sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A paróquia de S. Martinho de Cristoval (Melgaço) em meados do século XVIII



S. Martinho de Cristóval é uma paróquia muito antiga do concelho de Melgaço. Na lista das igrejas situadas no território de Entre Lima e Minho, elaborada por ocasião das inquirições de D. Afonso III, em 1258, São Martinho de Cristóval é citada como uma das igrejas subordinadas ao bispado de Tui. 
Em 1444, o rei D. João I conseguiu do Papa que este território fosse desmembrado do bispado de Tui, passando a pertencer ao bispado de Ceuta, onde se manteve até 1512. Neste ano, o arcebispo de Braga, D. Diogo de Sousa, deu a D. Henrique, bispo de Ceuta, a comarca eclesiástica de Olivença, recebendo em troca a de Valença do Minho. Em 1513, o Papa Leão X aprovou a permuta.
No registo da avaliação dos benefícios da comarca eclesiástica de Valença do Minho, feito em 1546, São Martinho de Cristóval situava-se na Terra da vila de Melgaço. 
Na cópia de 1580 do Censual de D. Frei Baltasar Limpo sobre a situação canónica destes benefícios, São Martinho de Cristóval figura na Terra de Melgaço, como sendo da colação do arcebispo. 
Para conhecermos esta paróquia, em meados do século XVIII, podemos recorrer às memórias paroquiais de 1758 que nos dão bastantes pistas para compreendermos a realidade da terra.  Segundo o Pároco da época, o Abade Duarte Cerqueira Araújo,  a paróquia de S. Martinho de Cristóval, fica situada “nos confins da província do Minho,  Reino de Portugal (…) partindo com a Galiza por duas partes como se por todo o andar do Nascente para o Norte e do Norte para o Poente (…), deste “Arcebispado de Braga”.
O abade diz-nos que em Cristóval havia, em 1758, cento e oitenta fogos, ou seja, casas de família, sendo que é referido pelo pároco que 583 fregueses são “mayores de ambos os sacramentos”, enquanto que os “menores são quarenta e sete”.  A expressão “mayores de ambos os sacramentos” refere-se à idade em que as crianças praticam pela primeira vez a confissão e recebem a primeira comunhão que nesta época seria, por norma, aos 7 anos.
O pároco indica-nos o número de fogos por lugar nesta paróquia. Apesar da sua escrita algo maçuda, escreve com bastante pormenor em termos da quantidade de informações que nos deixou. Assim, na época, a paróquia era composta pelos seguintes lugares de “Cebide, de três moradores, um deles principal a que pertence a sua antiga capela que tem no mesmo lugar que é de Santo António, e dali seguindo as vertentes desta freguesia para o dito regato tem mais o lugar de  Sam Gregório com uma capela antiga do mesmo santo e com vinte vizinhos (fogos), por onde é a estrada deste Reino de Portugal para a Galiza passando-se o regato por uma ponte de táboa que chamam a Ponte das Varges. Tem depois o lugar do Cotto com cinco vizinhos e depois o lugar da Calçada com três, depois o lugar da Aldeia de Soutello com quatro, depois o lugar da Aldeia do Soutto com quatro, depois o lugar de Ramo com sete vizinhos, depois o lugar da Soalheira com três, depois o lugar de Subcastello, com cinco, depois o lugar de Doma com dez moradores ou vizinhos, depois o lugar de Carvão com seis, depois o lugar da Igreja, junto à residência do Pároco, mas logo perto e quasi junto o lugar da Porta com doze vizinhos, depois o lugar de Regueiro com dois, depois o  lugar da Mouriga com seis, depois o lugar do Ranhado com seis, depois o lugar do Sobreiro com doze, depois o lugar de Carreira com dois, depois o lugar da Marga com dez vizinhos, depois a Fonte de Cabo com dois, depois o lugar de Pouzada com seis, depois Campo do Soutto com sette, depois o lugar do Pico com sette vizinhos, depois abaixo na Sobreira um morador e outro na Esquipa mais adiante e depois o lugar dos Cazais já junto do Minho, outra ametade que são nove moradores desta freguesia de Cristóval em cujo direito há um barco no rio Minho para a Galiza. Depois deste lugar dos Cazais vai esta freguesia de Cristóval por junto do Minho até ao primeiro lugar que fica advertido que chamam Cevide.”
O pároco refere-se igualmente às caraterísticas da igreja e acrescenta que a “igreja desta freguesia tem por orago S. Martinho, Bispo de Turão (Tours) e além do altar principal da Capela Mor em que está o Sancto do Evangelho e da outra parte o Santo Antão com o Sacrário do Santíssimo; no meio tem somente mais dois altares no corpo da igreja encostados à parede de arco cruzeiro dela. Os altares são o da parte do Evangelho é de Nossa Senhora da Apresentação e o da outra parte de S. Sebastião, e não tem naves a igreja por pequena nem tem irmandades mais do que a Confraria das Almas.”
Como praticamente todo o país, também S. Martinho de Cristóval vivia sobretudo da agricultura em meados do século XVIII. O abade refere que “o principal fruto desta frequesia é o milhão e tem já bastante vinho mas inferior de latada e algumas vinhas. Também tem bastante castanha, centeio e trigo mas pouco. Tem linho bastante, algum miúdo e painço muito pouco; tem duas ortas de ortaliça e alguma fruta.”
Apesar de pouco caudaloso, o rio Trancoso é importante para as gentes de Cristóval, tanto para a rega como para a moagem. Assim, o pároco deixa algumas referências nesse sentido: “Pelo andar do Nascente para o Norte entre esta freguesia e o o Reino da Galiza corre o regato ou pequeno rio chamado Troncoso que é muito precipitado com vários moinhos de pão  uns abaixo dos outros e uns da parte desta freguesia e outros da parte do Reino da Galiza, e tanto para a Galiza como para esta freguesia se tiram deste levadas para regar as terras, que são três as desta freguesias, uma mais acima, outra mais abaixo e outra ainda mais abaixo. Deverão ser muito poucas as suas ágoas que apenas chegam para moer um moinho em cada açude, em que ordinariamente costuma haver dois para poderem moer de Inverno.”

