares. Daí resultaram vários conflitos relatados como aquele que se descreve aqui sumariamente.

Melgaço na viragem para o século XX

Em 1839, foi aberta uma investigação na sequência de um documento que chegou à junta de paróquia de Paderne, contendo protestos de alguns dos habitantes daquela freguesia do concelho de Melgaço, relacionadas com os cinco anos de aboletamentos contínuos que sobre eles recaíam, devido à permanência de militares na praça de Melgaço. Segundo aquele documento, reenviado ao general da província do Minho, as populações estavam obrigadas a boletos de 10 dias consecutivos de água, lenha, luz e sal. Ainda segundo a mesma queixa, em 29 de Agosto de 1839, tendo um dos habitantes falhado com a sua obrigação, por falta de meios, um oficial atacou a casa do padre Manuel Álvares, da referida freguesia, obrigando-o a fugir juntamente com a sua família. No entanto, o comandante da linha do Alto Minho apresentava uma versão diferente dos factos. Os boletos eram rotativos, afectando todas as freguesias do concelho de Melgaço, por um período de 10 dias, entre as casas mais abastadas.

Em várias situações, os aboletados mais afastados do local onde permanecia a força militar substituíam a sua obrigação pelo pagamento dum montante em dinheiro. No que respeita ao episódio de Paderne, o comandante afiançava, apoiado no depoimento dos cabos de polícia e do regedor desta freguesia, que não tinha conhecimento de tal ocorrência, concluindo que era falsa a acusação levantada contra as tropas e que o documento apresentado ao general da província do Minho tinha assinaturas forjadas. De facto, várias das pessoas implicadas declararam nos seus depoimentos, por escrito, não ter assinado tal documento, como consta do excerto seguinte:

“Declaramos que não são nossas as assignaturas que nos forão aperguntadas em hum requerimento contra tropa que ficou aquartellada no lugar de Golães, pois pello contrario se comportarão muito bem conforme hé constante. Melgaço 17 de Outubro de 1839.”

Alguns dos subscritores, desconhecendo o conteúdo da queixa, insurgiram-se contra os aboletamentos, mas não contra os militares, nem contra o seu comportamento, por isso assinaram o documento, uma vez que lhes tinha sido prometido que este seria entregue à Junta de Distrito com o propósito de serem aliviados dos aboletamentos. Concluiu-se que as acusações eram falsas, algumas das assinaturas pertenciam a pessoas que nem sequer existiam, ou que eram analfabetas, ou que tinham sido aliciadas para assinarem em branco.

Deste modo, tudo apontava para um esquema montado no sentido de criar um episódio que, descredibilizando o comportamento dos militares, poderia ditar o seu afastamento e, assim, promover o fim dos aboletamentos sobre os habitantes da freguesia, até porque os protestos não eram inéditos no concelho. Em 1838, na sequência de várias queixas apresentadas pelos habitantes do concelho de Melgaço, o governador civil determinou que não fosse exigida aos habitantes das povoações mais do que cama, água, sal, lenha e luz.

De facto, os povos sentiam-se vexados com este encargo, e disso mesmo davam conta aos administradores dos concelhos, que consideravam que esta era uma obrigação difícil de cumprir, sobretudo na época das sementeiras e colheitas, quando eram mais intensas as tarefas no campo. Para além deste encargo, as populações estavam ainda sujeitas aos abusos e excessos praticados pelos militares. As sucessivas deserções de soldados armados, que ocorriam neste período, em nada contribuíam para a segurança da região e para a dignificação da classe junto da opinião pública.


Informações recolhidas em:

- "ESTEVES, Alexandra Patrícia Lopes (2010) - Entre o crime e a cadeia: violência e marginalidade no Alto Minho (1732 - 1870). Tese de Doutoramento, Universidade do Minho, Instituto de Ciências Sociais.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Histórias da RODA de Melgaço no século XIX (parte I)

As Rodas eram instituições concelhias que ao tempo do século XIX acolhiam crianças que eram lá  deixadas ou abandonadas noutros locais.
As Rodas emergiram como uma resposta do poder central ao problema da falta de instituições de apoio à infância desvalida e abandonada e inscreveram-se nos objectivos duma política populacionista. Estas instituições foram dotadas com um mecanismo giratório (figura) que pretendia assegurar todo o secretismo à exposição de crianças, procurando evitar quaisquer constrangimentos que pudessem levar à perda de muitas crianças, quer pela prática do aborto ou infanticídio, quer pelo seu efectivo abandono ou enjeitamento, em locais que não permitissem recolhê-las a tempo de as salvar. Vou-vos falar de algumas histórias da Roda de Melgaço por altura do século XIX.



