sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Pedia-se uma estrada de S. Gregório (Melgaço) a Valença (1866)

S. Gregório (Melgaço), no início do século XX

Ao longo dos tempos, uma das principais razões do lento desenvolvimento de Melgaço é a fraca acessibilidade, fruto do crónico mau estado das suas estradas e caminhos. Em meados do século XIX, a estrada entre Valença e S. Gregório (Melgaço) encontrava-se intransitável e no Inverno, a subida das águas do rio Minho, em algumas áreas, cortava a circulação durante as alturas mais chuvosas.
Tais factos são discutidos num debate no Parlamento em 25 de Maio de 1866, onde um deputado se refere ao lastimável estado deste itinerário, pedindo ao Ministro das Obras Públicas a construção de uma estrada decente entre Valença e S. Gregório. Nas atas parlamentares, podemos ler que “O Sr. Joaquim Maria Osório (sobre a ordem): — Mando para a mesa a seguinte proposta:
Não posso deixar de chamar à atenção do inteligentíssimo ministro das Obras Públicas para o estado em que infelizmente se acha a estrada de Valença a S. Gregório no concelho de Melgaço. É ele de tal natureza, que o excelentíssimo antecessor de Sua Excelência, o Sr. Conde de Castro, em uma das ocasiões a que aludi a este assunto, nesta casa e daquela mesma cadeira me disse que há quarenta anos, estando Sua Exelência em Melgaço, se tinha contristado de ver o miserável estado desta estrada, já então intransitável.
Na actualidade, pôde Sua Excelência ajuizar qual será o seu estado, e quais serão os perigos a que se têem sujeitado os habitantes dos concelhos de Valença, Monção e Melgaço, que se vêem na dura precisão de a transitarem. Tornando-se estes perigos muito mais graves nas ocasiões invernosas, em que o rio Minho com as suas cheias a inunda.
Acresce a este mal os prejuízos que sofrem os proprietarios de não poderem levar os seus géneros agrícolas e industriais aos pontos de consumo.
Não tratarei agora de enumerar os factos lamentáveis que se têem dado naquela estrada, porque não desejo cansar a atenção da câmara e a do nobre ministro. Mas não posso deixar de chamar a atenção de Sua Excelência sobre a quase paralisação em que se acham os trabalhos da estrada dos Arcos a Monção, pelo diminuto pessoal que ultimamente ali se tem empregado. Espero que Sua Excelência dê as providências necessárias para activar a construção desta estrada, e para mandar continuar os trabalhos na direcção de Melgaço, por ser essa a directriz a seguir.
Também não posso deixar de chamar a atenção do nobre ministro sobre o estado em que se encontra a estrada de Valença a Paredes de Coura.
A câmara sabe que Coura é um ponto importantíssimo para o comércio, porque é sem duvida o celeiro do Minho, e os proprietários não têem meios alguns de fazerem sair os seus géneros agricolas para consumo, como acontece aos de Melgaço e Monção, do que lhes resulta graves prejuízos.
Confio que o nobre ministro tomará em consideração estas minhas observações, que são verdadeiras. Leu-se na mesa a seguinte proposta: Proponho que da verba, destinada para as estradas, seja aplicada a quantia necessária para a construção das estradas de Valença a S. Gregorio no concelho de Melgaço, e da de Valença a Paredes de Coura no concelho de Valença.
O deputado, Joaquim Maria Osorio.
Enviada á comissão de fazenda.”

Apenas muitos anos mais tarde é que chegaria a Melgaço a dita estrada…

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

As operações militares em Melgaço e a prisão do Vigário de Cubalhão (Melgaço, 1827)