O abade de Cristóval deixou-nos igualmente menção às espécies de peixe que na época povoavam as águas do rio Minho e se apanhavam nestes sítios. Assim, é mencionado que a paróquia tem “muitas pesqueiras de caçar peixes que no direito desta freguesia (…) e o peixe que se costuma dar que é ordinariamente em Abril, Maio e Junho e mais ou menos conforme os anos são salmões, lampreias, sáveis, também por todo o tempo dá algum peixe miúdo como são trutas, mariscos, vogas e escalos e algumas enguias. As pescarias são livres pelo rio enquanto as pesqueiras são de herdeiros.”

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Soldados do MFA em Castro Laboreiro (1975)



Trata-se da uma reportagem do jornalista Carlos Soares, sobre a realização da campanha de dinamização cultural e esclarecimento do Movimento das Forças Armadas (MFA), às populações de  Castro Laboreiro e Arcos de Valdevez, no Alto Minho (1975).
A partir do minutos 17 e 30 segundos, veja o que falam os castrejos acerca da revolução de Abril e quais são as queixas que fazem em relação ao seu isolamento e esquecimento. Nota-se que eram tempos de esperança para as populações.
Talvez alguns de vós se lembrem ou reconheçam os intervenientes na reportagem...

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A paróquia de S. Paio de Melgaço: algumas notas históricas e património religioso edificado