A Roda de Melgaço estava, em meados do século XIX, estabelecida na vila, em casa que era propriedade da câmara municipal. Em 1860, todos os 26 expostos (bebés e/ou crianças) que estavam a seu cuidado e encargo estavam a receber bom tratamento, com 4 deles ainda em período de lactação e os restantes em poder de amas de seco.
Após a fundação das Rodas, e não obstante as mesmas terem de permanecer sempre abertas e de serem proibidas quaisquer indagações sobre o condutor ou condutora das crianças (pessoa que vai deixar a criança), aquilo que efectivamente se verificou foi que as exposições se realizavam com a “cumplicidade da noite”, logo após escurecer, geralmente no período que antecedia a meia noite, embora algumas exposições se efectuassem de madrugada, mesmo “ao cantar dos galos”. Era a parte mais oculta de uma estratégia que lhes permitiria evitar os olhares indiscretos de quem gostaria de identificar os condutores ou presumir a origem familiar das crianças que iriam ser entregue à caridade pública.

Pelas descrições realizadas, os escrivães das câmaras informavam que algumas crianças expostas vinham embrulhadas “numa baeta”, “nuns trapos de baeta azul”, “nuns trapos de saragoça”, “num pedaço de serapilheira velha”, “num avental de lã”, “num pedaço de capote de soldado”, “num pano de guarda-sol velho” ou “num pedaço de hábito de terceiro de S. Francisco”.

Muitas crianças entravam directamente na instituição de acolhimento, depois de expostas no mecanismo da roda e recolhidas pelas rodeiras, após terem sido avisadas da sua presença e de fazerem girar a plataforma onde haviam sido depositadas. Nalguns casos, poderiam ser os gritos das crianças expostas a alertarem a rodeira da sua presença, como aconteceu com um menino, António Oroeste, exposto na Roda de Melgaço, em 1865, «sem reclamação ou chamamento da rodeira que atendeu aos choros da criança». Seria uma forma de procurar preservar a identidade dos condutores, a partir dos quais se poderia chegar à família das crianças expostas.

Estes procedimentos revelam que quem expunha as crianças estava preocupado com a sua sorte, até pelo facto da generalidade delas serem deixadas em locais que permitissem a sua descoberta imediata. Nalguns casos, a exposição fazia-se em locais públicos ou privados, na certeza da presença de pessoas que acolhessem essas crianças.

Assim o fez o condutor de um menino que, pelas 10 horas da noite do dia 16 de Janeiro de 1864, o “lançou” no interior da loja de José Maria Soares, da freguesia de S. Paio, do concelho de Melgaço, pondo-se imediatamente em fuga, após o dono da casa se ter apercebido da presença da criança. Um outro condutor, que expôs uma criança à porta de Maria Luisa Pereira, da freguesia de Penso, do mesmo concelho, só abandonou o local depois de ter chamado pela “patroa”, uma designação popular muito vulgarizada, quando se desconhecia o nome da dona da casa.

Estas estratégias não se justificariam quando os condutores eram estranhos ao concelho onde se expunham as crianças. Neste caso, a sua entrega poderia ser realizada pessoalmente, como o fizeram dois homens que, em 1881, ao passarem nos Montes de Fiães, no concelho de Melgaço, encontraram Maria Joaquina Durães, viúva, residente no lugar de Sobreiro, freguesia de Cristóval, que lhe apresentaram uma menina e a obrigaram a recebê-la e a ficar com ela.

Informações recolhidas em:

- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.

Melgaço nas reformas administrativas do século XIX


Divisão administrativa da região do Minho em 1800

Com as reformas administrativas liberais propostas de 1836, o distrito de Viana ficou reduzido aos concelhos de Arcos de Valdevez, Caminha, Coura, Melgaço, Monção, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Valadares, Valença, Viana e Vila Nova de Cerveira, num total de 11 concelhos, sendo extintos todos os restantes. Contudo, as muitas incorrecções administrativas registadas acabaram por ser anuladas parcialmente pelo decreto de 6 de Novembro de 1836, o qual passou a definir aquele que, com pequenas  alterações subsequentes, viria a configurar o actual espaço administrativo do distrito de Viana ainda incorporando os concelhos de Valadares, Castro Laboreiro e Soajo Só a partir do ano de 1855 é que o distrito de Viana passou a ter a actual divisão administrativa integrado por 10 concelhos, salvaguardando uma pequena alteração, registada nos finais do século XIX, com a supressão temporária do concelho de Vila Nova de Cerveira , numa decisão que acabaria por ser reversível. Os seus concelhos estendem-se ao longo dos vales dos seus dois principais rios - o Minho e o Lima por onde estão disseminadas as suas quase três centenas de freguesias.