Após a revolta de 1820, que implantou o liberalismo em Portugal, o país conheceu um longo período de instabilidade política, ditado pela oposição entre as fações liberais e as absolutistas e conservadoras. A monarquia constitucional teve dificuldades em se implantar, em parte devido às mentalidades enraizadas, que se opunham vivamente às mudanças jurídicas necessárias à instituição de uma nova ordem social, política e económica.
Em Melgaço, foi uma época de anarquia e insegurança em que os montes serviam de refúgio a bandos de guerrilheiros fieis à causa absolutista e os caminhos e as terras mais altas eram batidos constantemente por soldado leais à causa liberal. Numa publicação da época, o “Imparcial”, de 1827 encontramos provas dos tempos conturbados que se viviam no concelho. Num ofício do Capitão de Infantaria António Manuel de Meireles, este dá conta das operações militares que tem levado a cabo nas terras melgacenses e serras dos Arcos de Valdevez com vista a capturar os combatentes afetos à causa absolutista que se escondiam nas serras de Melgaço ou então fugiam para a Galiza pela raia seca. Numa destas operações, foi preso o Vigário de Cubalhão já que foi apreendido um documento enviado a este pelo Pároco de Lamas de Mouro com vista à angariação de homens nestas paróquias e em Castro Laboreiro para participarem numa revolta contra os soldados fieis ao rei.
“Os dois ofícios abaixo transcritos instruiram cabalmente os nossos leitores dos acontecimentos últimos em S. Gregório, e na raia seca. Eles patenteiam o denodo e valor das nossas tropas, os bem merecidos louvores que merece dos bons portugueses o ativo e bravo José de Caldas Ozório, Tenente de Infantaria 21 e o bem que igualmente se conduziu o Capitão António Manoel de Meirelles, do mesmo regimento:
Exmo. Sr. - Tendo-me recolhido da diligência de que por Vossa Excelência fiu encarregado, levo ao seu conhecimento todos os factos que ocorreram durante a minha digressão, que são os seguintes: Chegando à vila dos Arcos no dia 9  do corrente, encontrei ali 90 homens dos regimentos de Infantaria 3, 9 e Caçadores 12, que tinham sido mandados pelo Exmo. General desta província para o mesmo fim a que eu ia. E como visse que com a chegada daquela tropa se tinham feito públicos os movimentos que se pretendiam fazer sobre as guerrilhas rebeldes. Para ver se podia remediar este mal e conseguia surpreendê-los, ordenei imediatamente aos soldados da 21 que tinham ficado em Coura que avançassem naquela noite para os Arcos; e ao Tenente Caldas, que estava em Melgaço, que marchasse na madrugada dos dia 10 sobre o lugar da Peneda, e atacasse uma partida que ali estava e era capitaneada pelo Tenente de Veteranos de Lindoso, Francisco de Vasconcelos.
No mesmo dia 10, marchei eu para Soajo, aonde tive aviso que o Tenente Caldas tinha batido e dispersado os guerrilhas, fazendo-lhes 4 prisioneiros, e tomando-lhes uma égua com toda a bagagem e correspondência do Comandante e como tivesse igualmente notícia de que a tal guerrilha se estava de novo reunindo em um monte nas imediações do Tibo, marchei no dia 11 para os perseguir e acabarmos a precipitada fuga em que se puseram. Logo que eu me aproximei, e a densidade do monte por onde fugiram, frustaram os meus intentos, e a pacotilha dos ladrões se evadiu.
No dia 12, pus-me em marcha para S. Gregório, e ao meio dia fui atacado em Alcobaça por outra partida comandada pelo Capitão Velozo. Mandei o Tenente Caldas que os flanquasse pela direita, e eu carreguei-os pela estrada. Mas, fugindo eles precipitadamente e em desordem, só lhes pude fazer um prisioneiro, porque o resto se refugiaram  para a Galiza, que agora está servindo de couto de ladrões, e como lá não os podia perseguir, recolhi-me naquele mesmo dia a Melgaço.
A perda dos rebeldes constou de 5 prisioneiros com as suas armas, um bacamarte, uma égua, a bagagem e correspondência do Comandante, e da gente eu eu comandava, só tive ferido um soldado do 21.