A igreja e paróquia de S. Paio é uma das mais antigas do concelho de Melgaço. Existem referências a um antiquíssimo mosteiro que aparece documentado até ao século XII e designado como  de “S. Pelagii de Paterni”, ainda que existam algumas dúvidas acerca da sua existência, segundo alguns autores. A paróquia, nos séculos seguintes, conserva-se com a denominação de “S. Payo de Paderne” até ao século XIX, embora apareça desde o século XVIII, por vezes, como “S. Paio de Melgaço” e as duas designações coexistam durante algum tempo. Apenas, a partir de 1936 é que oficialmente passa a ter a atual designação de “S. Paio”.
A igreja paroquial é dedicada ao mártir S. Paio, também conhecido como Pelayo de Córdova, sobrinho do Bispo de Tui, tomado como refém por um rei mouro, e degolado no ano de 825, em Córdova. A dita igreja paroquial situa-se no lugar, atualmente designado, de Cruzeiro. Contudo, nas Memórias Paroquiais de 1758, o Reverendo Domingos Gomes, pároco à época, refere que entre os lugares que compõem a freguesia se encontra S. Payo em cujo lugar está situada a igreja com seis vizinhos”. A designação de “vizinhos” neste contexto não se refere ao número de residentes no lugar mas antes ao número de fogos (casas de habitação).
É curioso o nome do lugar se chamar de Cruzeiro, derivado da presença de um cruzeiro que apresenta a data de construção esculpida na pedra, vários séculos mais recente do que a igreja paroquial. Desconhecemos como se chamaria o lugar antes da edificação do dito cruzeiro. Este é uma construção quinhentista, mais concretamente de 1557. Edificado em granito, é composto por base de três degraus rectangulares sobre a qual assenta o plinto superiormente facetado apresentando-se com a inscrição “MDLVII” (1557) numa das faces. O fuste, inicialmente de secção quadrada, passa depois a ser hexagonal até ao capitel decorado com ornatos vegetalistas. Possui cruz com braços em toros e ostentando a imagem de Cristo.
Nas Memórias Paroquiais de 1758, o pároco dá-nos a lista de lugares que na época existiam nesta paróquia designada de “S. Paio de Melgaço”. Assim, a generalidade dos lugares que conhecemos na atualidade já existiam na época. Apenas, salientar que o atual lugar do Granjão é citado como dois, e não um lugar, com as designações de “Granjão de Cima e Granjão de Baixo”. No total, a paróquia, contava, à época, segundo o pároco, com “vizinhos (fogos) duzentos e quarenta e nove e número de pessoas, setecentas e treze”.
A freguesia vivia essencialmente da agricultura. O pároco escreve que em S. Paio de Melgaço se colhiam “frutos, milhão, centeio, trigo e milho alvo em abundância” bem como “vinho em abundância”.
Em 1758, segundo o abade Domingos Gomes, a igreja de S. Paio, tinha três naves, uma com três arcos, e cinco altares: o do orago S. Paio, onde estava o Santíssimo Sacramento; o da Senhora do Rosário; o da Senhora do Carmo; o do Santo Cristo e o das Almas.
De há pouco mais de um século, mais concretamente de 1913, encontrámos um documento referente ao “Arrolamento de Bens Culturais das Freguesias de Melgaço”, onde encontrámos uma pequena descrição da igreja onde podemos ler que a “igreja paroquial se compõe de seis altares com catorze imagens, coro, um púlpito, com dois sinos, adro que também serve de consistório…”
Como sabemos, a igreja que chegou até aos nossos dias pouco tem a ver com aquela que existiu até por volta de 1930. Nessa altura, o então pároco Raimundo Prieto mandou reformar a igreja tendo sido muito criticado na época. Nas “Obras Completas do Dr. Augusto César Esteves”, pode ler-se: Desta forma fica aliviada a responsabilidade do encomendado Raimundo Prieto assumida quando em 1930 resolveu alargar e de facto alargou a igreja, retirando-lhe os tais arcos.”
As capelas que atualmente existem na paróquia, à exceção da do lugar do Regueiro já existiam pelo menos há cerca de 300 anos. Em meados do século XVIII, existem referências à presença de quatro capelas nesta freguesia: a de Santo André, a de Nossa Senhora do Amparo, a de Nossa Senhora do Bom Despacho e a de S. Paio, no lugar de Cavaleiro Alvo. Em relação a esta última, no livro “Chorographia moderna do reino de Portugal” de 1751, o autor refere que já nessa época existia no dito lugar “uma ermida com a invocação de S. Payo”. Sabemos que em 1758, a administração desta capela pertencia ao povo desse lugar. Em 1913, esta capela é referida em documento como tendo “um adro, um altar, com uma imagem”.
Além desta ermida, havia nesta freguesia de S. Paio, em meados do século XVIII, a capela de Nossa Senhora do Bom Despacho, no lugar de Barata. A mesma era administrada por um tal Manuel Fernandes, da freguesia de Rouças. Sabe-se que em 1913, já existia no lugar de Barata uma capela de invocação a S. Bento. Não sabemos se se trata da mesma capela antes citada da Nossa Senhora do Bom Despacho. A atual capela é de traça arquitetónica simples e no inventário de bens culturais da freguesia de 1913, a capela é descrita como tendo “adro, uma sineta, um altar com três imagens”.
Em meados do século XVIII, já existia na freguesia de S. Paio, como se disse antes, uma capela dedicada a Santo André. O Padre Domingos Gomes, em 1758 situa a dita capela no lugar do Pinheiro. Desconheço se se trata do mesmo lugar a que hoje chamamos “Santo André”. A mesma capela era administrada pelo abade da paróquia, à época, o Reverendo Domingos Gomes. Sabemos que em 1913, esta capela tinha “uma sineta, um altar, cinco imagens e adro com uma árvore”.
Falta fazer referência à capela de Nossa Senhora do Amparo, no lugar do Barral. A mesma já existia em meados do século XVIII, sendo referida nas Memórias Paroquiais de 1758. Na época era administrada por Manuel Gonçalves, morador no lugar do Barral, juntamente com o Doutor Miguel Gomes de Abreu, da freguesia de Paderne, Diogo Álvares, residente no lugar do Granjão e Domingos Álvares, morador no Barral.
Esta capela é referida em 1913 e é descrita como possuindo “um adro, uma sineta, um altar com três imagens, um terço, um véu de ombros, um palio com as respetivas varas, cinco casulas de diferentes cores, vinte e duas toalhas de linho, uma estola, uma custódia de metal dourada, dois missais usados, uma cruz de prata e varas do mesmo metal, uma coroa de prata da Senhora do Rosário, uma opa de seda, seis opas usadas, três pendões e uma bandeira e vinte e sete peças de cortinados”.
Não termino este pequeno artigo acerca do património religioso da freguesia de S. Paio sem me referir à capela e cruzeiro da Nossa Senhora dos Aflitos no lugar do Regueiro. Trata-se de uma capela particular construída por Manuel José Gomes, conhecido no concelho de Melgaço como o “Mestre do Regueiro” por ser natural e morador no dito lugar da freguesia de S. Paio.
A sua construção remonta a 1866. O cruzeiro, ao qual me referirei mais abaixo, em frente à capela também é atribuída ao mesmo "artista" embora a sua edificação tenha sido concluída em 1859.
Envolvida por espaço agrário e à margem de caminho rural antigo, com um pequeno espaço fronteiro lajedo em granito e cruzeiro, a Capela do Senhor dos Aflitos é um pequeno templo com nave única de planta rectangular e cobertura com telhado de duas águas.
Os paramentos em alvenaria autoportante de granito apresentam indícios de terem sido rebocados a branco.
Na fachada frontal abre-se porta de verga encurvada encimada por cartela. O remate da fachada é por cimalha angular tendo ao centro um campanário (vazio) e nos extremos laterais urnas que coroam os cunhais.
Atribuído também a Manuel José Gomes, o cruzeiro acima referido, encontra-se no adro da Capela do Senhor dos Aflitos. Foi construído em granito e constituído por uma base rectangular de três degraus na qual assenta um plinto paralelipipédico que sustém a coluna de secção circular, com o terço inferior do fuste canelado sendo a parte restante lisa. Sobre este apresenta-se um capitel compósito onde se insere a cruz de braços cilíndricos estriados. Diversas esculturas ornamentam o cruzeiro: sobre o capitel dois querubins suportam coroa encimada por ave; na parte superior do fuste e logo abaixo do capitel encontra-se uma imagem da Virgem vestida de manto e uma pequena estatueta sobre mísula. Todo este trabalho escultórico é de qualidade pela minúcia e perfeição dos lavrados.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