O distrito administrativo de Vianna no período 1836-1855

Num distrito que actualmente é constituído por 10 concelhos, não deixam de surpreender os 31 concelhos que eram propostos para integrar o distrito de Viana. Além dos concelhos de Fiães e Paderne (não referenciados no quadro proposto e extintos pela lei de 6 de Novembro de 1836), integravam o distrito de Viana os seguintes concelhos: Albergaria de Penela, Arcos de Valdevez, Barca, Bertiandos, Cabaços, Caminha, Capareiros, Correlhã, Castro Laboreiro, Coura, Facha, Feitosa, Geraz do Lima, Gondufe, Lanheses, Lindoso, Melgaço, Monção, Nogueira, Ponte de Lima e Refoios, Queijada e Boalhosa, Rebordões, Sanfins, Soajo, Souto de Rebordões, Valença, Valadares, Viana e Vila Nova de Cerveira.


 Divisão administrativa atual do distrito de Viana do Castelo 


Informações recolhidas em:

- PONTE, Teodoro Afonso (2004) - No limiar da honra e da pobreza - A infância desvalida e abandonada no Alto Minho (1698 - 1924). Tese de doutoramento; Universidade do Minho, Braga.

terça-feira, 24 de julho de 2012

AGOSTO DE 1938 - Memórias de uma Viagem do Peso a Castro Laboreiro pelo Dr Busquets de Aguilar

Castro Laboreiro, meados do século XX


O autor do texto dá-nos uma ideia muito clara do estado das principais vias de circulação do concelho e das condições de vida de Melgaço no ano de 1938, data da realização desta viagem embora só publicada nesta revista em 1946. 













In: Gazeta dos Caminhos de Ferro, Agosto de 1946

A Igreja paroquial de Lamas de Mouro: origens históricas deste antigo mosteiro dos Templários