Também prendi o Vigário de Cubalhão por me ter sido entregue um ofício que o Abade de Lamas de Mouro lhe dirigia, em cujo encontrei a autorização que o traidor Marquês de Chaves mandou ao Tenente Coronel de Milícias de Braga, António de Vasconcelos Leite Pereira para que sublevasse os povos e reunisse a maior força e número de guerrilha que pudesse para se opôr às determinações do nosso legítimo Rei o senhor D. Pedro IV. Este incendiário papel tem sido espalhado e afixado nas freguesias de Castro Laboreiro e suas imediações pelos párocos dos mesmos como Vossa Excelência verá no ofício do Encomendado do Crasto, que junto lhe remeto.
Se bem que toda a tropa que me acompanhou se portou com o denodo e brio que tem todos os leais portugueses, devo contudo particularizar o Tenente José de Caldas pela atividade e zelo com que desempenhou todas as comissões de que o encarreguei.
Deus guarde a Vossa Excelência.
Valença, 15 de Março de 1827.
Ill.mo e Ex.mo Sr José Maria de Moura - António Manuel de Meireles, Capitão da 21 (Infantaria)". 
Num outro oficio, podemos ler "Ex-mo Sr. - Tendo me recolhido da diligência de que Vossa Excelência me encarregou e ao Capitão Meireles, marchamos desta praça no dia 9, eu, em direitura à vila de Melgaço e ali recebi 80 soldados, 40 de Milícias de Vila do Conde, 20 das ditas de Viana e 20 do regimento 21. No dia 10 às 6 horas da manhã recebi do dito Capitão Meireles um ofício, datado da vila dos Arcos, aonde este referido Capitão se achava para que eu, logo que aquele recebesse, me pusesse em marcha para a Peneda e que ali me conservasse até ele chegar, tomando a estrada que daquele sítio se dirige à Galiza. Às 6 horas e meia da manhã, debaixo dessa grande tempestade me puz em marcha para o dito sítio, que consegui chegar ali à 1 hora da tarde. Logo que me fui aproximando à pequena povoação, foi vista a minha avançada pelo inimigo. Este correu a pegar nas armas e me fizeram algum fogo. Mas como eu carregasse com toda a minha tropa, que apesar do dia de água que tinha sofrido, sempre a levei reunida e os fiz desalojar das posições que tinham tomado, tanto da da ponte que eu notava mais dificultosa, sobre a qual marchei, como da outra, ao pé so santuária, por donde mandei avançar ao Tenente Rodrigo, das Milícias de Vila do Conde, que este bravo. Oficial e soldados, assim como os dos regimentos de Milícias de Viana, nada devem aos da primeira linha. No mesmo instante se pôs o inimigo em uma precipitada fuga, deixando em meu poder 4 prisioneiros, 2 armas, 2 baionetas, 3 boldriés dos ditos, 2 patronas, um traçado de refe, um bacamarte que era a arma do Comandante que os mandava, Francisco de vasconcelos, Tenente da fixe de Lindoso. Tomei uma égua, parte da bagagem deste comandante dentro de um saco, um capote, um casaco, uma fardeta de ganga azul, 2 pares de botas, 2 pares de meias, 2 lenços, um branco e outro de cor, e junto a isto uma porção de ofícios, que já estão em poder de Vossa Excelência, e mais uma mochila, com uma farda, umas calças azuis e uma camisa pertencente a um cabo de Milícias dos Arcos que anda unido a esta Comandante.
No dia seguinte às 5 da manhã fiz marchar o Tenente Rodrigo com 26 soldados pela estrada que atravessa esta áspera montanha sobre S. Bento do Cando 2 povoações da Gavieira, por me persuadir que esta seria a estrada que os soldados rebeldes escapados deviam tomar, e cortando-lhe por este modo a que vai para S. Gregório. Eu marchei com o resto e prisioneiros em direitura à povoação do Tibo, aonde mandei sair o dito Tenente que tinha mandado pela outra estrada. Neste sítio me juntei com o Capitão Meireles, que já aí estava quando eu chegava. Então lhe entreguei a gente que vinha debaixo do meu comando e só tenho a levar à respeitável presença de Vossa Excelência  digna conduta desta brava tropa. Não falando na Infantaria 21, que esta a mim me ensina a ser militar. Fiz mais um prisioneiro sobre Fiães no dia 12, de que já o referido Capitão daria parte a Vossa Excelência em razão de terem cessado as minhas funções.
Deus guarde a Vossa Excelência - Quartel de Valença, 16 de Março de 1827. Ex.mo Sr. José Maria de Moura.