O mistério da existência do Mosteiro de S. Paio de Paderne


Um dos grandes mistérios para os historiadores interessados pela História melgacense é a existência do antiquíssimo Mosteiro de S. Paio, que, a ter existido, seria mais antigo do que o de Paderne e bem anterior à própria independência de Portugal. Contudo, as raras referências documentais e outras provas históricas colocam algumas reticências.
No livro "Corografia  portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal", de 1706, da autoria do Padre Carvalho da Costa, é defendido que terá existido um mosteiro em S. Paio e que ainda estaria ativo ainda no século XI. No mesmo livro, pode ler-se que "S. Payo é o mesmo que Sandoval chama Mosteiro de S. Payo de Paderne, haveria-o sido antes dos Mouros, e a Infanta Dona Urraca, filha del Rey Dom Fernando, o Magno, dotou a metade de seu Padroado à Sé de Tuy, e a seu Bispo Dom Jorge no anno de 1071 com o lugar de Prado, que ainda então não devia ser Parochia, e outros bens e vassalos. Em 13 de Abril da era de 1156 que vem a ser  o anno 1118, deu à mesma Sé, e ao Bispo Dom Afonso a quarta parte da mesma igreja Onega Fernandes, parece que sendo viúva e com filhos Payo Dias e Argenta Dias, que confirmaram esta doação, a qual tomou o hábito de Monja, entendemos que em Paderne, e nesta mesma deu também o que lhe tocava e na de S. Martinho de Valladares. Ultimamente, a Rainha Dona Theresa, e seu filho El Rey Dom Affonso Henriques da era de 1163 que é o anno de 1125 deram ao mesmo Bispo esta igreja e dizem na doação, que lha dão inteira. Mas a meu ver seria o quarto que nela tinham com que lhe vinha a ficar in folidum."
Há umas décadas atrás, um dos grandes defensores da existência do mosteiro de S. Paio era o saudoso Padre Bernardo Pintor, grande investigador da História da nossa região. Numa das suas obras, pode ler-se que "Pode haver quem julgue ser o Mosteiro de S. Salvador de Paderne o mesmo que o antigo S. Paio de Paderne, tendo havido transferência do mosteiro ou mudança do titular, mas tal não sucedeu. Eram dois mosteiros completamente distintos na mesma terra de Paderne, que coexistiram e a cujos territórios correspondem duas freguesias completamente independentes uma da outra através de todos os tempos.
Do mosteiro de S. Paio, que deve ser mais antigo, poucas notícias nos restam. Vimos que a infanta D. Urraca deu metade à Sé de Tui em 1071. Em 1118 D. Onega Fernandes fez à Sé de Tui «kartam donationis de quarta parte ecclesie Sancti Pelagii de Paterne», em reparação pelo sacrilégio do seu filho Paio Dias que não respeitou o lugar sagrado matando um homem na igreja de S. Tiago de Penso. Em 1125 D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, confirmou à Sé de Tui a antiga doação ou testamentum Regis Teodomiri em que se inclui «Ecclesiam Sancti Pelagii de Paterni», cedendo-lhe, naturalmente, a quarta parte restante.
Nestas duas escrituras chama-se a S. Paio Igreja em vez de Mosteiro, mas os entendidos sabem que estas denominações se equivalem muitas vezes.
Temos ainda notícias do mosteiro de S. Paio no ano de 1156. A diocese de Tui abrangia em Portugal o entre Minho e Lima. No sobredito ano o bispo D. Isidoro e os cónegos da sua Sé fizeram entre si partilha dos rendimentos eclesiásticos, e na meação dos cónegos ficou «Ultra Mineum in Valadares Monasterium S. Pelagii de Paterni cum omnibus Ecclesiis & pertinentiis suis».
Até quando S. Paio de Paderne foi mosteiro, não sei. É preciso conhecer-se bem a engrenagem antiga dos mosteiros para se saber quanto a sua vida dependia dos caprichos de seus herdeiros e de quantos deles se amparavam.
Perdura ainda a freguesia de S. Paio que oficialmente não tem outro nome. Muitos lhe chamam de Melgaço, em contraposição a Santa Maria da Porta da Vila de Melgaço, sendo assim nomeada também em documentos, mas o povo das redondezas ainda lhe chama S. Paio de Paderne. A sua igreja, distante da igreja da vila quase três quilómetros, dista menos de um da do Salvador de Paderne.
Convém lembrar que, embora as divisões civis e eclesiásticas se tenham acompanhado, nem sempre se têm correspondido.
Paderne estava na Terra de Valadares, concelho extinto há uns cem anos, que no eclesiástico fora um arcediago com assento na Sé de Tui. Dentro do julgado de Valadares, obedecendo a razões históricas que seria longo expor, formou-se o concelho de Melgaço com fortaleza construída, se não restaurada, por D. Afonso Henriques e foral outorgado pelo mesmo Rei. O perímetro atribuído a Melgaço, que não está demarcado no documento, mas deve ter seus fundamentos na étnica e tradição, abrangeu o território de S. Paio de Paderne e ainda do território de S. Salvador de Paderne o que estava fora dos limites consignados na carta de couto outorgada à abadessa D. Elvira em 1141. De S. Paio de Paderne desmembraram-se duas pequenas freguesias: uma é do Prado cujo germe nos aparece já na doação de D. Urraca em 1071, e a outra é Remoães. A igreja de S. Paio, que só vi uma vez em estudante e cuja traça ao tempo não fixei, era sui generis. Tinha duas naves, uma das quais mais alta e mais larga, separadas por arcarias longitudinais cada uma com seu altar-mor e sua parte principal de estilo românico com arquivoltas. Dizia-se no povo que a nave menor era a antiga paroquial de Prado.

Por acanhada e insuficiente para a vida da paróquia, foi reconstruída pelo falecido Padre Raimundo Prieto, seu último Abade colado já adentro da República, que inconscientemente praticou um crime de lesa-arte, mas teve o bom gosto de conservar um dos pórticos da frente e o melhor de seus altares de estilo renascença."



Fontes consultadas:

- COSTA, António Carvalho da, (1706) - Corografia  portugueza e descripçam topografica do famoso Reyno de Portugal, Lisboa; Officina de Valentim da Costa Deslandes, impressor de Sua Magestade, vol. I.
- PINTOR, Pe. Manuel António Bernardo (2005) - Obra Histórica. Edição do Rotary Club de Monção.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A extração e comercialização do volfrâmio em Castro Laboreiro: da Primeira à Segunda Guerra Mundial