A igreja paroquial é de um antigo mosteiro de templários da Idade Média, com vestígios românicos que tinha por função ser o baptistério das aldeias circundantes. Os detalhes do românico encontram-se tanto nas portas, especialmente a lateral de norte, como nas próprias paredes, cujas pedras estão pejadas de siglas.
A igreja de Lamas de Mouro não aparece referida no documento existente na Torre do Tombo e que, segundo José Anastácio de Figueiredo, teria servido de ‘lembrança’ para a elaboração das ‘Inquirições’ de 1258 (Costa, 1981: 158). Assim, não consta deste levantamento mandado efectuar por D. Afonso III para determinar a situação da propriedade régia e os dos outros senhores. Continua a ser omitida na relação de 1320 fixando a taxa a pagar pelas igrejas a D. Dinis, pelos benefícios eclesiásticos até então recebidos pelo Cabido de Tui (Idem, ibidem: 163) e que, após a cisão da Igreja, foram concedidos pelo Papa de Avinhão ao nosso rei ‘por tempo de três annos para subsídio da guerra contra os mouros’(Domingues cit. Fortunato de Almeida, 1999: 15).
Segundo uma confirmação de 21 de Abril de 1355 feita pelo pároco ao bispo João de Tui, a igreja de Lamas de Mouro tinha como padroeiros os cavaleiros de S. João do Hospital (Domingues, 1999: 15).
Pelo Censual de Dom Manuel de Sousa (1545-1549), a Igreja de S. João foi avaliada em 10.000 reis (Costa, 1981: 202). No Censual de D. Frei Baltazar Limpo (1551-1581) aparece como pertencendo à ‘Terra de Melgaço’ sendo da colação do Arcebispo. A comarca de Valença obtinha dela um benefício de 3.000 reis (idem, ibidem: 207).
Em 22 de Maio de 1758, o abade Constantino Dias respondeu ao Inquérito afirmando que na freguesia viviam “dezoito vizinhos, carenta e cinco pessoas de sacramento, menores cinco, tem mais treze de sacramento… Os frutos da terra hé centeio, não se recolhe outro fruto senão linho… As terras são poboadas de hurzes, carrameijas, carqueijas, tojo e penhascos, em algumas partes da serra se semea nellas chamados labores, não dá senão (centeio) … Cream-se nesta terra gados grandes, cabras e obelhas, lobos, jabalizes, veados, coelhos, perdizes, codornizes e rollas” (IANTT, 1758: 193-196).
Lamas de Mouro seria, assim, uma comunidade pequena vivendo da agro-pastorícia e alguma caça. Os seus rendimentos eram parcos e deles tinham de retirar 35.000 réis de foro que pagavam aos religiosos de Malta (idem, ibidem). O pároco, era“abbade aprezentado por Bullas Apostólicas de Roma. Tem de renda setenta mil réis” (idem, ibidem).
Com adro e espaço envolvente murado e ajardinado, a igreja insere-se no centro de um conjunto urbanizado rodeado de espaço agrário de montanha.
Igreja derivada de um primitivo templo medieval posteriormente remodelado e reconstruído.
Desenvolve-se longitudinalmente em nave única e cabeceira rectangular tendo adossado, do lado sul, um corpo arquitectónico servindo de sacristia. Coberturas diferenciadas a uma e duas águas.
Paramentos em cantaria autoportante de granito aparente, de aparelho regular e juntas argamassadas.
Na fachada principal, voltada a poente, a porta axial, em arco de volta perfeita, é precedida de dois degraus. Junto ao arranque esquerdo do arco existe um conjunto escultórico constituído por “duas figurinhas atarracadas - uma masculina e outra feminina - que dizem os naturais serem Adão e Eva, mas que a nós pareceram ser restos de modilhões da primitiva igreja. Um pouco acima, há uma ave sob duas volutas jónicas, talvez restos de um capitel” (Alves, 1987: 45). O coroamento da fachada é rematado por cimalha angular com cruz latina no vértice, planificada no encontro com o cunhal coroado por pináculo. Todavia, até 1668, terão existido cápeas sobre o remate angular da frontaria e da cabeceira que serviriam para suster o travejamento do colmaço de revestimento da cobertura, conforme refere um capítulo de visitação de 18 de Agosto daquele ano (Domingues, 1999: 66).
A torre, em dois registos separados por cornija, insere-se à esquerda da frontaria possuindo uma sineira dupla, pois a inferior serve de base a uma outra alojada no bloco granítico de remate da primeira, com acesso por escadaria adossada à parede do lado norte.
Do Românico do exterior da primitiva construção resta a entrada lateral norte, com vão muito estreito em arco quebrado pouco pronunciado, coroado por três arquivoltas ornamentadas e tímpano liso sobre impostas. Na decoração esculpida empregaram-se encordoados, quadrifólios e motivos lanceolados.
Uma outra reminiscência do templo medieval encontra-se nas siglas inscritas em alguns silhares do interior.

Informações recolhidas em:
ALVES, Lourenço - Arquitectura Religiosa do Alto Minho. I - Igrejas e Capelas do séc. XII ao séc. XVII, Viana do Castelo, 1987.

CAPELA, J. Viriato (Coord.) - As Freguesias do Concelho de Melgaço nas «Memórias Paroquiais» de 1758. Alto Minho: Memória, História e Património, Ed. C. M. de Melgaço, Melgaço, 2005 (IANTT - Memórias Paroquiais, mem. 38, vol. 19, p. 193-196).
COSTA, Avelino de Jesus da - A Comarca Eclesiástica de Valença do Minho (Antecedente da Diocese de Viana), in Separata do 1º Colóquio Galaico Minhoto, Associação Cultural Galaico-Minhota, Ponte de Lima, 1981, Vol. 1, p. 69-235.
DOMINGUES, José – O Couto de S. João de Lamas de Mouro: Suplemento Histórico, Ed. C. M. de Melgaço, Melgaço, 1999.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Lamas de Mouro: ontem e hoje

Lamas de Mouro, em plena montanha, ocupa uma área de cerca de 1731 ha, dista cerca de dezoito quilómetros da sede do concelho. Confronta com S. Paio, Roussas e Fiães, a norte, Padrenta (Galiza, Espanha) e Castro Laboreiro, a nascente, Gavieira (Arcos de Valdevez), a sul, e Cubalhão e Parada do Monte, a poente.