José de Caldas Ozório, Tenente da 21.”

Extraído de: "Imparcial", Edição de quinta feira, 22 de Março de 1827.

sábado, 30 de setembro de 2017

Santuário da Senhora da Peneda em imagens video fantásticas


Veja imagens deslumbrantes em video de um dos locais mais lindos de todo o Portugal, o Santuário da Nossa Senhora da Peneda, na Gavieira (A. De Valdevez). A crença na Nossa Senhora da Peneda tem muitos séculos e baseia-se numa lenda muito antiga…




Segundo Frei Agostinho de Santa Maria, no livro "Santuário Mariano", no concelho do Soajo, entre o lugar de São Salvador da Gavieira e o de Castro, fica uma montanha altíssima de penedos muito grandes, à vista soltos e mal arrumados, tendo entre eles três que entre si formam uma lapa, e tendo em cima deles outro atravessado, de tamanha grandeza que é visto à distância de uma légua. Nesse sítio apareceu a milagrosa imagem da Senhora da Peneda ou das Neves, a 5 de agosto de 1220, mais ou menos, tempo em que se pode chegar àquele sítio, devido às neves que o cobrem a maior parte do ano. Quando entre as penedias uma pastora pastoreava algumas cabras, apareceu-lhe a Senhora, ao que dizem em forma de uma pomba branca voando ao seu redor, e manda-a dizer aos habitantes do seu lugar da Gavieira para ali lhe edificarem uma ermida. A pastora contou aos seus pais o pedido, mas esses não lhe dão crédito. Noutro dia, voltando a pastorinha com as suas cabras àquelas paragens, volta a aparecer-lhe a mesma Senhora numa lapa, e diz-lhe: "filha, já que não querem dar crédito ao que eu mando, vai ao lugar de Rouças (da mesma freguesia de Gavieira), onde está uma mulher entrevada há dezoito anos, e diz aos moradores do lugar que a tragam à minha presença para que ela cobre perfeita saúde". Assim fez a pastorinha e quando a mulher, chamada Domingas Gregório, chega à presença da imagem sagrada, logo ficou livre de todos os achaques que padecia, louvando a Virgem pelo benefício recebido. Frei Agostinho diz que a imagem é tão pequenina, não passando de um palmo de altura, que não foi obra dos homens, mas formada pelos anjos para acudir a remediar aos pecadores. Refere ainda que todos os que presenciaram o milagre de Domingas Gregório ficaram entusiasmados e trataram de construir a capela. Como porém o sítio da lapa onde apareceu a imagem era difícil para a construção, resolvem construí-la mais abaixo. Contudo, a imagem voltava sempre ao lugar primitivo, decidindo-se assim construir ali a ermida. O Pe. Carvalho da Costa, na Corografia Portuguesa, alude a uma tradição diferente. Segundo ele, entre ásperas serras, ao pé de uma altíssima e precipitada penha, foi achada há muitos anos, numa lapa, Nossa Senhora da Peneda, por um criminoso, natural de Ponte de Lima. Este, acoçado da justiça, passava miseravelmente a vida entre aqueles solitários bosques, servindo-lhes de companhia as feras, mas recorrendo a Deus com suas penitências de grande arrependimento, a Senhora consente que ele fosse o primeiro a vê-la depois de tantos anos estar ocula. A imagem, com o corpo tendo menos de um palmo, é de cor morena e tem o Menino Jesus no braço, sendo imagem milagrosa e de grande romagem todos os anos desde 5 de agosto até o dia de São Lourenço (10 agosto). Independentemente das tradições da aparição da Virgem na Peneda, o culto de Nossa Senhora das Neves foi oficializado na comarca de Valença pela Constituição Sinodal, de 1472, e o foral de D. Manuel ao Soajo, de 7 de outubro de 1514, confirma que os moradores daquela vila apascentavam os seus gados na branda da Peneda. Em 1775 já ali haveria uma pequena povoação, visto proceder-se a uma busca às casas dos moradores, para averiguar se tinham furtado tabuados do santuário. 

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

MELGAÇO: um concelho abandonado à sua sorte (1880)