ap

Em 2016 foi publicado um estudo dedicado ao tema “Memórias de Fronteira em Melgaço: Contrabando e Emigração - Patrimonialização, Musealização e Fruição Turística”, onde a autora, Lídia Aguiar, onde destaca a exploração e comercialização do volfrâmio, especialmente em Castro Laboreiro, Melgaço, ao longo do século XX:
"Em Melgaço, como em tantos outros concelhos do norte e centro do país, a exploração do volfrâmio veio proporcionar um novo alento para as economias locais. Para as populações, a exploração deste minério constituiu uma segunda fonte de rendimento (a primeira era o contrabando), abrindo, mesmo que momentaneamente, expectativas de melhores condições de vida.
Em Castro Laboreiro a exploração do volfrâmio teve uma maior dimensão, do que em outros lugares. Terá começado já durante o período da I Guerra Mundial, tendo tido um grande pico durante a II Guerra. Neste caso, foi levada a cabo predominantemente por populares, que acorriam ao Planalto de Castro Laboreiro, no lugar de Seara, onde foram abrindo várias galerias.
Os populares vendiam-no no contrabando, maioritariamente já em Espanha. Verificou-se, no entanto, que durante o período da II Guerra, foram os Alemães os grandes compradores. Eles aguardavam os homens no sopé do planalto com os seus camiões prontos para carregar o minério. Cada homem alcançava um rendimento médio de 8 contos por dia. Este montante subiria bastante mais se ele tivesse a sorte de encontrar um bom filão.
Segundo o informante Filipe Esteves, morador em Castro Laboreiro, as mulheres tiveram nesta época um papel primordial. Dirigiam-se em grupos para as zonas mineiras, onde apanhavam as pedras que caiam das grandes cargas, ou algumas que elas próprias conseguiam apanhar, por se encontrarem mais à superfície. Dirigiam-se, então, para uma levada, onde lavavam e peneiravam o volfrâmio. Este mineral, preparado pelas mulheres, era vendido exclusivamente a um dos mais conhecidos contrabandistas da zona: o Mareco, ligado a um dos grandes consórcios.
No ano de 1955, estas minas acabam por ser registadas pela Companhia Mineira de Castro Laboreiro, com sede no Porto. O manifesto mineiro foi de João Cândido Calheiros, morador na freguesia de Prado, encontrando-se, este registo, no Arquivo Municipal de Melgaço, no Livro de Registos (Volfrâmio).
Lembro-me bem do tempo do minério. Vieram para cá muitos homens, de muitos lados, apanhar aquelas pedras. Eram assim umas pedras muito negras, tão lindas que elas eram. Eles ficavam cá a dormir. Ganharam muito dinheiro naquele tempo. E as mulheres daqui também para lá iam, coitadinhas. Era contudo, um trabalho muito pesado, pois apanhavam as mais pequenitas e iam lavá-las ao regato. Deram-lhes um dinheirinho, ai isso eu sei bem que deu.” Rosalina Fernandes – Castro Laboreiro – 29-10-2013
Com a Companhia Mineira de Castro Laboreiro a dominar a larga maioria das minas, a população, em geral, perdeu os lucros avultados que até então conseguira.
Este fenómeno pode-se constatar em muitas outras zonas mineiras, ligadas ao volfrâmio, do norte e centro do país. Findo o negócio do volfrâmio, a população habituada a ter uma vida melhor, não mais a encontra no contrabando.

Continuava a ser uma atividade plena de riscos e da qual não era possível obter um rendimento certo. Ao trabalho duro, o melgacense não tinha medo. Com a fronteira mesmo ao lado, com horizontes mais alargados, o convite à emigração era forte. Encontrou-se, deste modo, a grande alavanca para a mobilidade social."


Extraído de:

- AGUIAR, Lídia (2016) - Memória do Contrabando e Emigração Clandestina em Melgaço: Patrimonialização E Musealização. In: Percursos & Ideias, Revista Científica do ISCTE, Cadernos de Turismo - Nº 7 - 2ª Série 2016.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Castro Laboreiro: esconderijo de galegos e asturianos