É composta pelos seguintes lugares prin­cipais: Lugar de Cima, Touça, Igreja, Alcobaça, Gavião e Porto Ribeiro.
De acordo com o Pe. Aníbal Rodrigues, toma o nome da qualidade do seu solo — lamas, pastagens de gado cheias de água — e do rio Mouro, que nasce no seu território.
Foi terra com povoamento muito remoto, possuindo alguns vestígios da cultura dolménica e castreja (de origem céltica).

A antiga freguesia de S. João Baptista de Lamas de Mouro era abadia da apresentação do ordinário, no antigo termo ou julgado de Valadares.
Em 1839 aparece inscrita na comarca de Monção. No ano de 1878 consta já na de Melgaço.
A igreja paroquial é de um antigo mosteiro de templários que aqui houve. Após a supressão desta ordem, em 1344, o cenóbio reverteu à Coroa, que o deu à Ordem de Malta, em 1349.
A população de Lamas de Mouro pagava aos cavaleiros muitos foros, mas tinha os grandes privilégios próprios dos caseiros de Malta. Era na realidade uma povoação estratégica na segunda linha da fronteira, defendida lá no alto pelo Castelo de Castro Laboreiro. Daí até a memória toponímica de Lamas de Mouro.
Depois passou a ser abadia do Papa e ordinário. O Papa e o arcebispo de Braga apresentavam alternativamente o abade, que tinha setenta mil réis de renda anual.
O templo actual, de características românicas (tanto nas portas, especialmente a lateral de norte, como nas próprias paredes, cujas pedras estão pejadas de siglas), foi restaurado há pouco tempo.

 Igreja Paroquial de Lamas de Mouro

A capela-mor, a sacristia e a torre sineira são do século XIII. Possui algumas interessantes imagens, do século XV ao século XVII.

Nesta freguesia teve lugar, no ano de 812, no sítio chamado Vale de Mouro, junto ao rio Ornese, uma grande batalha em que pelejou o bravo Bernardo del Carpio (parente e vassalo de D. Afonso Henriques) contra Ali-Aton, rei de Córdova, que caiu derrotado. Escreveram alguns, por certo crendeiros, que os mouros perderam então 70 000 homens!
Observando-se Lamas de Mouro no início deste 3º milénio pode-se dizer que há distribuição de água a todas as residências e que outras necessidades básicas estão asseguradas face, também, à proximidade com a vila de Castro Laboreiro, freguesia sua vizinha, que supre as possíveis emergências dos habitantes de Lamas de Mouro. Uma das carências que poderão um dia, que se espera não esteja distante, vir a serem colmatadas é a falta de saneamento básico. Relativamente à cultura, lazer e desporto e começando pelo último, Lamas de Mouro tem uma piscina natural magnífica no Parque da Peneda Gerês. Funciona na freguesia uma pequena biblioteca, um pequeno e muito agradável Museu e uma sala polivalente para espectáculos e outros programas culturais. Não é certamente no aspecto da cultura e lazer que a população mais se queixa. Para os visitantes há casas muito bem apetrechadas para o turismo em espaço rural e de habitação. Há também toda uma gama de passeios, caminhadas e trilhos para o contacto com a natureza e que vão até ao Santuário da Peneda. Alguns destes trilhos recomendados, partem da ponte romana de Porto Ribeiro onde ainda se pode visitar um moinho recuperado, ou se pode seguir a calçada até junto a um relógio de sol do século passado e seguir até onde estão os canastros, observando as alminhas dos caminhos, os fornos comunitários, as colmeias características, o santinho de Alcobaça, mais outras duas alminhas no Carvalho e Vale Donaia, etc., etc.
A Igreja Paroquial como se já referiu foi antigo Mosteiro dos Templários, e merece ser visitada, actualmente, ainda mantém as características românicas nas portas, especialmente a lateral norte e nas paredes repletas de siglas de pedreiros. Outras das visitas imperdíveis são as margens paradisíacas do rio Mouro com os seus estratégicos moinhos onde durante séculos se preparava o pão, e os fornos comunitários, As vistas panorâmicas que se observam de muitos locais da freguesia são de jamais se poderem esquecer. Nesse aspecto é de salientar que, em alguns dias de inverno, fazem-se romarias de pessoas a aproveitarem o facto de nesta região se poder admirar a neve que, transforma em mantos alvos de esplendorosa beleza as paisagens envolventes.

Informações recolhidas em:
- http://www.cm-melgaco.pt/portal/page/melgaco/portal_municipal/municipio/municipio_freguesias/LamasdeMouro