Em 1880, o concelho de Melgaço e a sua Câmara Municipal enfrentavam uma grave crise financeira e a terra parecia abandonada pelo poder central à sua sorte. Isso é o que podemos concluir das palavras do deputado Luiz José Dias no Parlamento na sessão de 9 de Abril desse ano.
Nas atas, podemos ler a intervenção do deputado fazendo um análise da situação precária que Melgaço enfrentava de forma a obter autorização do Governo para que a Câmara pudesse aumentar as receitas provenientes do imposto do sal e poder gastar essa receita para fazer frente às gritantes necessidades do concelho.
Ouviu-se no Parlamento o deputado Luiz José Dias: “A Câmara Municipal do concelho de Melgaço luta com uma grande crise financeira, proveniente dos muitos e pesados encargos que a oneram, pois que, não tendo aquela região do país sido contemplada pelo Tesouro Público, e tendo ela contribuído em larga proporção para os cofres do estado, sem que daí lhe tenham advindo os benéficos melhoramentos, que para outras localidades tem, por vezes, sido proporcionados com mão larga e profusa, e tendo de fazer face a todas as despesas, unicamente à sua custa, sem subvenções de qualidade alguma, tem taxado e tributado todas as fontes de receita direta e indiretamente, exaurindo-as até um limite, além do qual será grande erro económico e financeiro transpor.
O sistema de centralização administrativa, que infelizmente nos tem governado, não se tem esquecido de Melgaço para aumentar os proventos das arcas do Tesouro, menos para obviar ao lastimoso estado de viação publica em que aquele mal afortunado concelho se encontra.
Ao passo que uma grande parte dos concelhos do resto do país se acham atravessados, não só pelas vias de comunicação acelerada, mas ainda por magníficas estradas de todas as ordens, Melgaço acha-se ainda na primitiva, sem meios de trânsito que lhe facilitem, ou ao menos facultem, o transporte de seus produtos. Este facto tem dado lugar à emigração em subida cifra, e, portanto, à restricção da matéria colectável predial, quase única base aproveitável de imposto nas regiões do norte do reino.
A verba do último lançamento da contribuição direta atinge uma percentagem assás elevada sobre todas as contribuições do estado, e mais rendimentos coletáveis.
Estas e outras considerações, que a vossa reconhecida ilustração me dispensa de apresentar, obrigam a Câmara de Melgaço a recorrer aos vossos acrisolados sentimentos de justiça e patriotismo, a fim de que lhe concedais a ampliação da lei de 14 de Maio de 1872, que a autorizou a lançar um insignificante imposto sobre o sal, a todos os casos de despeza legal. Este ato de justiça em nada prejudica o resto do país, porque a lei concede a esta Câmara o despender esse imposto somente num limitado número de capítulos, e ela pede a ampliação desses capítulos sem restricão além da que provier das outras leis existentes.
Pelo que tenho a honra de submeter à vossa reta e esclarecida apreciação o seguinte:
PROJETO DE LEI
Artigo 1.° É a Câmara de Melgaço autorizada a gastar em todas e quaisquer despesas obrigatórias a receita proveniente do imposto do sal, criado por lei de 14 de Maio de 1872.
§ unico. Pode da mesma forma dispor de qualquer fundo atualmente existente, e que tenha aquela proveniência.
Art. 2.° Fica deste modo ampliada a referida lei de 14 de Maio de 1872, e revogada a legislação em contrário.”


A proposta de lei foi admittida e aprovada.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Assim nasceu o Hospital da Caridade de Melgaço

Edifício do antigo Hospital da Caridade
(Foto em http://iasousa.blogs.sapo.pt)