Com o golpe militar de 1936 em Espanha, vários pontos da raia foram rapidamente controlados por tropas militares e polícias da PVDE (precursora da PIDE) e da Guarda Fiscal, para precaver a possível fuga de galegos para Portugal. A vigilância da fronteira desde o levantamento militar em Espanha foi um assunto estratégico para os portugueses que não viram com bons olhos a entrada ilegal de refugiados no seu território sobretudo se eram comunistas. O número de militantes das organizações de esquerda galegas que entrou em Portugal foi muito significativo entre Agosto e Dezembro de 1936, data em que a fronteira terrestre entre Espanha e Portugal passou a estar controlada definitivamente pelos militares golpistas.
Em finais de Julho de 1936, quando o território galego passou para as mãos dos insurretos, os portugueses distribuíram as suas tropas pelos postos fronteiriços como reforço da permanente e ativa vigilância dos primeiros dias. A partir de então, para entrar legalmente em Portugal era necessário estar provido duma carta do cônsul do respetivo país que garantisse, quer não ser portador de ideias extremistas como também não ter antecedentes penais. Os requisitos legais eram maiores caso os refugiados fossem provenientes de áreas republicanas em Espanha, já que então havia que acrescentar nomes de pessoas idóneas que os avalizassem, consequência do fervor anticomunista que dominava Portugal. Lembramos que 1936 foi o ano da criação de várias organizações de enquadramento de mulheres e jovens, mas sobretudo foi o ano de inauguração da prisão do Tarrafal, construída na parte norte da ilha de S. Tiago de Cabo Verde.
Logo nos primeiro dias do conflito bélico, ocorrem as primeiras aparições de galegos em território português. Predominavam os indocumentados, mas sobretudo pessoas conotadas com a esquerda. Das 22 passagens legais entre Galiza e Portugal, os galegos que fogem de Franco e da repressão utilizam de forma oficial os postos fronteiriços de Caminha, Vila Nova de Cerveira, Valença, Monção, Peso (Melgaço), e S. Gregório, todas ao longo do rio Minho; Vila Verde de Raia, na estrada de Chaves-Orense e às vezes também nos postos de Portela e Quintanhilha, na região de Bragança. Não era fácil controlar o trânsito ilegal  de refugiados neste longo território fronteiriço entre os dois países. De facto, a polícia política portuguesa estava seriamente preocupada pela passagem clandestina de muitos galegos a Portugal, especialmente na raia seca, pelo que em várias ocasiões a Direção da PVDE solicitou ao Ministério do Interior que se realizassem batidas nas zonas montanhosas fronteiriças de Portugal, onde permaneciam escondidos bastantes refugiados galegos.
Em finais do mês de Setembro de 1936, já havia quase 400 presos espanhóis registados em Portugal, a maioria repartidos entre o velho forte militar, o Reduto Norte do Forte de Caxias, e a prisão debaixo do controlo da PVDE em Bragança, um dos espaços geográficos do norte de Portugal com maior presença de refugiados galegos. Entre esses refugiados detidos estavam muitos dos que cruzavam a raia nos primeiros dias depois do golpe militar. Manuel Pérez Rodriguez era um deles. Quando rebentou a guerra, tinha vinte e três anos, todos passados na sua aldeia raiana de San Lourenço da Illa, no concelho de Entrimo. O dia seguinte ao golpe fugiu para Portugal, junto com outros quinze habitantes dos concelhos raianos da Baixa Límia. Saíram da sua aldeia, da Illa, calcurrearam a serra granítica do Quinxo, junto a Olelas, e baixaram o imponente desnível até ao rio Laboreiro para atravessar a raia e procurar a salvação ao terror que suspeitaram que ia acontecer na Galiza.
Os dias seguintes, outros galegos fizeram o mesmo que esses outros 16. Entre esses galegos que fugiam a Franco e da repressão, predominavam civis de filiação republicana ou esquerdista, mas também havia alguns militares, carabineiros e guardas civis, e a partir de 1937, reservistas galegos que  rejeitavam mobilizar-se para o serviço militar ou para ir para as frentes de guerra.
Desconhecem-se com exatidão o número de galegos que escolheram Portugal para fugir de Franco e da repressão. Só no primeiro semestre da guerra civil, o número de refugiados espanhóis na freguesia de Castro Laboreiro, no concelho de Melgaço, ainda que não fosse estável, era, segundo testemunhos orais, uma cifra que se situava entre quatrocentas e oitocentas refugiados. Aqui chegavam muitos galegos depois do início da guerra civil e posteriormente vários grupos de asturianos escapados da caída da frente norte, onde participavam como clientes ou como ativistas na rede de obtenção de documentos que funcionava ao longo da fronteira.
Outros refugiados atravessaram a raia com documentação falsa, na que utilizavam identidades de familiares falecidos de origem brasileira ou argentina, em que os lugares de residência substituídos por hospedarias ou por casas de portuguesas que os acolhiam, como a Quinta do Hospital da freguesia de Ceivães, o Hotel Internacional de Monção, a Pensão Internacional de Monção, a Casa do Emigrante de Ponte de Lima, e outros tantos. Estes falsificadores provam que havia uma considerável rede de contactos em território português para aqueles galegos que queriam aquela documentação para circularem pelo país. A identidade como cidadão americano garantia um melhor trânsito por Portugal sem temer serem detidos e sem esperarem demasiado o embarque para a América do Sul. Essa rede completava-se com contactos nas agências de emigração e mesmos em certos consulados de Portugal. O ministério espanhol de Asuntos Exteriores queixou-se em mais de um ocasião pela atitude dos seus cônsules que autorizavam o trânsito de espanhóis em Portugal sem esperar a confirmação oficial dos governadores civis. Em todo o caso, estamos a falar de passaportes falsificados e de documentação obtida de forma ilícita, que deviam ter um custo final elevado. Em vários países europeus, os passaportes portugueses chegavam a valer 70 000 francos, 2000 liras ou 3000 marcos durante os anos 30 quando os judeus em fuga de Hitler pretendiam vir para Portugal.
Contudo, não devia ser fácil arranjar documentação para circular por Portugal. Na branda da Seara, na freguesia de Castro Laboreiro, esconderam-se vários refugiados galegos, camuflados nas fragas próximas, mas protegidos por alguns dos castrejos daquelas serras agrestes, reincidentes em acolher refugiados galegos. Entre estes, ocultava-se uma família inteira de galegos à espera dessa desejada documentação: Eudosia Lorenzo Diz, antiga professora em Lobeira, o seu filho pequeno  e seus pais e os seus pais, Agustin Lorenzo Puga, “O Masidário”, e Basilia Diz González, que para não levantar suspeitas não vestiam o trje típico dos castrejos, como se integravam nas suas habituais migrações anuais entre as brandas e as inverneiras. A polícia portuguesa, que teve na sua mesa durante bastantes meses uma ordem de busca e captura dos “Masidários”, recebeu continuamente informações contraditórias da sua presença em diversas brandas e inverneiras da freguesia, mesmo nos lugares fixos dos Ribeiros, de Cima e de Baixo, por onde era cada vez mais frequente ver as quadrilhas de fugidos galegos e asturianos. Finalmente, os “Masidário” seriam detidos no Posto da PVDE em Maio de 1938 e expulsos pelo porto de Lisboa três meses depois rumo a Casablanca (norte de África).
Nesse contexto de ambígua permissividade das autoridades portuguesas, cresciam os grupos de refugiados galegos no norte de Portugal. Desde Fevereiro de 1937 que escapara da sua aldeia raiana de Ferreiros por rejeitar o o recrutamento militar, Xosé Fernandez Gonzalez, “O Riso”, e estabeleceu-se no lugar do Ribeiro de Baixo (Castro Laboreiro), que distava uns poucos quilómetros da sua casa e onde permaneciam escondidos alguns vizinhos do seu concelho e desde finais de 1937 um grupo de asturianos que circulavam com certa facilidade em toda a raia seca. “O Riso” converteu-se num dos elementos de contacto entre estes grupos de refugiados e o Partido Comunista Espanhol, sobretudo a partir do fim da guerra civil. Também quando terminou o conflito bélico, Manuel Peréz Rodríguez, cruzou de novo a raia para instalar-se em Portugal no Ribeiro de Baixo (Castro Laboreiro), onde os castrejos lhe arranjaram uma casa e comida.
No fim da guerra civil, na Serra de Castro Laboreiro, o Partido Comunista Espanhol mantinha um ponto de apoio de entrada em território espanhol controlado por vários dos refugiados que ali operavam e que tinham  como base operações as já citadas duas aldeias, o Bibeiro de Baixo e Ribeiro de Cima, muito próximas das aldeias galegas de Pereira e Olelas…



(CONTINUA)

Extraído de: GALLARDO, Angel Rodriguéz (2007) - Refuxiados e Fuxidos nos Montes de Laboreiro. Cuaderno Arraiano, Verão 2007.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Memórias vividas do contrabando em Melgaço no século XX



Em 2016 foi publicado um estudo dedicado ao tema “Memórias de Fronteira em Melgaço: Contrabando e Emigração - Patrimonialização, Musealização e Fruição Turística”, onde a autora, Lídia Aguiar, contextualiza a problemática do contrabando e da emigração em Melgaço, no Norte de Portugal, ao longo do século XX. De certa forma, o artigo é um resgate de memórias em risco de desaparecimento, com o intuito de as divulgar mas também de as poder transformar em produtos turísticos para a fruição do turista cultural, valorizando um património imaterial esquecido, abandonado, frequente e injustamente menosprezado. Trata-se de um ótimo levantamento de testemunhos para memória futura e por isso importa aqui partilhar este extrato:
“Neste artigo, contextualiza-se a problemática do contrabando e emigração clandestina em Melgaço, desde a década de 30 até ao final do século XX. Convocam-se, então, várias memórias, hoje ameaçadas, das suas populações, notoriamente envelhecidas, que importa patrimonializar, registando-as para preservação de identidades. (…)
Para o sociólogo Albertino Gonçalves, o contrabando é uma ação intrinsecamente ligada à fronteira, da qual a população de Melgaço soube tirar partido em função da sua situação geográfica. Três quintos deste concelho confinam com a Galiza, sendo 22Km de fronteira terrestre e 39 Km de fronteira fluvial.
Certo é que ela, em muitos momentos, constituiu um importante motor económico para o sustento das famílias. Homens, mulheres e crianças, carenciados ou abastados, todos participaram, à sua maneira, nesta atividade. Na vida de fronteira, a profissão mais procurada era a de contrabandista.
A verdade é que o contrabando foi evoluindo por ciclos. No arco temporal a que este estudo se refere, inicia-se com o período da Guerra Civil Espanhola (1936 – 1939). Dado o contexto politico assumido por Espanha, este país viria a ficar neste período (desde 1936 até alguns anos após o final da II Guerra Mundial), com as suas relações comerciais com o estrangeiro completamente cortadas. Deve-se entender que a Guerra Civil Espanhola foi um dos mais violentos e cruéis conflitos da História. Opôs os republicanos, então no governo desta nação, aos Falangistas, grupo de tendência fascista e comandado pelo general Francisco Franco. Terminou, em 1939, com a vitória do general Franco, que impôs um regime ditatorial de direita. Entretanto, tinham-se verificado mais de 400 mil mortos; prejuízos enormes na agricultura;
a destruição de prédios, igrejas e casas em várias cidades. Neste mesmo ano, iniciou-se a II Guerra. O general Franco tomou uma posição pró nazi, fação que viria a sair derrotada neste último conflito. Por esta razão, a Espanha, vê-se impedida, pelos países vitoriosos, em aceder aos mercados comerciais internacionais, com normalidade.
Foi pois, a economia subterrânea que forneceu o país vizinho de tudo quanto podia e lhe era solicitado: bens de primeira necessidade, café, aço, peças de automóveis; de tudo um pouco passou quer pelas batelas do Rio Minho, quer pela raia seca, diga-se, Planalto de Castro Laboreiro.
Depois da Guerra tudo ia para a Espanha. Eles não tinham nada. Eu era gaiato pequeno, mas lembro-me bem de ouvir a minha mãe e a minha avó contar isso. Depois de 1945, finda a guerra, houve muita convivência com os galegos.
Isso das fronteiras não afetava nada. Os guardas fechavam os olhos. Ia de tudo para lá: sabão, sal, azeite, imagine que até carros velhos iam, pois eles não tinham nada. Daqui ia muito pão, pois os fornos comunitários trabalhavam todos os dias” Adelino Esteves – Castro Laboreiro – 29/10/2013.
O meu pai guardava café. Tinha café cru em sacos grandes e café Sical já embaladinho. Vinham espanhóis de muito longe buscar, mas os guardas eram muito maus. Era a ditadura. Esta gente levava de tudo: café, açúcar, amendoins, até sabão, linhas e velas, tudo lhes servia para levar. Depois da Guerra foi mesmo uma miséria. Até gente de Vigo vinha cá buscar coisas.” Glória de Jesus Pires – Cevide – 23-1-2014
A partir de 1955, Espanha começa a sua recuperação económica. Havia já passado 10 anos após o final da II Guerra, pelo que os mercados comerciais se começaram a abrir a este país, que rapidamente aproveitou as oportunidades oferecidas. O contrabando toma então dois sentidos, já que a diferença cambial começa a favorecer os Portugueses na compra de bens em Espanha.
As trocas comerciais intensificam-se. Para que, neste novo contexto, o contrabando seja bem-sucedido, a boa organização tornou-se essencial. Aparecem, então, as primeiras redes bem organizadas, conduzidas pelo que a população ainda hoje denomina “Os Senhores do Contrabando”.
Foi então que vieram os Senhores do Contrabando: Sr. Freitas, Sr. Alexandre, O Rita dos Casais. Esse tinha uma batela no rio e o cunhado Miguel e ainda o Maia de St. Gregório” Glória de Jesus Pires – Cevide – 23-1.2014