O sonho da construção de um Hospital da Caridade em Melgaço remonta a meados do século XIX. Foi uma ideia lançada pelo Provedor Frei António Joaquim de Santa Isabel Monteiro em 1860 mas que demorou alguns anos a germinar. De facto, apenas em 1872 é que a Santa Casa da Misericórdia de Melgaço consegue obter um terreno com vista à edificação do mesmo. O mesmo foi doado pelo Ministério da Guerra e situava-se dentro da antiga fortificação na zona da chamada obra córnea, junto à então Rua Nova da vila. A dita doação foi levada ao Parlamento, proposta e defendida por Antonio Correia Caldeira, deputado pelo circulo n.º 2, Monção e Melgaço, no debate parlamentar de 14 de Março de 1872. Nas atas dessa sessão parlamentar, podemos compreender a forma e os argumentos usados pelo deputado para convencer a câmara:
“Senhores, há muitos anos que na villa de Melgaço se tem feito sentir a necessidade de um hospital de caridade, onde os desgraçados possam encontrar um abrigo quando, acommetidos pelas enfermidades, lhes seja impossivel continuar sua vida laboriosa. A irmandade da Misericordia desta villa, compenetrada de tais sentimentos e também convencida de que o exercício da caridade, a maior e a mais augusta das virtudes evangélicas, constitui o principal fim da sua instituição, deliberou erigir na dita vila um hospital de caridade, dependente da mesma irmandade, para o que já obteve a necessaria autorização do governador civil do distrito, a qual lhe foi concedida por alvará de 28 de Novembro de 1860.
Para a construção de tão útil estabelecimento, e atendendo aos escassos recursos destinados à mesma, a mesa da Santa Casa da Misericórdia da vila e Praça de Melgaço solicitou e obteve do governo a concessão da pedra de uma parte da antiga e arruinada muralha do castello daquella vila, que lhe foi concedida por Portaria de 6 de Agosto de 1863.
Têm decorrido alguns anos, durante os quais a referida irmandade, coadjuvada por uma comissão expressamente nomeada para promover a realização de tão útil melhoramento, tem para este fim empregado os maiores esforços, chegando a conseguir das irmandades e confrarias do concelho, a aplicação de parte dos seus rendimentos para a sustentação do projectado hospital, e ajuntar alguns meios, ainda que poucos, para acorrer às despezas de construção.
Ouvidos os facultativos do concelho acerca do local mais apropriado para levantar o respectivo edificio, e ouvida também a opinião de mais dois facultativos, bem como a opinião do conselho de distrito, assentou-se que a construcção do hospital de que se trata deveria efectuar-se no terreno pertencente ao ministério da guerra, onde existiu a antiga obra córnea da Praça, a qual confronta ao norte e nascente com terras do Francisco Joaquim Lobato, do poente com o quintal de Joaquim Maria de Magalhães e casa em construção do médico João Luiz de Sousa Palhares, e do sul com a Rua Nova da villa, medindo de superficie 1 381,8 m2.
Atendendo, pois, a que a importância militar de Melgaço é tão diminuta, que pouco se pode esperar que, de futuro se empreendam nas suas fortificações melhoramentos, a respeito dos quais possa vir a dar-se inconveniente em ter cedido o terreno pedido; atendendo igualmente a que o rendimento que o Estado deixará de receber, concedendo-se o aludido terreno para o fim indicado, é realmente tão limitado que não vale a pena, só para o não perder, em obstar a que se realize o louvável empenho da mencionada irmandade, tenho a honra de submeter à vossa apreciação o seguinte projeto de lei:
Artigo 1.° É o governo autorizado a conceder à mesa da Santa Casa da Misericórdia da Vila e Praça de Melgaço, 1 381,8 m2 do terreno em que assentava a antiga obra córnea da dita Praça, para ali ser edificado um hospital de caridade.
Artigo 2.° A indicada extensão de terreno será única e exclusivamente destinada para o fim mencionado no artigo antecedente, devendo reverter ao Estado se no prazo de cinco anos, contados da publicação deesta lei, as obras não estiverem de tal modo adiantadas, que não reste dúvida sobre a sua verdadeira aplicação.
Artigo 3.° Fica revogada a legislação em contrário.

Sala das sessões da camara dos deputados, 14 de Março de 1872. Antonio Correia Caldeira, deputado pelo circulo n.º 2, Monsão e Melgaço.
Foi admitido e enviado à respetiva comissão.”

Em Fevereiro de 1876, seria lançada a primeira pedra deste Hospital da Caridade de Melgaço, muito impulsionada pelo notável José Cândido Gomes d'Abreu...

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Melgaço no documentário "Portugal de Norte a Sul - O Minho" (1956)


Este é um vídeo promocional da região do Minho realizado em 1956 por F. Evaristo. Podemos ver algumas imagens de Melgaço, nomeadamente de Castro Laboreiro, do Mosteiro de Paderne e da fachada da igreja de Santa Maria da Porta, na vila de Melgaço.
Mostram-nos também aspectos da paisagem minhota na época, “especialmente Ponte da Barca, Ponte de Lima, Braga, Guimarães e Viana do Castelo. Festas do São João em Braga, das Rosas em Vila Franca do Lima e da Agonia em Viana do Castelo”.
F. Evaristo - Realizador
Portugal, 1956
Género: Documentário
Duração: 00:33:35, 24 fps
Formato: 16mm, Cor, com som
AR: 1:1,37

Fonte: Cinemateca Portuguesa.