Alguns destes “Senhores do Contrabando” organizaram-se em consórcios, criando verdadeiras redes que atingiam todo o país e se alargavam igualmente a Espanha. Estas associações eram bastante complexas. Envolviam muito capital e muitos homens e mulheres a trabalhar para elas (carregadores, condutores, bateleiros, fornecedores, intermediários e informadores). Os meios logísticos também eram fundamentais, como as batelas, carros, camiões, radiotransmissores. Perante esta complexidade, era essencial que a rede fosse flexível e estivesse preparada para agir perante os imprevistos. Um dos mais perigosos, era sem dúvida, a patrulha da Guarda-fiscal.
Tudo poderia estar bem organizado, mas o grande sucesso das cargas esteve sempre dependente de conivências da Guarda-fiscal. Era, pois, normal os guardas-fiscais fazerem, eles próprios, uma contabilização do despacho das mercadorias, na hora da carga, para depois receberem a sua parte do negócio.
Eu trabalhei para os Senhores do Contrabando, o Sr. Freitas, o Sr. Alexandre, O Rita dos Casais e o Maia de S. Gregório. As pessoas aqui do regato trabalhavam por uma miséria. Carregava 50Kg a 75Kg de caixas atadas por cordas. Os guardas chegavam quando o camião já estava quase carregado, para verificar a quantidade e receber o seu. Por vezes ainda ajudavam a carregar. Digo-lho eu que estava presente.” Antero Pires – Cevide – 23-1-2014
Todos os recursos de fuga às autoridades de pouco serviriam sem a conivência das próprias. Neste contexto, verifica-se que estes consórcios vão sofrer mais apreensões longe da linha de fronteira, quando os interessados transportavam as mercadorias para as cidades como Braga, Porto, ou Lisboa.
O último contrabando que por aqui existiu foi o das bananas. Carregou-se muita banana. Só na altura em que veio para cá o Tenente Abrantes, o conhecido Zeca Diabo, é que tivemos de cortar um bocadinho, que esse não alinhava. Mas depois tudo continuou. De Ponte da Barca até ao Porto é que era tudo mais complicado. Sabe como é, o pessoal via muitas carrinhas a sair daqui serra abaixo e a coisa dava nas vistas (…)” João António Abreu – Melgaço – 22-1-2014
O contrabando evolui por ciclos. Em Melgaço, o café foi um dos ciclos mais longos, dado Portugal ser excedentário neste produto, devido à produção que lhe chegava das suas ex-colónias. Um outro ciclo importante foi o do gado, que se inicia na década de 60 e perdurou praticamente até abertura das fronteiras. Este tomou os dois sentidos.
Para Portugal vinham vacas e para Espanha seguiam vitelos. Este grande ciclo de gado coexistiu com o último grande ciclo, ou seja, o das bananas, tendo este tido inicio só no inicio da década de 70.
Juntamente com estes produtos, ao longo dos anos as mercadorias contrabandeadas foram muito diversas. Desde o tabaco, gado suíno e ovino, bacalhau, azeite, ouro, prata, cobre até peças de automóveis inteiros que depois eram montados em Espanha. De tudo um pouco passava ora num sentido, ora no outro, utilizando quer a raia seca quer as batelas do Rio Minho.
A mulher contrabandista assumiu um papel importante. São astutas por natureza, ou porque a vida assim as fez. Na sua larga maioria entregavam-se ao contrabando por conta própria: ovos, galinhas, café, e na perspetiva inversa, farinha e azeite para Portugal. Numa época mais tardia, peças de vestuário, perfumes, chocolates e bacalhau. Era normal elas recorrerem a peças de vestuário apropriadas para disfarçar o transporte de mercadorias mais contrabandeadas. Também o uso de longas tranças enroladas lhes permitia esconder no cabelo peças pequenas. O que foi muito usado para o tráfico de divisas e jóias.
O tráfico de divisas, também conhecido por bolsa negra, era largamente utilizado pelos emigrantes espanhóis, que face à ditadura do seu país, estavam impedidos de enviar as remessas de dinheiro diretamente às suas famílias.
Desta forma, este era depositado em Portugal e levantado pelos contrabandistas que em seguida o passavam ilegalmente para Espanha e o distribuíam aos familiares dos emigrantes.
“Ir a Espanha era um trabalho para quem não tinha medo à vida. Por vezes tinha de se fazer mais quilómetros para fugir aos guardas, é que nós não podíamos repartir com eles. Os melhores dias eram os de nevoeiro ou chuva miudinha. Assim eles não andavam pela serra. Fomos ganhando para ter para a casa; ia então buscar, bacalhau, azeite, chocolate, baunilhas e tudo o que me encomendassem, assim ganhava o meu vendendo porta a porta. Lá ia eu com o carrego à cabeça e os meus filhinhos pela mão. Era uma vida bem dura. Mas lá nos governamos com uns tostões. Sim que os nossos governantes só (…)” Maria Emília Domingues – Cousso – 7-1-2014.
O contrabando foi um negócio lucrativo, mas efémero. Enquanto durou, criou muitos comércios e alimentou muitas famílias. Deve-se compreender que constituindo uma economia paralela, os seus lucros nunca foram orientados para o desenvolvimento local. Permitiram, no entanto, uma sobrevivência condigna a uma população pobre, que vivendo num território limítrofe, dependia de uma parca agricultura e pastorícia de subsistência."


Fontes citadas:
- AGUIAR, Lídia (2016) - Memória do Contrabando e Emigração Clandestina em Melgaço: Patrimonialização E Musealização. In: Percursos & Ideias, Revista Científica do ISCTE, Cadernos de Turismo - Nº 7 - 2ª Série 2016.

- GONÇALVES, Albertino (2008) - Memórias do Contrabando no Concelho de Melgaço cit in Boletim Cultural de Melgaço (2008) pp 33-39. Melgaço: Câmara Municipal de Melgaço.